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“São muitos capatazes, não é somente um”, diz artista brasileiro em Paris sobre a segregação aos negros no Brasil

Áudio 07:08
Wellington Gadelha apresenta o espetáculo “Gente de Lá”, que faz parte da programação do festival Panorama 2020, em Pantin, periferia de Paris
Wellington Gadelha apresenta o espetáculo “Gente de Lá”, que faz parte da programação do festival Panorama 2020, em Pantin, periferia de Paris RFI

Ele é performer, artista visual e sonoro, coreógrafo e militante. A RFI entrevistou em Paris Wellington Gadelha, que participa de um festival de dança nos arredores da capital francesa.

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O espetáculo “Gente de Lá” já ganhou o prêmio Rumos Itaú Cultural e foi incluído na programação do Festival Panorama, que acontece em Pantin.

“A performance nasceu da minha experiência com trabalho social junto às populações de rua e do sistema penitenciário, além de jovens da periferia de Fortaleza. Esse é o meu universo e é o meu cenário”, explica Wellington Gadelha.

O artista foca seu trabalho no corpo do homem negro, exposto a diferentes tipos de violências cotidianas e à segregação.

“Não é um trabalho cênico em si, porque eu não consigo diferenciar muito a minha vida do que eu faço no palco. Eu danço a minha própria vida”, afirma.

Descolonização

De acordo com Gadelha, apresentar esse espetáculo na Europa tem um significado importante, já que a história do negro escravizado serve de inspiração para a performance.

“A gente trata da descolonização, sobretudo no campo das artes cênicas. Isso é uma questão importante para a gente, de dançar e propor um espetáculo contemporâneo que fale do meu corpo, periférico, urbano e negro”, diz. “Nós estamos muito acostumados com esse viés de pensar a dança ou a arte contemporânea colonial, mas a proposta do ‘Gente de Lá’ é descolonizar esse campo cênico e artístico, afrontando com esse conceito de corpo-roleta russa que utilizamos”, completa.

Areia de Fortaleza no palco

Diversos elementos cênicos, como serragem e areia, são empregados no espetáculo como referência a matérias-primas como o açúcar, um dos objetos da escravidão.

“A materialidade é muito particular porque, num dado momento de montagem do espetáculo, eu me vi muito só dentro da sala e diante do extermínio que aconteceu em Fortaleza e que acontece constantemente, já que essa é uma cidade que extermina a juventude periférica. Então eu comecei a trazer esses materiais para dentro de sala. Inclusive a própria areia que eu trago para dançar é a areia do meu bairro. É o meu chão que eu trago para outra terra”, afirma. “Trabalhamos também com blusas de pessoas que perdemos ao longo dessa caminhada e o saco preto, onde geralmente se deposita lixo ou corpos, mas eu dou um novo significado a tudo isso”, acrescenta.

Numa parte da performance, Gadelha convida as pessoas da plateia para participarem, enquanto repete: “são muitos capatazes, não é somente um”. O artista diz que essa é uma maneira de afirmar que há muitos cúmplices, muitos intermediários da segregação contra os negros no Brasil.

“Estamos tendo um governo extremista, mas sabemos que não é ele, somente. É todo um agenciamento e uma rede de pessoas que o fortalecem e o elegeram. Se fala tanto em democracia, mas foi dentro de um projeto de democracia que ele [Jair Bolsonaro] foi eleito. Então, esse é um momento para repensar essa ideia de democracia”, propõe.

Wellington abre a performance com um som iorubá. Ele explica que é “para mobilizar a energia de Exu como um orixá que aponta os caminhos, para justamente abrir os caminhos para o trabalho, já que estamos enfrentando algumas barreiras e encruzilhadas”.

"Estamos precisando mais de Exu na nossa vida, sobretudo no Brasil”, conclui o artista.

Para assistir a entrevista na íntegra, clique no vídeo abaixo.

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