Acessar o conteúdo principal
Damares Alves/Suíça

Damares Alves: “Se o povo vai para a rua agora contra o Congresso, é direito do povo”

A ministra Damares Alves concedeu uma entrevista à RFI nesta quarta-feria (26), em Genebra.
A ministra Damares Alves concedeu uma entrevista à RFI nesta quarta-feria (26), em Genebra. RFI/Valéria Maniero

Em entrevista exclusiva à RFI em Genebra, na Suíça, nesta quarta-feira (26), a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Brasil, Damares Alves, falou sobre os protestos a favor do governo Bolsonaro e contra o Congresso marcados para o dia 15 de março. Segundo ela, “se o povo vai para a rua agora contra o Congresso, é direito do povo”.

Publicidade

Correspondente da RFI em Genebra

“A manifestação de rua é prevista em nossa Constituição no Brasil. O povo já foi para a rua por causa do Executivo. O povo foi para a rua pedindo as Diretas Já no Brasil. O povo foi para a rua pedindo o impeachment no Brasil da antiga presidente. Eu já fui para a rua no passado questionar a votação do aborto na Suprema Corte. Já fiz protesto como ativista, lá atrás, em frente à Suprema Corte questionando a votação da legalização da maconha. Então, esses atos no Brasil acontecem muito”, afirmou.

Damares disse que não viu o que presidente compartilhou – de acordo com a imprensa brasileira, Bolsonaro compartilhou por Whatsapp um vídeo convocando a população para os atos -, que “só leu rapidamente”, mas disse ser “legítima qualquer manifestação popular”.

“Eu não vi o que o presidente compartilhou. Mas se o povo pode ir para a rua falar contra o Executivo não pode falar contra o Congresso? É porque o povo deve estar muito descontente com esse Congresso que está lá”.

Damares sobre o Carnaval: “Brinquem, mas não brinquem com a fé”

Em Genebra para participar de reuniões do Conselho de Direitos Humanos da ONU, a ministra se manifestou sobre o carnaval do Brasil. Disse que tinha recebido muitas imagens, mensagens e comentários nas redes sociais sobre o assunto. Pessoas que se sentiram incomodadas também teriam ligado para o Ministério, segundo ela.

“Muita gente manifestando indignação. Este é o meu termômetro: a manifestação do povo nas redes sociais. Eu fui provocada a me manifestar. E como nós estávamos aqui discutindo liberdade religiosa e o que o Brasil está fazendo, eu não posso vir aqui no mundo e dizer: estamos preservando a liberdade religiosa. Então, ontem eu me manifestei falando: nós vamos fazer nosso dever de casa. A gente vai trabalhar muito este tema: o respeito à manifestação religiosa”, explicou.

“O que a gente viu nesse carnaval? Eu não estou falando só do grande carnaval lá dos desfiles das escolas de samba. Em blocos no Brasil inteiro, fantasias de agressão à fé cristã. Mas não importa que seja a fé cristã, qualquer fé. Não é em nome do lazer, da liberdade artística, que nós temos que desrespeitar a religião”, afirmou.

Como resposta, o governo planeja uma campanha de conscientização.

“Talvez o que esteja faltando é isso. Brinquem, mas não brinquem com a fé. Esse carnaval foi, assim, o ápice. Porque no ano passado, a gente já teve algumas escolas de samba que trouxeram ali a imagem do diabo brigando com Jesus e Jesus perdia a guerra. Para o cristão aquilo é muito ruim. O governo Bolsonaro vai trabalhar pelo respeito à liberdade religiosa”.

Em Genebra, a ministra se reuniu com Michelle Bachelet, Alta Comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas. Segundo ela, foi um encontro muito rápido, e Bachelet manifestou a preocupação sobre alguns temas, como tortura, população indígena, e a ministra explicou o que estava sendo feito.

“Foi um encontro muito bom. Reiterei o convite para ela estar no Brasil. Quero gastar tempo com ela no Brasil. Que ela fique uns três dias comigo. Quero que ela converse com os nossos indígenas. Que ela vá ao Brasil com tempo para entender de que forma nós estamos fazendo essa política de garantia e proteção de direitos humanos”, disse a ministra, que pediu à Bachelet um “relacionamento mais próximo com o escritório dela”.

“Disse uma coisa para ela: quando tiver uma dúvida, liga direto para mim. A senhora tem um canal aberto direto com a ministra de Direitos Humanos. Pergunte o que está acontecendo”.

Lula na Europa: “Lamento que o mundo esteja sendo enganado”

Questionada sobre o que achava da vinda do ex-presidente Lula à Europa (França, Suíça e Alemanha), a ministra perguntou à repórter: “Você quer dizer um bandido condenado por corrupção? Que, por um acaso, foi presidente do Brasil? Ele vai estar aqui?”

