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Brasilianistas não acreditam em impeachment de Bolsonaro e temem ameaças à democracia brasileira

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro com uma máscara de proteção, no dia 18 de março de 2020.
O presidente brasileiro Jair Bolsonaro com uma máscara de proteção, no dia 18 de março de 2020. AFP

A postura de confrontação política e de negação das evidências científicas adotada pelo presidente Jair Bolsonaro nessa pandemia do novo coronavírus preocupa brasilianistas ouvidos pela RFI. Eles não acham que as condições estão reunidas para um impeachment, mas “as crises sanitária e econômica que se anunciam podem provocar uma crise política ainda mais profunda e ameaçar a democracia brasileira”, diz Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc) do Instituto de Ciências Políticas de Paris.

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A recusa de Bolsonaro em aceitar a realidade da pandemia repercute na imprensa internacional. Desde o polêmico pronunciamento presidencial, na última terça-feira (24), em que ele pediu o fim do confinamento no país, jornais europeus publicam quase diariamente matérias sobre o Brasil.

A última reportagem foi publicada pelo Les Echos nesta quinta-feira (26). O diário econômico francês destaca que a “gestão desta crise pelo presidente brasileiro é calamitosa” e que o nome Jair Bolsonaro remete à “inconsequência do populismo diante da epidemia”.

Apesar das críticas e dos panelaços diários contra ele, Bolsonaro não recua e pede a volta da normalidade para salvar a economia do país em um vídeo de propaganda lançado pelo Planalto nesta sexta-feira (27). O professor do Instituto Brasileiro do King’s College de Londres, Anthony Pereira, está impressionado com a “desinformação e a irresponsabilidade” de Bolsonaro e acha que o país está cada dia mais unido contra ele: “Governadores, prefeitos, Congresso, ministros militares, o presidente do Itaú Candido Bracher e associações médicas, até o governador Ronaldo Caiado, preferem seguir os conselhos da comunidade internacional de saúde pública, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), do que o presidente. Bolsonaro está pedindo aos brasileiros que participem de um experimento gigante e muito arriscado”. Mas o impeachment “não é provável” nesse momento.

Anthony Pereira lembra que o presidente americano, Donald Trump, e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também tinham a mesma postura, mas, ao contrário de Bolsonaro, acabaram apoiando as orientações globais para combater a pandemia. Para o brasilianista, Bolsonaro, de olho nas eleições de 2022, tenta se fazer de vítima e culpa a mídia, prefeitos e governadores pela crise anunciada: “A única coisa em que ele parece capaz de pensar é que uma desaceleração da economia enfraquecerá suas chances de reeleição em 2022. Ele parece ter descartado todas as outras considerações, incluindo sua responsabilidade de proteger seu povo.”

O professor cita o colega Jonathan Portes, do King's College London, para ressaltar que “a ideia de que existe uma troca entre saúde e economia nessa crise está errada. Você tem que vencer o vírus para restaurar a saúde econômica do país”.

Isolamento político

Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc), do Instituto de Ciências Políticas de Paris, avalia que essa “posição do tudo ou nada, de dobrar as apostas, aprofunda o isolamento político” de Bolsonaro. Além de não trazer soluções para os problemas sanitário, econômico e social gerados pela pandemia do coronavírus, essa estratégia, que inclui a disputa com o Congresso e com os governadores, trará mais conflito e tensão. Mas Estrada também não acredita em um impeachment contra o presidente.

“Bolsonaro gostaria que a oposição abrisse um pedido de impeachment para ele poder remobilizar a base dele. Só que a oposição, pelo jeito, decidiu não acompanhar essa estratégia. Pelo contrário, ela está tentando encontrar soluções no Parlamento, com o apoio dos governadores, para, de certa maneira, contornar o governo federal. A gente ainda não sabe se isso vai dar certo. Acho que haverá mais tensão pela frente”, analisa o diretor-executivo do Opalc, que também descarta uma eventual renúncia do presidente.

Na opinião de Estrada, a posição do exército, que é o maior aliado do governo, é por enquanto dúbia. Como sinalizado por um vídeo do comandante Edson Leal Pujol, postado poucas horas antes do pronunciamento presidencial, na terça-feira, os “militares relutam em adotar as políticas de Bolsonaro”.

Mas o brasilianista considera que o presidente irá continuar “dobrando suas apostas”, pode aproveitar para tentar baixar medidas autoritárias, ameaçando a democracia brasileira. “O X da questão é o chamado autogolpe. O assunto é saber se Bolsonaro não estaria disposto a cair atirando. Ele tem uma base fiel, inclusive no setor policial, nas PMs estaduais. Por outro lado, tem a base do exército que não é a hierarquia e tem também as milícias do Rio de Janeiro. Há um vínculo evidente entre a família Bolsonaro e as milícias. É por isso que estou preocupado", conclui Estrada.

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