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Coreógrafo brasileiro apresenta na França performance sobre 'colonialismo cultural'

Áudio 07:04
O coreógrafo Frederico Paredes nos estúdios da RFI, em Paris.
O coreógrafo Frederico Paredes nos estúdios da RFI, em Paris. RFI

O coreógrafo brasileiro Frederico Paredes apresenta na França a performance “Intervalo”. Metáfora do colonialismo cultural por meio da implantação de pássaros franceses no Brasil, o espetáculo faz parte da programação do festival carioca Panorama, que este ano foi transferido para a região parisiense.  

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Em 1903, Pereira Passos, então prefeito do Rio de Janeiro, importou da França casais de pardais para povoar a zona urbana, com objetivo de enfeitar a cidade. Ele buscava repetir um modelo de urbanização francês no Brasil e, para que a as ruas ficassem com “ares parisienses”, implantou as espécies, que até então não existiam na América.

No entanto, a adaptação foi difícil, já que os pardais, mais agressivos que os animais locais, expulsaram os pássaros brasileiros da cidade. Esse é o ponto de partida de “Intervalo”, performance solo que Paredes apresenta no Centro Nacional da Dança (CN D), em Pantin, na periferia de Paris.

“Eu achei que isso, como metáfora, caberia muito bem para falar de um processo de globalização da cultura”, explica o coreógrafo. Ele lembra que em 2003, quando a performance foi montada pela primeira vez, as práticas culturais no Brasil vinham sofrendo uma espécie de estandardização influenciada por movimentos internacionais. Como se os espetáculos se sentissem na obrigação de seguir um padrão imposto pelos olhos externos para, com isso, conseguirem se exportar.

Agora, 16 anos após a primeira montagem, “Intervalo” desembarca em Paris junto com Panorama, festival que teve que ser adiado no Brasil por falta de verbas, mas acabou sendo acolhido pela França. A participação de Paredes faz parte de uma programação bastante engajada que traz, entre outros, a performance “Domínio Público”, que reúne quatro artistas brasileiros que foram atacados ou censurados nos últimos anos (Elisabete Finger, Maikon K., Renata Carvalho e Wagner Schwartz).

Colonialismo cultural

Paredes diz que “Intervalo” não é um ato militante. No entanto, não nega que a temática corresponda ao tom político do festival, apresentado pelos próprios organizadores como um ato de resistência. “Eu acabei sendo muito convidado para apresentar esse trabalho na Europa. Me diziam que havia uma situação de uma nova onda de colonialismo cultural, que eu estava tratando esse assunto, e que isso era bom”, constata.

Mesmo assim, reconhece que sua performance dialoga com o contexto atual brasileiro, no qual o mundo das artes se sente ameaçado. “Hoje a gente está vivendo no Brasil uma situação muito difícil. Eu trabalho como artista e como professor (na Faculdade Angel Vianna), e são dois campos que estão sendo atingidos de toda maneira. A educação e a cultura no Brasil estão numa situação acuada”, desabafa.

Porém, para o coreógrafo, a transformação no mundo das artes é global. “Eu acho que essa questão de como os contextos vão sendo minados por dentro está acontecendo por toda a parte. Eu acho que houve um primeiro impacto da globalização, em que o mundo foi um tanto nivelado por certos padrões. Mas a gente está tendo um segundo impacto, em termos da cultura, que está tendo uma pressão muito grande sobre todos”, avalia. “Por toda a parte a cultura está sendo pressionada”, afirma Paredes, que denuncia uma “ação silenciosa e insidiosa, que vai se alastrando”.

A performance “Intervalos” é apresentada no CN D entre 12 e 14 de março.

 

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