“Este homem foi condenado em primeira instância, segunda instância. Está comprovado nos autos que houve crime de corrupção, e eu não consigo ver o mundo exaltar a corrupção desse jeito. Eu manifesto a minha indignação a quem está exaltando bandidos. O presidente Lula está condenado. Não sou eu que estou falando que ele é bandido. Quem é condenado é bandido”, disse.

Segundo ela, “a maior violação de direitos humanos do país foi a corrupção e este homem condenado era o líder do maior esquema de corrupção”.

“Lamento que o mundo esteja sendo enganado. Lamento como este título foi concedido (Lula vai receber o título de Cidadão Honorário de Paris). Eu acho que um dia alguém vai se envergonhar de ter dado um título para uma pessoa que é condenada por corrupção e responsável por tantas mazelas numa nação extraordinária, que destruiu a minha nação, que levou minha nação ao caos. Um dia a história vai mostrar, e eu acredito que os franceses vão ter muita vergonha de ter outorgado um título a um condenado”.

Críticas à imprensa: “Às vezes, o meu presidente brinca”

Segundo Damares, o presidente Bolsonaro “é muito incompreendido pelos jornalistas”. Disse isso ao ser questionada pela repórter da RFI a respeito de como ela, como ministra da Mulher, interpretava as insinuações sexuais feitas por ele a uma jornalista brasileira.

“O meu presidente tem tentado um diálogo com jornalistas como nunca se viu na história do Brasil, mas é insultado, criticado, humilhado. É muita violência da parte do jornalista. E, às vezes, o meu presidente brinca. Então, não perdoam uma brincadeira, não perdoam uma fala dele, incitam, e na confusão, o levam a falar o que ele não quer falar”, afirmou.

Ao reclamar do tratamento dado a ela pelos jornalistas, a ministra chorou: “Aos 10 anos de idade, eu tentei me matar. Essa história é conhecida. E os jornalistas zombam tanto disso. Porque aos 6 anos de idade eu fui estuprada. Para os jornalistas brasileiros de esquerda, eu virei a ministra doida do pé de goiaba. A imprensa não tem sido humana com o meu presidente e comigo”.

Damares seguiu em seu desabafo e críticas ao trabalho dos jornalistas. "A imprensa tem sido desumana no Brasil. Não só comigo. Com os ministros de Bolsonaro. Então, queria deixar registrado: sou mulher, fui barbaramente atacada pelo jornalismo brasileiro. Barbaramente atacada pela imprensa brasileira tão somente por ser mulher e ter sido estuprada na infância. E não vi os jornalistas me defenderem. E eu vou dizer pra você - aquele episódio de Jesus do pé de goiaba, por que eu não transei com ele, doeu muito. Para me atacar, ele atacou o meu senhor. Que me ataque, que me persiga, mas deixa o meu Senhor em paz. Eles não têm ideia. Quem tem fé ... Como dói atacar o Nosso Senhor. Deixa o meu senhor em paz. Me ataquem, jornalistas brasileiros, sejam vil (sic) comigo, sejam cruéis comigo, mas deixam o meu Deus em paz. Desculpa a emoção", disse, em lágrimas.

“Ministra pop” descarta ser candidata

Sobre ser a segunda ministra mais popular do governo Bolsonaro, como mostrou uma pesquisa Datafolha, atrás apenas de Sergio Moro, da Justiça, e à frente de Paulo Guedes, da Economia, Damares disse que “era pop”, mas descartou qualquer candidatura.

“O presidente Bolsonaro é muito inteligente. Ele construiu esse Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e trouxe as mais extraordinárias pautas. Então, não sou eu. É o ministério que é popular. As nossas pautas estão no coração do povo, não é porque eu sou linda. Talvez a diferença entre eu (sic) e os demais ministros é que eu falo com o coração das pautas. O povo queria proteger a criança, o idoso, a pessoa com deficiência”, disse.

Damares descartou se candidatar a algum cargo, porque “o processo eleitoral é cruel”. “Passar pela urna não é fácil. Aí, eu penso que todo mundo me ama, e eu quero morrer acreditando que as pessoas me amam, já pensou se eu me candidato, na hora de abrir a urna, eu descobrir que as pessoas não me amam? Eu vou morrer infeliz”, afirmou.

Ela disse, no entanto, que pode colaborar, por exemplo, “conversando sobre pessoas anticorrupção serem eleitas, com a pauta das mulheres”, mas ser candidata, segundo ela, “está fora dos planos hoje”.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.