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Saúde

Crianças francesas comem açúcar demais, mostra relatório

Áudio 07:03
A OMS recomenda o consumo de no maximo 25g de açucar por dia, o equivalente a seis colheres de café.
A OMS recomenda o consumo de no maximo 25g de açucar por dia, o equivalente a seis colheres de café. pixabay

Dados mostram que franceses até 13 anos comem mais doces do que deveriam e de maneira excessiva, segundo um relatório recente divulgado pela Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, Meio Ambiente e Trabalho (ANSES). A recomendação é diminuir doces e bebidas açucaradas, e privilegiar nozes e produtos ricos em cálcio e ferro.

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A hora do goûter, o tradicional lanchinho da tarde, é sagrado para as crianças francesas. Como as aulas na maior parte das escolas acabam por volta das 16h30, geralmente nessa hora os alunos se sentam com os amigos e dividem biscoitos, doces, sucos, chocolate e outros produtos típicos da França, como o croissant ou pain au chocolat, vendidos nas famosas boulangeries e difíceis de resistir. O que é para ser um momento agradável no dia a dia das crianças, entretanto, esconde uma fonte de preocupação para as autoridades de saúde francesas.

Um relatório publicado em junho pela Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, Meio Ambiente e Trabalho (ANSES) mostrou que 75% das crianças entre 4 e 7 anos, 60% entre 8 e 12 anos e 25% dos adolescentes entre 13 e 17 anos, consomem mais açúcar do que deveriam. Os dados são preocupantes porque favorecem mais tarde a obesidade e o aparecimento de outras doenças, como o Diabetes ou a Hipertensão, explica Irène Margaritis, chefe da unidade de avaliação dos riscos relacionados à nutrição da agência francesa.

“É muito preocupante, principalmente em relação às crianças pequenas. Esses maus hábitos, de consumir de alimentos com muito açúcar, vão ser mantidos na idade adulta. Por isso é preciso limitar os produtos como cereais, biscoitos ou lacticínios, ou certas papinhas industriais”, diz. A especialista francesa também preconiza evitar os sucos de frutas, que muitos imaginam ser saudáveis. De acordo com ela, esse tipo de bebida deve ser consumido no máximo uma vez por dia, mas o ideal é que as crianças tomem somente de vez em quando.

“O suco de frutas não substitui as frutas e legumes e por várias razões. Primeiro porque é líquido e as crianças tendem a tomar demais, o que representa uma ingestão excessiva de açúcar. Além disso, o suco não tem fibras, é com frequência pobre em vitaminas e cria o hábito na criança de sempre tomar uma bebida doce”, alerta. A relação entre esse hábito e um aumento do IMC (Índice de Massa Corporal), que determina o risco para a obesidade, está provada cientificamente, lembra a representante da agência. Ela sugere que as frutas sejam incluídas no café da manhã e no lanche, os dois momentos mais propícios ao consumo de alimentos açucarados.

A cuidadora especializada em crianças Catia Marques Cairrão e sua filha Lana, em Paris.
A cuidadora especializada em crianças Catia Marques Cairrão e sua filha Lana, em Paris. (Foto: Arquivo Pessoal)

Comer direito é um aprendizado que começa (bem) cedo

Como despertar nas crianças o gosto pelas frutas, legumes, nozes e outros alimentos que trazem cálcio e ferro, dois elementos fundamentais para o desenvolvimento? Ensinando cedo como elas devem comer. Segundo Margaritis, a idade ideal para apresentar às crianças o maior número de alimentos é entre 5 a 24 meses de idade. A partir de dois anos, a tendência é rejeitar o que antes eram bem aceito.

Por essa razão, as cuidadoras e creches exercem um papel fundamental. Na França, existem profissionais diplomadas e especializadas em crianças de 0 a 6 anos, conhecidas como assistantes maternelles. Depois de uma rígida inspeção e de uma formação, elas são autorizadas pelo Estado a cuidar, em casa, de dois a três bebês. As cuidadoras preparam a comida para as crianças e têm um papel importante nessa descoberta dos sabores, diferentemente das creches, onde normalmente os pratos são industrializados.

“Em geral, eu evito comprar papinhas prontas, biscoitos e afins. Gosto de preparar em casa, com minhas próprias maçãs, de forma natural, sem adicionar açúcar”, diz Catia Marques Cairrão, cuidadora do Estado que se ocupa de dois bebês em seu apartamento no 12° distrito, em Paris. Atenta à nutrição, ela inclui frutas de época em suas preparações – como morangos, groselhas ou cerejas para incitar os pequenos a provar a sobremesa. “As crianças gostam. Não precisa de muito tempo, vinte ou trinta minutos bastam para preparar”, diz.

Os bebês que passam o dia com Catia têm sorte, mas na pré-escola, aos três anos, restringir o açúcar se tornara mais complicado para eles. A cuidadora aplica desde cedo as mesmas regras nutricionais em casa com sua filha, Lana, 10 anos, mas reconhece que não é fácil. Mesmo que a menina não seja uma grande consumidora de doces e pratique esportes, a tentação às vezes é grande diante do doce de um colega no pátio da escola, onde as crianças compartilham o lanche. “Tem que conversar, explicar, eles entendem tudo, inclusive os menores. Dizer que podem comer doce, mas não o tempo todo.”

Por conta da profissão, Catia também encontra muitos pais e percebe que o açúcar faz parte do cardápio diário dos pequenos, de forma exagerada. “Em geral pais e mães estão sempre ocupados e compram coisas prontas, alegando falta de tempo. Mas cortar uma fruta em pedaços e colocar num pote para o lanche, leva só uns minutos.” Ela diz observar atônita, nos parques que frequenta, crianças de 2 ou 3 anos comer pacotes inteiros de doces de uma só vez.

Conscientização nas escolas

Nas escolas francesas, a maioria das crianças come nos restaurantes dos estabelecimentos e podem levar seu próprio lanche para a tarde, incluindo biscoitos e sucos de frutas. O regulamento proíbe chicletes, pirulitos, balas e batata-frita de pacote, mas as crianças às vezes escondem os produtos e acabam consumindo da mesma maneira, diz Cátia, citando sua própria filha. Ela que também fala sobre o efeito na publicidade nas crianças. “Minha filha vê um colega comer algo com uma embalagem diferente no pátio, por exemplo, e vai ter vontade de provar, para ver como é”, constata.

A representante da agência francesa reconhece essa dificuldade, lembrando que o consumo excessivo de doces é um hábito generalizado, como aponta o relatório. Segundo ela, é necessária uma conscientização coletiva a respeito do problema, principalmente no setor da Educação. “Os adultos são responsáveis propondo e expondo às crianças a esses alimentos açucarados”, afirma. “O objetivo deve ser expor o mínimo possível a criança a esse tipo de tentação e colocar menos doces nas mochilas”, completa. Ela lembra que o governo também deve tomar as medidas necessárias para diminuir tanto a exposição aos produtos quanto o apelo publicitário. “A questão não é banir os produtos, tudo é uma questão de dose. São coisas que dão prazer a curto prazo e que em altas doses trazem riscos para a saúde. A questão é como moderar o consumo e como educar as crianças. Há um trabalho educativo importante a ser feito com as crianças”, conclui.

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