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Cinema/Brasil

Participação do Brasil na Berlinale vira ato de resistência contra política de Bolsonaro

Elenco do filme "Todos os Mortos", que representa o Brasil na disputa pelo Urso de Ouro, principal prêmio da Berlinale.
Elenco do filme "Todos os Mortos", que representa o Brasil na disputa pelo Urso de Ouro, principal prêmio da Berlinale. REUTERS/Annegret Hilse

A palavra “resistência” foi uma das mais ouvidas na boca dos diretores brasileiros presentes na 70ª Berlinale. O Festival de Cinema de Berlim, que vai até 1° de março, é marcado neste ano por um número recorde de filmes nacionais, como 19 produções e coproduções participantes. Mas, paradoxalmente, as mudanças nas políticas públicas do país mostram, segundo os cineastas, que a 7ª arte no Brasil nunca esteve tão ameaçada.

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Enviado especial a Berlim

Antes mesmo do pontapé inicial da Berlinale, no dia 20 de fevereiro, o cineasta Kléber Mendonça Filho, que faz parte do júri na competição principal do festival alemão este ano, deu o tom da presença do Brasil no evento. “Este é o melhor momento que o cinema brasileiro já viveu”, lançou o diretor de “Aquarius” e “Bacurau” durante a coletiva de imprensa de abertura da Berlinale. “Mas somos vítimas de uma sabotagem”, completou.

Nunca o país esteve tão presente no evento alemão, seja na competição principal ou nas mostras paralelas. Porém, os diretores que estão em Berlim chamam atenção para a fragilidade dessa exposição recente da cinematografia brasileira no exterior – como foi o caso no Festival de Roterdã, em janeiro desde ano, com 12 filmes selecionados, ou ainda em Cannes, em 2019, com prêmios para “Bacurau” e “A Vida Invisível”.

“Faz muito sentido a gente comemorar esses 19 filmes em Berlim, pois as produções que estão aqui são fruto de um trabalho importante de vários governos, desde Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma, e de vários agentes regionais que batalharam para isso. Mas não significa que o cinema não esteja em risco”, alerta Matias Mariani, diretor de “Cidade Pássaro”, que concorre na prestigiosa mostra Panorama da Berlinale. “O cinema é uma roda com uma inércia muito grande, que demora para parar. Mas teremos um buraco, que deve aparecer entre 2012 e 2022. A questão agora é saber qual será o tamanho desse buraco e trabalharmos para que ele seja o menor possível”, avalia o cineasta.

O “buraco” ao qual se refere Matias é, entre outros fatores, o corte de 43% no orçamento de 2020 do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que permite o financiamento de filmes no Brasil, provocando a paralisação de 4.000 projetos de filmes e séries. O assunto chegou a ser destaque no jornal francês Le Monde deste fim de semana.

Mas esse processo de desmantelamento já vem sendo notado há alguns meses. “No ano passado, todos os investimentos em audiovisual foram paralisados. O governo não liberou nenhuma verba para nenhum filme e várias atividades estão sendo interrompidas”, relata Caru Alves de Souza, diretora de “Meu Nome é Badgá”, exibido em Berlim na mostra Generation. “Estamos vivendo um momento de incerteza muito grande e isso é horrível, pois não sabemos como vai ser o dia de amanhã”, afirma.

Os jovens diretores são os mais apreensivos, pois muitos só conseguem produzir seus primeiros filmes com ajuda de investimento público. Principalmente quando não estão nos grandes centros urbanos, ou quando abordam temáticas vistas como menos rentáveis. “Eu sou um primeiro diretor de longa, moro em Belém do Pará e meu filme só poderia ter sido feito por meio de políticas públicas”, relata Fernando Segtowick, que assina “O Reflexo do Lago”, documentário sobre o impacto das hidrelétricas na Amazônia, que também concorre na mostra Panorama.

Diversidade em risco

“O próprio Prodecine 05 (Fundo Setorial do Audiovisual), edital que premiou “O Reflexo do Lago”, já não existe mais, desde o mandato anterior na Ancine”, explica. “Eu tive o privilégio de fazer esse filme, estrear no Festival de Berlim, mas quantos outros realizadores da Amazônia talvez não possam fazer seus filmes”, questiona, apontando que o principal impacto será a falta de diversidade nas telas. “Há muitos outros diretores e outras regiões que só a política pública pode contemplar, pois o mercado não vai fazer isso sozinho”, avalia Segtowick.

Sem contar as consequências econômicas, já que o cinema é gerador de renda, como ressaltam os diretores de “Todos os Mortos”, que concorre ao Urso de Ouro, principal prêmio da Berlinale. No final do filme, eles lembram, nos créditos, que 700 empregos foram criados com o projeto. "Somos trabalhadores do setor artístico, precisamos viver do nosso trabalho. Criamos coisas que são importantes para pensar o nosso país”, disse Caetano Gotardo, que assina o longa com Marco Dutra.

“Toda uma indústria foi criada, com produtores, profissionais autônomos e muita gente que trabalha com isso”, insiste Luciana Mazeto, que codirige, com Vinícius Lopes, o longa “Irmã”, exibido na mostra Generation da Berlinale. Ela lembra que o cinema brasileiro só chegou ao patamar atual, com qualidade e visibilidade internacional, graças a esses profissionais.

Projeto político

Para muitos diretores ouvidos, o mundo das artes no Brasil passa por um desmantelamento intencional. “Essa situação me preocupa e me deixa muito brava, porque não tem justificativa, senão uma ‘vingancinha’ do governo porque ele não gosta de cinema e de cultura, ou de um projeto político mesmo, de esvaziamento da cultura do Brasil e do cinema nacional”, denuncia Caru Alves de Souza.

Mesmo tom do lado do diretor de “Cidade Pássaro”, que fala de um processo de “crise da democrática” no país. “Trata-se de um ataque frontal com um objetivo muito claro, de se cercear as artes, que é uma das únicas áreas que permitem uma expressão realmente livre do ser humano”, explica Matias Mariani.

"Tem uma tentativa de conter essa força expressiva da arte brasileira, não só no cinema. Os artistas estão sendo alvos de ataques diretos, de notícias falsas, de perseguições pessoais, perseguições à obra, de mentiras. Inclusive com acenos claros a censurar certos temas e artistas”, denunciou Caetano Gotardo durante a coletiva de imprensa.

Mas os diretores presentes em Berlim não se mostram abatidos com essa situação. “A gente não vai desistir de lutar pela Ancine e por tudo o que foi criado e, como cineastas brasileiros, temos que nos unir”, diz Luciana Mazeto. “Pode ter certeza que, enquanto a ideia for de tentar barrar, o cinema brasileiro vai fazer resistência. Então vamos ver filmes de resistência”, convoca.

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