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Filme "Três Verões" estreia na França e conquista público internacional

Áudio 15:15
Sandra Kogut cineasta brasileira nos estúdios da RFI
Sandra Kogut cineasta brasileira nos estúdios da RFI RFI

A RFI conversou em Paris com a cineasta brasileira Sandra Kogut, que veio à capital francesa promover o seu novo filme. “Três Verões” é uma ficção que trata das relações de classe na sociedade brasileira e a influência da política no cotidiano, como explica a diretora nessa entrevista.

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Para assistir à entrevista na íntegra, clique no vídeo abaixo.

“Como o título diz, o filme se passa ao longo de três verões consecutivos, na última semana do ano, em 2015, 2016 e 2017. Esse foi um período em que vivemos muitas crises e escândalos no Brasil. O país inteiro acompanhou isso pela televisão, quando muitas pessoas foram presas por corrupção. E nessa época, eu me perguntava o que acontece com as pessoas que orbitam em volta dos ricos e poderosos quando a vida deles desmorona. Três verões, portanto, começou do desejo de falar desse momento do país através dos olhos desses personagens invisíveis”, afirma Kogut.

A protagonista do filme é a empregada doméstica Madalena, ou Madá, personagem interpretado pela atriz Regina Casé. O enredo tem como pano de fundo a Operação Lava Jato.

“O personagem da Regina é a caseira de uma residência de férias, já que o filme se passa em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro. Ela é um personagem entre dois mundos, pois é a empregada dos patrões, mas é a chefe dos empregados”, diz a diretora. “Eu trato desse Brasil neoliberal, onde todo mundo tem que se virar, se transformar em empreendedor e a Madá faz isso com muita criatividade”, completa.

“O fato de o filme se passar no verão, com os dramas do natal e as promessas do ano novo, é muito rico para você falar sobre esse momento do Brasil, com essa crise política” acrescenta.

Empatia internacional

“Três Verões” teve estreia mundial no Festival Internacional de Toronto e foi apresentado no Festival do Rio, antes de entrar no circuito comercial de cinemas da França. A diretora conta que por onde passa o filme tem sido bem acolhido pelos espectadores.   

“Embora seja uma história do Brasil, ela dialoga com o que acontece em outros lugares do mundo. O filme é um retrato do momento anterior à chegada ao poder da extrema-direita e acaba em 2017, ou seja, um pouco antes da eleição de Jair Bolsonaro. E você percebe no roteiro que os sinais do que estava por vir já estavam ali e nós não éramos capazes de enxergar. E isso está acontecendo em muitos lugares do mundo”, compara.

“Aqui na França, as pessoas olham para esse filme e fazem um paralelo com debates e questões que estão acontecendo hoje. Nos Estados Unidos, foi a mesma coisa. As pessoas reconheciam suas próprias questões. Na Turquia, houve um debate acalorado e as pessoas se reconheciam na Madá”, diz Kogut.

Cinema brasileiro

Autora de vários filmes como “Um passaporte húngaro” (2001), “Mutum” (2007) e “Campo Grande” (2015), Sandra Kogut é testemunha das mudanças vividas pelo cinema nacional nas últimas décadas.

“Eu sou de uma geração que começou a fazer filmes quando o cinema tinha acabado, no início dos anos 1990. Mas o momento atual do cinema brasileiro é muito mais difícil e violento”, compara. “Ao longo desse período, nos últimos 20 anos, foram implementadas políticas públicas para desenvolver e apoiar o audiovisual que foram muito bem-sucedidas e que criaram um setor economicamente muito sólido. O audiovisual é responsável por empregar 300 mil pessoas por ano, é toda uma cadeia produtiva, sem falar da importância em termos de identidade, pois reflete a grandeza do Brasil. Agora, o setor está paralisado, nada foi feito em 2019. Estima-se que existam entre 400 e 600 projetos parados e só agora vamos ver as consequências de maneira mais drástica”, observa a cineasta.

“Essas políticas públicas não só permitem que se faça filmes, mas que as pessoas tenham contato com o cinema, que se forme público. O cinema não é só produção, é também cidadania, educação e cultura”, acrescenta.

Mulheres no cinema

Sandra Kogut volta à Paris, cidade onde fez parte de sua formação profissional.

“No começo, eu tive que sair do Brasil para conseguir produzir os meus filmes. Eu vim para a França, onde morei durante muitos anos. Aqui eu descobri muita coisa que ajudou a me formar no cinema, mas voltei porque as histórias que eu quero contar estão no Brasil”, afirma.

“Estamos vivendo um momento muito interessante no mundo. Ao mesmo tempo em que há forças retrógradas que você achava que não existiam mais, causando uma sensação de retrocesso brutal, de outro lado temos uma evolução muito bacana. E um exemplo disso é a presença feminina no mercado de trabalho, especialmente no cinema. Se eu comparar com o tempo em que eu comecei, há uma evolução muito grande. Mas ainda tem muito trabalho pela frente”, conclui.

 

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