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Carnaval

No Rio de Janeiro, carnaval como remédio para doenças mentais

Integrantes de escolas de samba no carnaval do Rio, em 5 de março de 2019 (imagem ilustrativa)
Integrantes de escolas de samba no carnaval do Rio, em 5 de março de 2019 (imagem ilustrativa) Mauro Pimentel / AFP

O carnaval do Rio de Janeiro começa nesta sexta-feira, 21 de fevereiro. Durante vários dias, centenas de blocos desfilarão pelas ruas, atraindo milhares de foliões. Entre eles, o do Instituto Pinel, um grande hospital psiquiátrico do Rio, brinca com a fronteira entre loucura e normalidade. Pacientes, terapeutas e público se misturam ao ritmo do samba.

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Sarah Cozzolino, correspondente da RFI no Rio de Janeiro

Os olhos de Hamilton de Jesus brilham quando ele canta uma de suas composições sobre a vida no hospital psiquiátrico. Como todos os anos, Hamilton apresenta um samba para a competição do hino que será tocado pelo bloco do Instituto Pinel durante o carnaval. "Isso nos faz trabalhar a mente, exercitá-la, para que a cabeça não fique muito vazia. Então, pensamos e escrevemos algo. Não importa se é bom, muito bom ou ruim... O importante é participar," explica.

Hamilton foi diagnosticado com esquizofrenia como resultado de traumatismo ocorrido na época em que ele servia como soldado durante a ditadura militar. Ele não sabe mais exatamente há quanto tempo está no bloco, mas sabe que tem um talento real. "A loucura tem tanto o aspecto do sofrimento excessivo, que tentamos minimizar por todos os meios, mas também o aspecto de uma imaginação livre, de uma forma de irreverência e criatividade muito interessante,” acrescenta.

Samba como remédio

Alexandre Wanderley é psicanalista e coordena o bloco do Instituto Pinel chamado "Tá pirando, pirado, pirou", um jogo de palavras sobre as diferentes fases da loucura. Há 16 anos, o grupo luta contra uma visão arcaica dos asilos psiquiátricos e defende uma mensagem de inclusão dos pacientes na sociedade. "O objetivo é transformar a imaginação social da loucura, sempre associada a uma ideia de incapacidade, seja de conviver, trabalhar, produzir, criar. Com uma iniciativa como essa, mostramos que tudo isso é preconceito," diz o médico.

No palco, Monique Mattos brilha. Ela venceu a competição para o samba enredo do bloco este ano, com um texto sobre o tema das “fake news”. "Os terapeutas não gostam de nos rotular com base em um diagnóstico. Aqui, sou considerada mais artista do que paciente,” diz a jovem. Fazer parte do bloco a ajudou a recuperar a autoconfiança. "É muito importante para cada um de nós. É um processo de humanização, um remédio. O bloco nos injeta doses de Dona Ivone [Lara], compositora de samba, doses de Cartola. Ficamos bêbados com samba, com loucura e fantasias para viver este mundo de uma maneira mais interessante e menos fechada," explica ela.

Uma mistura feliz

Terapeutas e enfermeiros cantam em coro com os pacientes e seus familiares. Uma mistura que inicialmente surpreendeu Lotus Dutra, 73, um grande fã de carnaval. "Nunca imaginamos que essa coisa maravilhosa pudesse surgir de pessoas com problemas mentais! São eles que compõem e participam. Então, vemos pessoas com mais ou menos problemas. Mas eles são todos maravilhosos,” elogia.

Lotus ficou tão empolgada que comprou a camiseta, o copo e a faixa do grupo, ilustrados pelos pacientes. Uma maneira de apoiá-los, num momento em que a sobrevivência do bloco está cada vez mais ameaçada. Privado de financiamento público este ano, o bloco do Pinel lançou uma campanha de financiamento participativo.

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