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Saúde

Noite infeliz: saiba como lidar com a melancolia natalina

Áudio 05:03
Um morador de rua vestido de Papai Noel na avenida Champs-Elysées, em Paris.
Um morador de rua vestido de Papai Noel na avenida Champs-Elysées, em Paris. AFP/Joël Saget

Fim de ano é tempo de festa, presentes, encontros com a família e amigos. Mas muitas pessoas vivenciam essa época do ano com dificuldade. Em alguns casos, essa tristeza passageira pode se transformar em uma verdadeira depressão, por isso é importante ficar atento aos sinais, diz a psicóloga brasileira radicada na França, Juliana Machado Campocasso.

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O Natal, originalmente, surgiu para que os cristãos pudessem celebrar o nascimento de Jesus. O sentido religioso, entretanto, perdeu importância com o passar do tempo - ainda que continue sendo um bom pretexto para se estar com a família e amigos, trocar presentes e preparar uma bela ceia. Para muita gente, entretanto, os festejos natalinos chegam a ser “cruéis”: eles evidenciam as injustiças sociais e o abismo que separa pobres e ricos.

“Quem tem dinheiro pode passar um Natal extraordinário, comprar presentes maravilhosos, viajar...tenho um amigo, por exemplo, que vai festejar com a família em Nova York”, conta o jornalista francês Philippe Deneuve que vive em Paris. “Tenho amigos que me contaram que conhecem uma mãe que fica preocupada sempre que chega essa época do Natal. Ela precisa achar dinheiro para comprar um presente para os filhos. Isso é muito cruel”, diz. “Os coletes amarelos, as greves, etc, são exatamente isso: o protesto de quem não tem dinheiro para terminar o mês e não pode desfrutar desses momentos”, defende.

Sem contar a refeição do Natal, ressalta. Enquanto em algumas mesas pratos caríssimos aguçam o paladar dos convives, famílias mais pobres fazem o que podem para que a data não passe em branco. Sem falar da solidão das pessoas idosas, ressalta o jornalista. “Penso naqueles que estão sempre sozinhos, cujos filhos só aparecem na hora de receber a herança”, exemplifica. O francês reconhece que suas declarações são “um pouco amargas” e diz que, nesse contexto, é importante lembrar das associações que sacrificam seu próprio Natal para alegrar a vida dos mais desmunidos.

Tradição cristã

Para o produtor brasileiro Fernando Henrique, o Natal tornou-se simplesmente uma data dispensável. Nascido em uma família religiosa, durante sua infância e adolescência ele foi celerado como uma verdadeira tradição cristã. “Cresci, me tornei adulto, mudei para a Argentina, sozinho. Na época, esse período de festividades passou a ser de uma busca por uma família para eu me agregar”, conta.

Nos Natais passados em casa com seus pais e familaires, conta, sempre houve essa necessidade de reunir parentes e falar sobre tudo. “Sempre era ruim: aquele mal estar, aquela tia que você não via o ano inteiro e tinha que conversar. Sempre me incomodou, mas eu morava na casa dos meus pais e era assim.” O tempo passou e Fernando percebeu que podia desconstruir essa imagem do Natal criada, segundo ele, pela sua família. Em suas viagens, ele até mesmo compra passagens para os voos do dia 24 de dezembro, mais baratos e vazios. “Agora é Natal, eu não preciso estar com minha família, não preciso estar com meus pais. Sou uma pessoa livre!”, comemora.

Tendência depressiva

Para a psicóloga brasileira radicada na França, Juliana Machado Campocasso, que atende franceses e compatriotas, é importante investigar se aversão ao Natal, em certos casos, não esconde uma tendência à depressão. Segundo ela, para pessoas mais tímidas, com dificuldade para se expressar, ou baixa autoestima evidente, o período natalino pode ser vivido de maneira mais traumática. “Na verdade, acho que o Natal não é indiferente para ninguém. Ou afeta as pessoas de uma forma muito positiva, fazendo com que elas tenham vontade de confraternizar, estar em família, trocar presentes, e fazer novas propostas para o ano que começa, ou causa ansiedade”, diz.

“Esse momento de se projetar, de pensar no ano que passou, de imaginar os projetos que foram feitos no ano anterior, aumenta o grau de ansiedade”, explica. "Para quem tem dificuldade de lidar com a frustração, declara, e se dá conta de que nem tudo o que foi projetado foi realizado, e que se eu fizer novos projetos poderá não dar certo, causa um nível de angústia e ansiedade muito grande”, analisa.

A psicóloga, que atende muitos imigrantes brasileiros, conta que esse período ainda é mais complicado quando é passado em um outro pais. “Estar na França já é estar no hemisfério norte, onde o Natal acontece no inverno, que por si só já é melancólico. Estar longe da família é ainda muito mais complicado", reitera. "O processo de imigração fragiliza as pessoas: tem a ruptura de uma referência que temos com nosso cultural, com nossa sociedade, com significantes, relações familiares e códigos sociais. É preciso assumir uma nova identidade, e isso já causa stress. Tudo isso faz com que a melancolia possa se exacerbar nessa época.”

Para Juliana, o fato de não gostar de Natal é uma forma de justificar como a data afeta essas pessoas, de acordo “com a história de vida e a estrutura psíquica”, que não traduz, acredita, como essa melancolia afeta de fato o inconsciente. Não se trata necessariamente de depressão clínica, se não está associado a outros sintomas, como sono alterado, aumento ou baixa do apetite, irritabilidade ou cansaço extremo, mas pode ser um sinal de que algo precisa ser trabalhado. A dica da psicóloga, para quem está longe de seu pais, é manter o contato, mesmo à distância. “Isso é essencial para não cair na depressão ou ansiedade, independentemente da época do ano. E procurar ajuda psicologica se for preciso.”

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