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Papel das mulheres na construção de Brasília é tema de palestra em Paris

Áudio 06:57
Tania Fontenele - Diretora Poeira e Batom no Planalto Central
Tania Fontenele - Diretora Poeira e Batom no Planalto Central RFI

A brasiliense Tânia Fontenele, autora do filme “Poeira e Batom no Planalto Central”, sobre o papel das mulheres na construção de Brasília, esteve em Paris para falar sobre a sua pesquisa e lançar a ideia de um museu de memórias femininas. O filme, que mistura imagens de arquivo às entrevistas, foi apresentado em Paris durante uma palestra da diretora na Universidade Sorbonne.

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Ela entrevistou 50 mulheres, que chegaram ao Planalto Central entre 1956 e 1960, 50 anos depois da construção da capital federal. O filme se transformou em livro, lançado em 2010, nos 50 anos de Brasília, em exposição fotográfica, e Tânia agora tem um projeto de um museu de memórias femininas.

“O ‘Poeira e Batom’ nos trouxe muitas satisfações. Não só a gente lançou o filme em 2010, mostrando a invisibilidade destas mulheres, como também um livro e esta exposição de fotos. Com o tempo, a exposição foi sendo ampliada, com roupas, objetos da época, documentos. A pesquisa já tem dez anos e a gente continua, não tem como parar. Ainda tem muitas mulheres que a gente gostaria de ouvir”, explica Tânia, que já expôs no Senado Federal, em uma mostra que acolheu 35.000 visitantes.

“Temos recebido muitas doações, queremos ampliar este acervo, que precisa ter um espaço permanente, que seja o museu das memórias femininas de Brasília. E a gente está falando das memórias de uma cidade que não é uma cidade qualquer; é uma cidade única e é a capital do Brasil. Ela tem um nível de representatividade muito grande”, lembra Tânia, que gostaria de lançar um concurso de arquitetas para construir este espaço.

50 anos

Brasília foi construída a partir da vontade de um presidente, Juscelino Kubitschek (1956-1961), que tinha como lema desenvolvimentista o plano de fazer “50 anos em 5”, como era chamado o seu Plano de Metas.

Tânia aproveitou a efeméride de 50 anos da inauguração para lançar o seu filme.
“A ideia era mostrar que, neste percurso de 50 anos da construção de Brasília, esta cidade que é incrível, toda planejada, de arquitetura moderna no século XX, se falava muito pouco das mulheres. Se falava de Oscar Niemeyer, de Lúcio Costa, de Burle Marx, dos candangos, mas não das mulheres”, explica a brasiliense de primeira geração, sobre o filme, feito em 2010.

Diversidade feminina e de olhares

“Quando se falava em mulheres, se citava a Sarah Kubitschek e a Dona Julia, esposa e mãe do presidente, respectivamente. Então a gente começou este projeto, chamando-o de ‘Mulheres Invisíveis na Construção de Brasília’, porque eu percebia que uma geração de mulheres que chegaram antes da inauguração estava começando a morrer”, relata a documentarista, que entrevistou perfis distintos.

“A minha tentativa, na seleção destas mulheres, foi fazer o mais amplo escopo possível, ter mulheres de todas as partes do Brasil, que é um país gigantesco. Para Brasília convergiram pessoas de todo o Brasil e do mundo também”, diz ela, que também se preocupou em mostrar a diversidade de classes sociais destas pioneiras.

“No filme, há mulheres que chagaram lá de paus de arara, que passavam dez dias dentro de um caminhão para chegar ao Planalto, que tinham muitas dificuldades, estavam fugindo da seca, como também havia mulheres formadas: professoras, a primeira médica de Brasília, que veio do Rio Grande do Sul, parteiras, lavadeiras etc.”, conta ela, que, com esta diversidade, quis mostrar também várias formas de ver o Brasil.

“Teve parteiras que eu entrevistei que faziam os partos a cavalo, porque não tinha estradas naquela época”, relata.

Olhar estrangeiro

Tânia recolheu também o testemunho de mulheres estrangeiras: espanhola, libanesa, japonesa… “Eu quis mostrar que Brasília recebeu pessoas de outras partes do Brasil. Teve uma alemã que veio órfã, fugida da II Guerra, foi para Friburgo, uma área de alemães no Rio de Janeiro, e lá ela se apaixonou por um jovem que foi ser gerente do banco da Cidade Livre, que foi a primeira cidade que tinha lá, era uma cidade provisória”, conta.

“Ela disse que recebeu do marido, por carta, uma foto do que viria a ser a casa deles. Ela conta que, quando recebeu a foto, pensou que era um galinheiro, ela não sabia se ria ou se chorava. Quando chegou, viu que a casinha deles era um armazém com as coisas que iam construir o Banco do Brasil. Depois ela viveu lá e criou todos os filhos e netos em Brasília, nadando no Lago Paranoá”, acrescenta.

 

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