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Saúde

Pesquisadores criam método que explica intuição

Áudio 07:11
"Criamos uma sociedade que honra o servidor e esqueceu o dom”, dizia Einsten sober a intuição
"Criamos uma sociedade que honra o servidor e esqueceu o dom”, dizia Einsten sober a intuição (Foto: Wikipedia Commons)

A experiência subjetiva, que permanece um mistério para a Ciência, interessa cada vez mais pesquisadores, que criam métodos para validar descrições pessoais que apresentam similaridades.

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A intuição pode ser descrita como essa sensação inexplicável que precede uma ideia ou uma tomada rápida de decisão, sem base racional ou lógica. Uma citação do físico Albert Einstein esclarece de certa forma essa experiência, que todos um dia tivemos, sem saber explicar exatamente o porquê. Ela surge em momentos decisivos, de perigo, ou de descanso. “O mental intuitivo é um dom sagrado e o mental racional é um servidor fiel. Criamos uma sociedade que honra o servidor e esqueceu o dom”, dizia Einsten.

A pesquisadora francesa Claire Petitmengin é uma pioneira no estudo dessa temática no meio acadêmico francês. Membro do Departamento de Filosofia na Escola Normal Superior de Paris, ela é autora do livro “A Experiência Intuitiva”, um dos primeiros sobre o assunto, publicado em 2001, e também escreveu diversos artigos científicos sobre o tema.

Objetividade X Subjetividade

Em suas pesquisas, ela busca pessoas que conseguiram descrever esse estado mental e físico que precede essa vivência, que não é atualmente levada em conta na esfera científica. “Estudei a experiência subjetiva que acompanha a aparição de uma intuição”, diz a pesquisadora francesa. De acordo com ela, os cientistas que analisam os mecanismos das emoções, por exemplo, vão se basear em indícios comportamentais e objetivos, como a temperatura do corpo ou a atividade cerebral, evitando questionar os pacientes sobre o que foi vivenciado.

Claire Petitmengin estuda a questão seguindo outra metodologia. Ela faz parte de uma nova corrente criada pelo neurobiologista chileno Francisco Varela, que morreu em 2001, e foi diretor do laboratório de Neurociências Cognitivas e Imagem Cerebral do hospital parisiense Pitié Salpetrière, um dos mais célebres da capital. Segundo ele, para compreender o funcionamento do espírito humano, é preciso ir além do que é objetivo e mensurável.

O pesquisador criou um programa de pesquisa conhecido como neurofenomenologia, que busca estender a Ciência à experiência pessoal e subjetiva do ser humano. Para isso, o cientista propôs um método que prioriza o que foi vivenciado, seja uma emoção, uma intuição ou uma decisão. “Ele dizia que, se não temos uma descrição dessa vivência, não podemos interpretar um eletroencefalograma ou todos os indícios objetivos, sem saber o que a pessoa sente por dentro. É impossível fazer essa interpretação”, ressalta a autora francesa.

Os cientistas que se interessam pela descrição do que é pouco palpável buscam aos poucos criar e afinar métodos rigorosos e científicos. A ideia é validar o que é descrito pelos indivíduos como intuição, explica Claire Petitmengin. “O modo de validação mais convincente é comparar as descrições de pessoas diferentes, recolhidas por equipes que trabalham de forma independente”, diz.

A regularidade nessa descrição –características comuns à experiência – indica que ela é confiável. “O que é interessante e surpreendente é que, analisando os depoimentos, encontramos estruturas e dinâmicas comuns a todo tipo de intuição, ou pelo menos na maioria delas”, reitera. Ou seja, antes do "insight", ideia ou algo similar, existem parâmetros que se repetem. Entre esses traços comuns, está o fato de que a intuição aparece sem planejamento ou reflexão.“É uma espécie de sentimento, pressentimento, uma sensação corporal, e que tem uma forma quase visual”, descreve.

Essa também foi a descrição dada por Einsten quando o gênio concluiu a Teoria da Relatividade, por exemplo. “Se as ideias emergem de uma experiência corporal, isso significa que vale a pena estudar esses mecanismos e vivência”, diz a pesquisadora francesa. A descrição exata da arquitetura da experiência intuitiva, corroborada cientificamente, poderá ajudar as pessoas a reconhecer esse estado para desenvolver e amadurecer uma ideia emergente, acredita a pesquisadora francesa.

Microfenomenologia

As validação dessas experiências deu origem a um método chamado microfenomenologia, que se atém exclusivamente às vivências . Uma comunidade de pesquisadores de todo mundo, conta Claire, se formou nessa nova disciplina e a utiliza em diversas áreas: artísticas, clínicas, terapêuticas, técnicas e até mesmo ciências políticas. Esse grupo de cientistas promove encontros e até mesmo formações, ganhando cada vez mais adeptos.

Para Claire, sua própria trajetória, e o desejo de explorar a similaridade desse fenômeno entre diferentes indivíduos, é fruto de uma experiência intuitiva. “A Ciência se baseia somente no que é objetivo, orgânico ou material. Tínhamos, até agora, uma espécie de dicotomia entre o que é cientifico e o que é vivido”, conclui.

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