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Saúde

Pesquisa sobre a fosfoetanolamina, a pílula do câncer, evolui no Brasil

Áudio 06:05
A fosfoetanolamina ficou conhecida nas redes sociais como “pilula do câncer”.
A fosfoetanolamina ficou conhecida nas redes sociais como “pilula do câncer”. USP imagens

Desde que sua distribuição foi proibida, em 2014, a fosfoetanolamina sintética, conhecida como "a pílula do câncer", divide a comunidade médica, as autoridades sanitárias e vem revoltando a população. A substância, desenvolvida pelo químico Gilberto Chierice no final da década de 80, quando era professor do Instituto de Química de São Carlos (IQSC), seria eficaz contra células tumorais e inibiria a formação de metástases.

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A fosfoetanolamina nunca foi oficialmente testada em humanos, não tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e por isso não é considerada um medicamento. Mas foi distribuída gratuitamente pela USP de São Carlos por mais de 20 anos a pacientes com câncer. Muitas das pessoas que se submeteram ao tratamento alegam terem sido curadas.

No início de março, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei para autorizar a fabricação, a distribuição e o uso da fosfoetanolamina sintética, mas a presidente Dilma Rousseff precisa sancioná-lo. Há alguns dias, o diretor-presidente da Anvisa, Jarbas Barbosa, disse que vai recomendar o veto do projeto de lei pela presidente porque considera grave a liberação da substância antes da realização de estudos clínicos que comprovem sua eficácia ou riscos que poderia causar aos pacientes.

O governo brasileiro estuda a possibilidade de legalizar a fosfoetanolamina sintética como suplemento alimentar, alegando que quer evitar que a substância continue sendo fabricada e comercializada no mercado paralelo. O composto seria relativamente barato de ser produzido, diferente os tratamentos tradicionais: especula-se que a produção de uma pílula custaria em torno de R$ 0,10.

Nesta semana, três comissões se reúnem no Senado para debater os resultados obtidos pelas pesquisas até agora e a realização de testes clínicos da fosfoetanolamina. Além de Chierice, autoridades do Instituto Nacional do Câncer, da Anvisa e do governo participam das discussões.

Enquanto isso, o grupo sob a coordenação de Chierice continua trabalhando na pesquisa da substância. O professor aposentado foi denunciado pela própria USP por curandeirismo e crime contra a saúde pública. Na semana passada, ele prestou depoimento na Polícia Civil.

Duas pesquisas em andamento

O pesquisador e doutor em biotecnologia, Marcos Vinícius de Almeida, da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)*, é um dos detentores da patente da fosfoetanolamina sintética e faz parte da equipe de pesquisadores de Chierice.

Em entrevista à RFI, ele contou que duas pesquisas são realizadas atualmente e evoluem bem: uma está no início da fase clínica, quando começam os testes da substância com seres humanos; e a outra, feita junto ao governo federal, está tendo todos os seus procedimentos revisados e voltou ao estágio inicial.

Para Almeida, a grande expectativa dos pesquisadores é de que as pesquisas clínicas sejam concluídas. Segundo ele, só depois dessa fase é que se terá segurança para que os especialistas comecem a discutir a fosfoetanolamina como medicamento. “Precisamos ter evidências sobre os efeitos, a eliminação do composto nos fluídos corporais, conhecer as dosagens corretas, saber quais são as porcentagens de cura e sobre quais tipos de tumor a substância é eficaz”, ressalta.

Preocupação dos órgãos médicos e oncologistas

Os órgãos médicos são céticos sobre a eficácia da substância. Para o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Gustavo Fernandes, a preocupação é justificada. “Ainda não há dados suficientes que comprovem a eficácia da substância e ela é apresentada como algo milagroso. Por isso, o estudo clínico é a saída para esse tipo de impasse”, sugere.

Já o diretor científico adjunto da Associação Paulista de Medicina (APM), Álvaro Nagib Atallah, critica a interferência do governo na questão. “A medicina não pode ser baseada em decretos políticos. Não podemos abolir a ciência. Precisamos priorizar a pesquisa. A situação é até um pouco vexatória, com o Congresso nacional decidindo o que deve ser feito sobre essa questão”, protesta.

Almeida compreende a resistência dos profissionais em relação à substância: “Eu concordo que os conselhos médicos tenham essa posição e concordo com as exigências da Anvisa sobre a regulação dos medicamentos, que é muito importante. Em nenhum momento pedimos a liberação desse composto de forma incondicional”.

O pesquisador se preocupa, no entanto, que os estudos sobre a fosfoetanolamina parem caso seja aprovada como suplemento alimentar. “É algo que nos preocupa. Porque o uso da substância pode ser banalizado. E ainda não sabemos qual é a reação do medicamento sobre as diversas patologias ou os estágios delas. Por isso é essencial que os estudos clínicos sejam concluídos”, preconiza.

População se mobiliza a favor da fosfoetanolamina

A população se revolta com a demora das autoridades em resolver a questão. Em diversas cidades brasileiras, grupos se manifestam pela liberação da substância para o uso compassivo por doentes em estágios avançados do câncer, nos quais os tratamentos tradicionais não fazem mais efeito.

O especialista em mídias digitais Fabiano Porto coordena uma mobilização de moradores em São José dos Campos. Para ele, o descaso das autoridades em relação à questão se deve ao lobby da indústria farmacêutica. “Você chega a pagar R$ 20 mil uma sessão de quimioterapia e radioterapia no Brasil. Imagine o perigo que representa para as grandes empresas de medicamento uma substância cuja cápsula pode custar R$ 0,10”, declara.

Para o militante, o mau momento político do Brasil pode contribuir para resolver o impasse sobre a fosfoetanolamina. “O governo está fragilizado e em busca de apoio popular e, talvez, essa seja uma forma de se aliar aos brasileiros. Por isso estamos confiantes de que a presidente Dilma irá sancionar a lei”, diz, ressaltando que a mobilização continuará.

* As pesquisas sobre a fosfoetanolamina que começarão a ser realizadas na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) não envolvem testes em seres humanos.

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