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Saúde

Cientistas franceses desenvolvem novo antibiótico contra bactérias resistentes

Áudio 04:50
A França é um dos maiores consumidores de antibióticos da União Europeia.
A França é um dos maiores consumidores de antibióticos da União Europeia. Flickr/sparktography

Descoberta é comparável à invenção da penicilina, em 1928, por Alexander Fleming, e pode revolucionar o tratamento contra as infecções resistentes.

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O uso generalizado dos antibióticos, uma das maiores invenções da Medicina contemporânea, criou ao longo do tempo um problema de resistência às moléculas, que aos poucos vêm perdendo sua eficácia. Presentes na água e em alimentos como carne ou frango, eles fragilizam a flora intestinal e tornam as pessoas mais propensas a infecções. As consequências poderiam ser catastróficas para a saúde pública, o que torna indispensável o desenvolvimento de novos medicamentos.

A equipe do microbiologista francês Brice Felden, diretor de pesquisa do Inserm (Instituto Nacional da Saúde e Pesquisa Médica) acaba de descobrir um novo antibiótico, criado a partir de toxinas do estafilococo dourado, bactéria responsável por infecções mortais. A descoberta foi publicada em julho na renomada revista científica Plos Biology.

De acordo com o pesquisador francês, os peptídeos Pep16 e Pep19 já foram patenteados e os cientistas já obtiveram os fundos necessários para levar a pesquisa adiante. Os testes com humanos, que visam testar a toxicidade no organismo do homem, devem começar em 2020. Nos animais, os dois compostos limitaram o aparecimento de resistências e se mostraram eficazes na luta contra microrganismos que provocam infecções hospitalares graves, como a bactéria Pseudomonas aeruginosa – um bacilo muito agressivo.

Dupla função

Na origem dessa descoberta, explicou Brice Felden, está um outro artigo publicado em 2011. Na época, eles identificaram em laboratório um peptídeo no estafilococo dourado que ao mesmo tempo neutralizava e permitia o avanço da infecção. “Fabricado quimicamente, ele tinha outra função e era capaz de matar outras bactérias, que fazem parte do microbiota”, explica. Essa dupla função chamou a atenção dos pesquisadores, que tiveram então a ideia de aumentar a função antibiótica da substância e eliminar sua toxicidade. “Quando falei sobre essa tese nos congressos, as pessoas tiraram sarro, dizendo que, se o peptídeo era tóxico, eu jamais conseguiria transformá-lo em um antibiótico, porque as duas funções sempre estariam ligadas”, diz.

O cientista decidiu ir em frente e criou cerca de 20 moléculas com um grupo de químicos. Para isso, dividiu o peptídeo em forma de hélice e eliminou e incorporou novos aminoácidos, modificando sua estrutura. Através de diversas manipulações químicas, a equipe conseguiu eliminar toda a toxicidade da substância. “Demonstramos isso em testes em diferentes tipos de células humanas, ratos, em analises sanguíneas e células de diferentes órgãos. A atividade antibiótica também aumentou contra uma série de bactérias que resistem aos antibióticos existentes no mercado”, detalha.

Os pesquisadores em seguida fizeram uma análise comparativa e testaram o novo peptídeo em ratos, provocando uma infecção e tentando curá-los utilizando os antibióticos disponíveis e a nova molécula criada pela equipe. “A novidade é que nossa molécula funciona melhor do que alguns antibióticos”, conta. Estatisticamente, os cientistas conseguiram salvar a vida de ratos com septicemia (infeção generalizada) e infecções cutâneas – várias situações diferentes foram testadas.

Por enquanto, diz o pesquisador francês, não é possível afirmar que a molécula criará algum tipo de resistência com o tempo, mas o que é certo é que ela é menos propensa a desenvolver essa característica. Seu mecanismo ainda está sendo estudado. Sabe-se, por exemplo, que o peptídeo atinge a membrana das bactérias, as tornando permeáveis. O microrganismo, em seguida, literalmente “explode”, o que acaba com a infecção.

Testes em humanos

A próxima etapa é descobrir como o novo medicamento vai se difundir no organismo humano, em qual concentração, e de que forma ele será eliminado. Para isso, as moléculas devem ser adaptadas ao peso de um adulto. Os peptídeos devem ser fabricados em escala industrial e purificados. Para essa próxima fase, o estudo obteve um financiamento de uma empresa que patenteou a descoberta e adquiriu um equipamento que tornará possível sintetizar a substância em grande quantidade.

Os testes em humanos devem começar dentro de um ano. Ele deve ser realizado em pessoas sadias, que serão remuneradas. A equipe injetará os peptídeos em um primeiro grupo, de 20 voluntários, que terão um acompanhamento de 24 horas em um hospital. O objetivo é acompanhar os efeitos secundários. “Em seguida iniciaremos a segunda fase dos testes. Se tudo der certo, vamos verificar que nosso medicamento pode curar um paciente com em um tratamento convencional, com moléculas que já terão a autorização para serem colocadas a venda”.

 

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