Acessar o conteúdo principal
Violência contra a Mulher/ Brasil

Rio de Janeiro: Dentistas levam sorriso de volta a mulheres vítimas de violência

Ana Claudia Rocha, vítima de violência conjugal desde os 15 anos, recuperou o seu sorriso aos 39.
Ana Claudia Rocha, vítima de violência conjugal desde os 15 anos, recuperou o seu sorriso aos 39. RFI/Sarah Cozzolino

Neste Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, a RFI foi até o Rio de Janeiro conhecer o projeto Apolônias do Bem, que se dedica a reconstruir bocas de mulheres vítimas de violência conjugal. 

Publicidade

Sarah Cozzolino, correspondente da RFI no Rio de Janeiro

Elas são vítimas de violência doméstica e, em muitos casos, suas mortes ocorrem após uma série de ataques físicos e psicológicos. Seus cônjuges atacam primeiro a boca e os dentes. Então, para fazê-las sorrir de novo, uma rede de dentistas voluntários cuida dos dentes de mulheres que não podem pagar nem uma consulta, quanto mais um tratamento.

Ana Claudia Rocha reaprendeu a sorrir e a passar batom aos 39 anos. Ela tinha apenas 15 anos quando começou a receber os primeiros socos, enquanto estava grávida de sua primeira filha. Então, aos 22 anos, foi espancada por seu novo companheiro, e em poucos anos ela só tinha os quatro dentes da frente.

"Antes de fazer todo esse tratamento, eu não tinha mais confiança em mim. Eu não sorria mais... Passei 20 anos sem sorrir. E depois de tudo isso, meu encontro com a ONG, a ajuda deles... Comecei a sorrir, e agora sorrio o tempo todo! Porque a vida é linda, então eu tenho que sorrir", comemora Ana Claudia.

Essa mulher, negra e moradora de favela, nunca teria meios de dar o lindo sorriso que tem hoje sem a associação "Apolônias do Bem" - o nome vem de Santo Apolino, padroeiro dos dentistas. Os implantes, próteses e cuidados que ela recebeu lhe custariam mais de R$ 30.000, o dinheiro necessário para comprar duas casas na sua comunidade.

Foi o dentista Armando Piva que a recebeu em seu consultório no bairro nobre da Barra da Tijuca. ”O governo fornece uma ajuda medical, jurídica e psicológica, mas não oferece nenhum tratamento odontológico. E na maioria das vezes a boca é a primeira [parte do corpo] a sofrer com a agressão”, diz Piva.

Mulheres devem estar separadas há pelo menos 3 meses

É a razão pela qual as mulheres que são atendidas pelo projeto devem denunciar seus agressores e estarem separadas deles há pelo menos três meses. Já aconteceu de uma paciente de Armando Piva ser assassinada durante o tratamento. Ou ainda casos em que os companheiros voltaram a desfigurar a boca das pacientes já em tratamento.

“Existem agressões simplesmente pelo fato de elas serem paqueradas por outros homens ou para que elas não possam mais reagir verbalmente. A gente não fala só de socos, a gente tem casos de agressões com ferro, com pedra, com uma faca, de cotoveladas, de chutes no rosto”, conta o dentista.

No início, Ana Claudia estava aterrorizada com a simples ideia de ir ao dentista, pois, quando ela começou a perder seus dentes, aos 20 anos, ela foi a um dentista que tentou estuprá-la.

Neste projeto, ela foi primeiro recebida por uma mulher, Maria Fernanda, especialista ortodontista e mulher de Armando Piva. “Nas primeiras vezes que ela vinha aqui, ela chegava com medo, chorando, toda envergonhada, ela não sorria. À medida que o tratamento foi avançando, ela começou a falar; hoje em dia, quando ela chega, ela fala com todo mundo, com um sorriso nos lábios. Ela virou uma outra mulher”, diz Maria Fernanda.

Depois da criação da ONG, em 2012, 1.100 mulheres tiveram acesso aos tratamentos, graças a doações privadas, de laboratórios ou dos próprios dentistas, e puderam voltar a sorrir e a ter auto-estima.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.