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“Governo brasileiro não se envergonha do seu autoritarismo”, diz historiador

Áudio 07:00
O historiador Paulo César Gomes nos estúdios da RFI em Paris.
O historiador Paulo César Gomes nos estúdios da RFI em Paris. RFI

“Fazer história pública dos regimes ditatoriais em tempos de fake news e do negacionismo” é o tema de uma palestra do historiador da Universidade Federal Fluminense Paulo César Gomes, na próxima terça-feira (12), em Paris. O assunto integra a programação de uma meia jornada de estudos organizada pela ARBRE (Associação dos Pesquisadores do Brasil Contemporâneo), intitulada “os desafios de uma década de história pública do Brasil – de Dilma Roussef a Bolsonaro”.

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A reflexão do historiador terá como um dos pontos de partida as manifestações que sacudiram a sociedade brasileira em 2013 e culminaram no impeachment da presidente Dilma Rousseff. Além disso, ele se apoia na experiência junto à Comissão Nacional da Verdade para explicar porque o tema da ditadura e os discursos de ódio ganharam força no país nos últimos anos.

“Tudo o que envolveu esse período ditatorial brasileiro, de mais de 20 anos, foi muito presente na imprensa brasileira e isso começou a mexer com humores, não só da sociedade mas do Estado, de pessoas que se incomodavam com o excesso de visibilidade que esse tema da ditadura começava a ganhar publicamente”, diz.

Segundo o historiador, a presença quase cotidiana de temas ligados à ditadura na opinião pública foi gerando uma reação que também está relacionada com o contexto político conturbado, que culminou em uma desgaste institucional e na destituição da presidente Dilma Rousseff. “O impeachement levou a uma fragilização que não imaginávamos que iria acontecer em uma velocidade tão grande, até chegarmos ao ponto de termos um presidente de extrema direita que busca fazer, de uma forma bastante autoritária, como é típico deste tipo de figura, uma releitura ‘negacionista’ deste passado ditatorial”, opina.

“É um ‘negacionismo’ que vem junto de uma exaltação do arbítrio. Não é simplesmente negar que houve uma ditadura, mas exaltar a violência como se isso fosse realmente necessário para se conter o avanço do comunismo internacional que adentrasse no Brasil”, acrescenta.

Conhecimento científico deslegitimado

Paulo César afirma que muitos pesquisadores no país se debruçam agora na análise desse retorno dos “discursos que levam às práticas de feição fascista”, muito presentes nas redes sociais. “Estudos mostram que a sociedade brasileira é muito conservadora e tem traços autoritários de longa duração. Não podemos pensar a ditadura como um corte, embora tenha muitas especificidades da maneira como instrumentalizou o Estado para reprimir opositores políticos. Não podemos esquecer que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão. É um dos países com raízes autoritárias muito fortes”, lembra.

Uma das consequências desse discurso é deslegitimar o conhecimento científico e histórico que vem sendo construídos desde o período de redemocratização, com os estudos feitos sobre a ditadura a partir da liberação de documentos oficiais que estavam arquivados e até então inacessíveis para pesquisadores, lembra o historiador. “Como esse discurso vem de cima, do Estado, utilizando as redes oficiais de comunicação para legitimar o autoritarismo e a negação da história, desvaloriza o ensino, a produção universitária que é reconhecida internacionalmente como de muita qualidade”, lamenta.

“Quando esse discurso parte das autoridades, encoraja as pessoas que já pensavam assim e se sentem fortalecidas para falar, se expressar e mesmo para agir com práticas violentas. Temos cada vez mais denúncias de práticas de violência no cotidiano, principalmente em populações minoritárias como negros, homossexuais, grupos que são desvalorizados”, afirma.

Segundo Paulo César, há um questionamento dentro do meio acadêmico sobre eventuais falhas na disseminação de informações e reflexões sobre o impacto negativo dos anos de chumbo na sociedade brasileira. “Esse esforço de trabalhar a divulgação histórica por diferentes meios, como as mídias sociais, esse esforço vem da dúvida: será que nós não fizemos bem esse trabalho? Mas também não se pode atribuir à academia, de um certo acastelamento dos acadêmicos, de falar para os próprios pares, e produzir textos e livros para um público muito pequeno. Há um esforços, principalmente entre os historiadores mais jovens, de atingir um público mais amplo e de buscar levantar um conhecimento histórico acessível e mais compreensivo para as pessoas e não apenas para especialistas”.

Relações Brasil e França durante a ditadura

Autor do livro “Liberdade Vigiada – As relações diplomáticas entre a ditadura militar e o governo francês: do golpe à anistia”, lançado em junho de 2019, Paulo César lembrou na entrevista à RFI o que mais caracterizou o comportamento dos dois países no período em que o Brasil estava sob o regime militar. Seu interesse pela França, ressalta, se justifica pelo país ter acolhido o maior número de exilados brasileiros e também pela importância que exercia no cenário internacional.

“Havia uma mobilização do governo (brasileiro), diferentemente do que acontece hoje, para mostrar que o Brasil não vivia sob uma ditadura. E havia uma mobilização de fato, de órgãos de informação, de comunicação oficial naquele momento. O grande veículo de disseminação de informações positivas do Brasil era pelos serviços diplomáticos”, recorda.

“A minha conclusão, depois de pesquisar documentos diplomáticos brasileiros e franceses, e fazer um cruzamento dessas informações, é que, prioritariamente, os dois países buscavam fortalecer suas relações econômicas e comerciais”. 

Apesar da pressão que setores da sociedade civil francesa exerciam, como os jornais franceses, Paris não condenou oficialmente o regime militar.  “Havia questionamentos de o porquê a França não ter se posicionado contra o governo brasileiro. A resposta era padrão: não vamos interferir em temas internos dos países. Por trás disso, havia interesse econômicos. A França é uma grande produtora de armamentos militares. Havia interesses comerciais que falavam mais alto do que propriamente as questões relacionadas a direitos humanos”, afirma, citando como exemplo, a compra de aparelhos de caça francês Mirage para equipar as Forças Armadas brasileiras.

Sobre a atual relação política e diplomática entre os dois países, marcada por tensões entre os presidentes Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron, Paulo Cesar apenas arrisca a dizer que não devem voltar a uma situação como já verificada no passado recente.

“Tende a ser diferente porque o governo atual não se envergonha do seu autoritarismo. Não há uma preocupação com a imagem externa do país, como houve durante a ditadura. O que parece pequeno aos olhos do público, tem um peso muito grande na diplomacia e nas relações entre os Estados. As grosserias do governo brasileiro certamente repercutem de maneira negativa. Tenho certeza que a imagem positiva que o Brasil conseguiu construir de certa forma logo depois do golpe de 1964, agora é muito pior. Atualmente o governo é muito mal visto pelos governos [internacionais]. O próprio Macron, pelos seus posicionamentos [mostra] uma satisfação e um incômodo com o Brasil”, conclui.

Veja a entrevista na íntegra no vídeo abaixo

 

 

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