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Catolé, cambuí e araçá: pesquisadora brasileira ganha prêmio internacional por estudo com alimentos não convencionais

Áudio 07:00
A pesquisadora brasileira Patrícia de Medeiros, etnobotânica da Universidade Federal de Alagoas, é uma das duas jovens cientistas da América Latina a receber o prêmio International Rising Talents 2020, da Fundação L’Oreal e Unesco.
A pesquisadora brasileira Patrícia de Medeiros, etnobotânica da Universidade Federal de Alagoas, é uma das duas jovens cientistas da América Latina a receber o prêmio International Rising Talents 2020, da Fundação L’Oreal e Unesco. Divulgação

Quando o assunto é alimentação, existem plantas pouco conhecidas, mas que podem contribuir para pratos com alto valor nutricional. Foi estudando essas opções não convencionais que a cientista brasileira Patrícia de Medeiros conquistou o prêmio internacional Rising Talents 2020, concedido pela Fundação L’Oréal e pela Unesco para mulheres na Ciência.

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A RFI conversou com a pesquisadora, uma das 15 ganhadoras selecionadas por um júri internacional de especialistas, entre mais de 250 candidatas doutoradas e pós-doutoradas de todo o mundo.

A cerimônia de entrega do prêmio, em Paris, foi cancelada por causa da epidemia de coronavírus, mas a brasileira vai receber o prêmio na edição 2021 do programa. “Eu estou muito feliz. Esse prêmio vem com uma ajuda financeira e também com a repercussão da minha pesquisa. Eu pesquiso as plantas alimentícias não convencionais e acredito que pode ajudar a popularizar essas espécies”, diz a professora da Universidade Federal de Alagoas. 

Para quem não conhece o termo, as PANCs – plantas alimentícias não convencionais – crescem em muitas regiões do Brasil. Não é difícil, portanto, identificar essas espécies, já conhecidas das comunidades locais. Mas o desafio é fazer com que elas se tornem uma alternativa para a alimentação dos brasileiros.

“Não sabemos ainda se o nome PANC é indicado. Por um lado, temos até uma ‘gourmetização’ desse termo. Por outro, o não convencional pode trazer problemas, pois existe na sociedade algo chamado neofobia, uma aversão a comer coisas novas”, explica.

“Não convencionais é um termo difícil de explicar. Não convencional é o que não é conhecido em áreas urbanas, e as convencionais fazem parte da dieta diária da maioria das pessoas”, diz

Araçá, cambuí e maçaranduba são alguns exemplos de plantas às quais ela vem se dedicando. “Essas, em particular, são espécies frutíferas. Geralmente as comunidades fazem suco, as consomem in natura, fazem mousse, geleia. Há uma infinidade de possibilidades com essas plantas”, ensina.

“Temos também uma outra planta conhecida nas comunidades como aroeira, mas que ficou popularizada internacionalmente como pimenta rosa. É utilizada como condimento. Há ainda a piaçava, o catolé e muitas outras”, acrescenta a pesquisadora.

Comuns no campo, mas desconhecidas na capital

Patrícia de Medeiros explica que muitas dessas plantas estão à venda em feiras locais, especialmente no interior de Alagoas. “Muitas, no entanto, não chegam a Maceió, na capital”, afirma.

Auxiliar pequenos agricultores, especialmente do Nordeste brasileiro, a divulgar e comercializar novos produtos é um dos objetivos da pesquisa desenvolvida por Patrícia, além de colocar novos alimentos no prato dos consumidores.

“A ideia do projeto é que a gente possa dizer aos produtores quais plantas têm mais potencial para serem disseminadas, o seu público-alvo e as melhores formas de fazer esse produto chegar até o consumidor”, afirma. “Estamos utilizando técnicas de diferentes áreas, como a etnobotânica e a psicologia para entender o comportamento do consumidor e tentar popularizar essas espécies”, acrescenta.

Alimentos ricos

Pouco conhecidas da maioria da população, as plantas não convencionais podem ser fontes de saúde e nutrição.

“Há altos teores de vitamina C em algumas espécies como os araçás. Já os catolés são ricos do ponto de vista calórico, portanto são bons em termos de segurança alimentar. Mas a ideia é que não seja apenas pelo potencial nutricional, mas também pela diversificação e valorização dessas plantas nativas, já que muito do que a gente consome hoje vem de fora. Além de ajudar os produtores a gerar renda da extração e produção desses produtos”, diz a cientista. 

O consumo das PANCs também é uma forma de aumentar a segurança da produção, uma vez que essas plantas são mais adaptadas aos seus ambientes. Outro ponto-chave é a redução da necessidade de agrotóxicos e fertilizantes.

“Esse é um dos argumentos mais interessantes para a popularização das PANCs. Como elas nascem na natureza, ou seja, não precisam de cultivo, já estão livres de agrotóxicos e fertilizantes, sendo uma opção saudável para a dieta das pessoas”, alerta.

Apoio internacional

O objetivo do Rising Talents é impulsionar o percurso de excelência de jovens e promissoras cientistas até se tornarem pesquisadoras internacionalmente reconhecidas. Além de dar projeção ao trabalho e ampliar as redes de colaboração internacionais, o prêmio consiste em uma bolsa-auxílio de € 15 mil para serem investidos na pesquisa. Dinheiro que Patrícia já sabe onde vai gastar.

“O laboratório precisa de alguns equipamentos, precisamos de dois aparelhos de ar condicionado. Ou seja, desde essas coisas mais básicas até dinheiro para traduzir os nossos trabalhos em inglês, já que a gente quer que esse estudo seja acessado por pessoas do mundo todo, além de viabilizar a nossa atuação no campo”, afirma. “Eu quero, sobretudo, descobrir um pouco mais sobre o comportamento humano de escolha de recursos, seja medicinais ou alimentícios”, conclui.

 

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