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“Todos os Mortos” debate abolição da escravidão mal resolvida no Brasil

Áudio 06:57
Caetano Gotardo e Marco Dutra (d) um dia após a estreia de “Todos os Mortos” na 70ª Berlinale
Caetano Gotardo e Marco Dutra (d) um dia após a estreia de “Todos os Mortos” na 70ª Berlinale RFI

O filme “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, é um dos representantes brasileiros na 70ª Berlinale. Ele concorre ao Urso de Ouro, o principal prêmio do Festival de Cinema de Berlim, com uma história de época que debate, entre fantasmas e ritos de matriz africana, a questão do fim da escravidão no Brasil e seu impacto na sociedade atual.

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Enviado especial a Berlim

A trama começa em 1899, às vésperas da virada do século e pouco mais de uma década após a abolição da escravidão no Brasil. O filme se situa no momento em que o país está passando de Império para República, como todas as mudanças que isso representava para a sociedade da época.

A relação entre os brancos, ricos ou falidos, e os negros, livres há pouco, mas ainda dependentes, é o ponto central da história, que começa com a morte de Josefina, ex-escrava da família Soares. Dona Isabel, matriarca da família e que sempre foi servida, confessa após o funeral que a cerimônia foi triste e bonita, mas que “é tão difícil chegar em casa e não ter ninguém para lavar nossos pés”.

A frase dá o tom desse embate em um país que, no papel, não tinha mais escravos, mas onde nem todos pensavam assim. “Tem problemas que o Brasil, enquanto sociedade, teve a chance de resolver nessa mudança de um Império para uma República, de uma economia baseada na escravidão para um outro tipo de sistema de trabalho. Mas o país não conseguiu absorver essa população recentemente libertada, não conseguiu resolver os seus problemas de classe”, detalha Marco Dutra, um dos diretores do filme.

“Muita coisa que não mudou”

“A gente ainda está enfrentando problemas sociais muito parecidos”, lança o cineasta. “Tem muita coisa que evidentemente não mudou. Então a gente conclui que, para falar das questões sociais hoje no Brasil, precisamos passar pelas questões raciais, pois elas estão muito ligadas na nossa sociedade”, afirma. Esse, aliás, foi um dos motes de “Todos os Mortos” em Berlim, visto como um instrumento de compreensão do Brasil contemporâneo.

“A gente queria olhar para o passado, pensando em agora”, completa Caetano Gotardo. No entanto, em alguns momentos a realidade fala mais forte, e ontem e hoje se misturaram. “Muitos elementos que não foram pensados para dialogar com coisas específicas, passaram a dialogar ainda mais”, exemplifica, citando a questão dos ritos dos escravos, perseguidos no filme. “Sempre houve preconceito em torno de religiões de matriz africana no Brasil. Mas essa onda de ataques, de destruição de terreiros e de perseguição que vimos recentemente, não estava acontecendo quando a gente fez o filme. De certa forma, alguns acasos acontecem e trazem a produção ainda mais para questões do presente”, aponta.

Crítica dividida

O filme dividiu público e crítica em Berlim. Alguns veículos especializados foram bastante severos, enquanto outros acolheram “Todos os Mortos” com elogios. Se alguns viram com satisfação uma espécie de Manoel de Oliveira tropical, outros ficaram incomodados com a mise en scène taxada de teatral. Uma querela de cinéfilos que vai alimentar os debates até o final da Berlinale, em 1° de março.

Mesmo assim, os diretores celebram cada instante, conscientes de que, com esse filme de época, também escrevem um capítulo da história do cinema brasileiro. Afinal, 19 produções nacionais estão sendo exibidas este ano no festival alemão, e “Todos os Mortos” dirige o pelotão.

“Estar na competição é um privilégio muito grande e a gente se sente muito honrado pelo convite. É incrível”, festeja Dutra. “Mas também estamos muito felizes por estarmos aqui com um grupo tão grande, em um momento em que, no Brasil, a gente está tendo que reafirmar um sentido de luta e preservação, porque o audiovisual e a arte em geral está sendo muito tolhida, com muitas portas fechadas. A gente sente que é um momento de afirmação da criatividade brasileira muito importante para todos nós que estamos aqui”, desabafa o cineasta.

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