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Historiador relembra embaixador brasileiro que salvou centenas dos nazistas, 75 anos após Auschwitz

Áudio 07:14
O historiador Fabio Koifman é autor do livro "Um Quixote nas Trevas" (Record, 2012), sobre o embaixador brasileiro Souza Dantas.
O historiador Fabio Koifman é autor do livro "Um Quixote nas Trevas" (Record, 2012), sobre o embaixador brasileiro Souza Dantas. Foto: Arquivo Pessoal

Embaixador do Brasil na França entre 1922 e 1944, prisioneiro de guerra detido na Alemanha, Luiz Martins de Souza Dantas (1876–1954) ajudou centenas de pessoas perseguidas pelos nazistas a emigrar para o Brasil mediante a emissão de vistos. O historiador Fabio Koifman conta a história de Souza Dantas no livro "Um Quixote nas trevas" (Ed. Record, 2002, São Paulo).

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*Para ouvir a entrevista na íntegra clique no botão play

Fabio Koifman reuniu mais de 7.500 documentos e listou 245 nomes de pessoas salvas por Souza Dantas. Com base em sua pesquisa, ele escreveu a biografia do embaixador. Segundo o historiador, "Dantas bateu de frente com o governo colaboracionista de Getúlio Vargas ao salvar judeus, comunistas e homossexuais da deportação para campos de concentração".

Quando a França foi invadida pela Alemanha nazista, e o governo francês trocou a capital francesa de Paris para Vichy, e a única esperança de salvação para os judeus em solo francês passou a ser a emigração, e um dos destinos era o Brasil. "Ele ajudou pessoas em Paris antes da Liberação, mas só começou a liberar vistos de próprio punho quando o governo saiu da capital", conta o autor.

Apesar da política restritiva de imigração do governo Vargas na época, Souza Dantas, desafiando a proibição, teria concedido cerca de 500 vistos e ajudou mais de 800 pessoas a fugir da barbárie nazista. Em 1941, a investigação administrativa realizada contra ele, acusando-o de fornecer "vistos irregulares" e ao final da qual ele foi convocado a se aposentar, não o impediu de continuar a emitir vistos. Além disso, o embaixador permaneceu em seu posto, porque era impossível substituí-lo durante esse período conturbado.

As portas da embaixada brasileira em Vichy, onde a delegação brasileira havia sido transferida, permaneceram abertas para os ameaçados. Koifman lembra que o carro onde estava Souza Dantas chegou a ser metralhado durante a ida a Vichy, em plena ocupação. "Depois que foi processado, ele foi forçado a conceder os vistos à mão, porque não existia serviço consular brasileiro", diz o historiador.

Em 1943, a sede da Embaixada do Brasil foi invadida por oficiais nazistas. O embaixador e seus assessores foram deportados para Bad Godesberg, na Alemanha, e trancados em um hotel até março de 1944, quando foram trocados por prisioneiros alemães no Brasil. 

"Justo entre as nações"

Em Paris, uma placa presta homenagem a Souza Dantas no local da antiga Embaixada do Brasil (Avenida Montaigne, 45). Em 2003, o Yad Vashem (o memorial do Holocausto para o povo judeu em Israel) também concedeu ao embaixador brasileiro o título de "Justo entre as nações". 

Sobre o fato da América do Sul ter recebido a diáspora judia da Segunda Guerra, mas também, posteriormente, inúmeros fugitivos nazistas, Koifman afirma que se tratava de uma predileção pela "imigração branca". "O país se mantece interessado em receber imigração europeia, branca. Eles tinham uma política migratória que privilegiava gente com o que era considerado 'uma boa formação étnica', uma espécie de eugenia", analisa.

Questionado sobre as acusações de que o primeiro escalão do governo atual, de Jair Bolsonaro, flertar diretamente com a ideologia nazista, no ano em que a França celebra os 75 anos da liberação dos judeus do campo nazista de Auschwitz Birkenau, Fabio Koifman lamenta. "É um desconhecimento, uma apropriação de valores, o presente não tem nenhum nexo com o passado. Mas alguns aspectos da estrutura nazista de governos autoritários são revistos hoje em dia", diz. "É lamentável por que isso revela o pouco da percepção dessas pessoas sobre o que é cultura e liberdade". 

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