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Com vendas impulsionadas por post de Bolsonaro, Laura Carvalho propõe uma reforma radical do sistema

Áudio 07:03
A economista Laura Carvalho.
A economista Laura Carvalho. Arquivo Pessoal

Criticada por Bolsonaro, a economista e professora da USP Laura Carvalho se define como social-democrata e é crítica da política econômica dos governos Lula e Dilma. Após ter a capa (vermelha) de seu livro “Valsa Brasileira: do boom aos caos econômico”, que analisa a economia do Brasil entre 2006 e 2017, reproduzida num tuíte do presidente brasileiro, Laura Carvalho viu as vendas da publicação chegarem ao primeiro lugar, um ano e meio após o seu lançamento.

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Segundo ela, o presidente brasileiro pretendia atingir o novo ministro da Economia argentino, o jovem Martín Guzmán, que, por sua vez, havia recomendado a leitura da obra da brasileira. “Ele relançou o meu livro”, comemora.

Doutora em economia pela New School for Social Research com pesquisa em macroeconomia e economia do desenvolvimento, Laura conversou com a RFI diretamente de Genebra, onde apresentou um painel na Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre políticas de pleno emprego na América Latina.

Tentativa de desqualificação

“Na verdade, ele [Bolsonaro] usou o meu livro para criticar ou tentar desqualificar o recém-nomeado ministro da Economia argentino. No fundo, acho que, diante da falta de informações e do pouco desejo de buscar informações sobre o ministro, ele tentou associar o ministro argentino à esquerda brasileira, com um apelo para o seu público; que obviamente não gosta da esquerda brasileira”, afirma.

Ela reconhece que, no fundo, foi benéfico ter sido criticada por Bolsonaro.
“Claro que o objetivo dele tem sido sempre desqualificar tudo o que vem da cultura, da universidade, da ciência e tecnologia, das ONGs… Ele escolhe inimigos e mobiliza o seu exército contra estes inimigos. Mas a consequência prática disso é que o campo democrático, que percebe estes ataques, acaba reagindo. E, neste caso, reagiu comprando o livro. O livro já tinha sido lançado havia um ano e meio e evidentemente, com isso, ele relançou o livro”, conta.

Críticas aos governos do PT

Apesar de ser associada à esquerda, em seu livro Laura não poupa críticas às políticas econômicas do segundo mandato de Lula e dos mandatos de Dilma.

“No governo Dilma, eu critico muito o que eu chamo de Agenda Fiesp, que na verdade é um plano que o governo adotou para tentar incentivar a indústria brasileira, por meio de desonerações, controle de tarifa de energia elétrica, desvalorizando a moeda brasileira, para tentar tornar as nossas exportações mais competitivas” explica.

“Esse plano fracassa e acaba custando caro, tanto de vista do orçamento público, à medida em que o governo arrecada menos com estas desonerações, quanto também a própria economia acaba sofrendo com várias destas medidas que substituem o antigo pilar dos investimentos públicos por estes incentivos para o setor privado que não geram resultados”, acrescenta.

“No caso do governo Lula, eu critico a dependência das commodities, que faz com que, claro, seja possível crescer distribuindo, mas depois, quando o cenário externo se reverte, este crescimento acaba não se sustentando, o 1% mais rico da população continuou concentrando uma alta parcela da renda ao longo de todo este período. A redistribuição acontece do meio da pirâmide para a base e não do topo para a base e isso também cria uma insustentabilidade do processo ao longo do tempo”, analisa a economista, que é também professora da FEA-USP.

Desigualdade

Assim como o economista francês Thomas Piketty, autor de “O Capital no século XXI” e “Capital e Ideologia”, Laura considera que a desigualdade é um projeto político. Ela explica, tomando como exemplo o Brasil.

“Acho que, no caso do Brasil, [a desigualdade] é algo tão estrutural que até o sistema político brasileiro já é organizado em torno dessas abissais desigualdades e as reproduz, distanciando cada vez mais as esferas de decisão dos interesses da maioria. A desigualdade se reflete numa concentração do poder, na hora de distribuir o orçamento público, de definir para quem vai cada fatia do bolo, quem arca com os frutos da crise. E isso gera mais descrença no próprio sistema democrático”, considera.

Para mudar isso, a economista propõe uma “reforma tributária profunda”. “Precisamos que se aumente a tributação sobre a renda dos mais ricos, que pagam muito pouco, e sobre o patrimônio: imposto sobre a herança, IPTU, imposto sobre a propriedade, que também é muito baixo no Brasil. Teria que se criar alíquotas adicionais para quem ganha acima de R$ 300 mil por ano, que hoje estaria entre o 1% mais rico do Brasil”, defende, entre outras medidas.

Socialismo

Laura participou da primeira fase da elaboração do programa econômico do PSOL em 2018, mas diz não se considerar socialista.

“Eu não me considero socialista, mas social-democrata. Enquanto macroeconomista, eu me especializo em trabalhar reformas do sistema capitalista. Reformas radicais, claro, ainda mais considerando o nível de desigualdade que nós temos no Brasil, que não esta só na renda, esta em todas as dimensões: no acesso aos serviços públicos, ao saneamento, à infraestrutura básica”, afirma ela.

“O sistema deveria ser reformado de forma muito radical para que os ganhos sejam distribuídos igualmente e que a oportunidade também seja distribuída igualmente numa sociedade escravocrata como a brasileira”, continua.

Laura tem 35 anos e faz parte da geração de Martín Guzmán, o novo ministro da Economia da Argentina, mas também da nova primeira-ministra da Finlândia, a social-democrata Sanna Marin, de 34, e do ex-candidato à presidência do PSOL, Guilherme Boulos, com 37. Sobre esta geração de esquerda ou centro-esquerda, ela afirma:

“Acho que a crise de 2008 acabou funcionando como um divisor de águas em que, no mundo inteiro. Quem está entendendo os efeitos sobre as desigualdades das políticas que foram realizadas nos últimos 30 anos está certamente comprometido com uma visão de mudança e de transformação mais radical. Ao mesmo tempo, a gente enfrenta desafios maiores.”

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