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Ciência e Tecnologia

Cientista britânico pede autorização para manipular geneticamente embriões humanos

Áudio 04:27
Células tronco em laboratório da Universidade de São Paulo
Células tronco em laboratório da Universidade de São Paulo (Photo : Mauricio Lima/AFP)

A autoridade britânica de fertilização humana e embriologia (HFEA, na sigla em inglês) anunciou no final da semana passada ter recebido um pedido para manipular geneticamente embriões humanos, utilizando a técnica Crispr-Cas 9. Esta técnica permite alterar o genoma e repassar essa alteração para as gerações seguintes.

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O professor doutor Oswaldo Keith Okamoto, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo, explica que essa técnica "deriva de um processo natural que ocorre no mecanismo de defesa de bactérias. Toda vez que uma bactéria é atacada por vírus, se esses vírus por acaso inserirem seu material genético no cromossomo bacteriano, a bactéria possui um mecanismo de reparo do seu genoma que consegue eliminar esse DNA viral do seu genoma. É possível agora você utilizar o mesmo mecanismo para alterar mutações que eventualmente existam no genoma".

Esse método é o chamado Crispr-Cas9 e que permitiria, teoricamente, eliminar do código genético pré-disposições a determinadas doenças hereditárias, por exemplo. Mas isso permanece no campo da teoria, já que ainda não se sabe como essa manipulação pode afetar outros genes de uma mesma célula ou que efeitos ela pode gerar em futuras gerações.

"Essa ferramenta foi obtida de células mais simples", explica Okamoto. "A gente ainda não conhece plenamente quais são todas as consequências desse mecanismo de alteração genética - nem em bactérias, quanto mais quando ela é feita em células de mamíferos. Não se sabe quais podem ser os riscos embutidos (...), especialmente de longo prazo".

Ou seja, não se sabe que tipo de implicações essas manipulações podem ter para gerações futuras. Mas, além das implicações técnicas, existem importantes debates éticos. Afinal, em teoria, essa técnica permitiria escolher características fenotípicas, como a cor dos olhos ou mesmo da pele de um indivíduo. Por isso, Okamoto considera imprescindível que haja um diálogo com toda a sociedade antes de se aplicar o Crispr-Cas9 em seres humanos.

Pesquisa britânica

É preciso observar, no entanto, que a pesquisa requisitada às autoridades britânicas está longe das aplicações clínicas. O cientista que fez o requerimento, ligado ao instituto Francis Crick de pesquisas biomédicas, em Londres, afirma que pretende estudar os genes ativos no desenvolvimento das células que vão formar a placenta, para determinar a causa de abortos espontâneos.

"Acho que essa pesquisa traz uma discussão semelhante à que houve quando das pesquisas com células tronco embrionárias. Era necessário destruir embriões para se poder obter células tronco embrionárias. Neste caso, eles também vão ter de destruir embriões porque estão querendo avaliar a formação da placenta e para este tipo de estudo, é preciso estudar uma estrutura embrionária bastante precoce", explica Okamoto.

O projeto de pesquisa será analisado pelas autoridades britânicas entre novembro e janeiro. Se for autorizada, esta será a segunda tentativa no ano de usar a técnica no ano. Em abril de 2015, pesquisadores chineses anunciaram ter conseguido modificar, em vários embriões, um gene defeituoso, responsável por uma doença sanguínea potencialmente mortal. Além de desencadear uma avalanche de questionamentos éticos, eles tiveram de reconhecer que a técnica ainda precisa de profundos aperfeiçoamentos para ser utilizada clinicamente.

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