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Saúde

Estudo identifica mudança no cérebro que torna jovens mais propensos ao alcoolismo

Áudio 05:38
O psiquiatra e neurocientista francês, Jean-Luc Martinot, em seu escritorio em Paris
O psiquiatra e neurocientista francês, Jean-Luc Martinot, em seu escritorio em Paris (Foto: Taissa Stivanin/RFI Brasil)

A pesquisa foi realizada com 1510 adolescentes que tinham em média 14 anos e já consumiam bebidas alcoólicas. Eles foram acompanhados por um grupo de pesquisadores franceses durante dez anos, que concluiu que, em grande parte deles, o consumo alterava o chamado circuito de recompensa no cérebro, os tornando mais suscetíveis ao vício.

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A equipe do psiquiatra e neurocientista francês Jean-Luc Martinot, do Inserm (Instituto de Pesquisas Médicas da França), realizou exames de ressonância magnética em todos os participantes com idades entre 14 e 16 anos. Os adolescentes que já consumiam uma grande quantidade de álcool apresentavam anomalias na estrutura conhecida como mesencéfalo, situada no tronco cerebral, e que conecta o cérebro à medula espinhal. Sua função é “primitiva”: ela recepciona e trata estímulos visuais ou auditivos, por exemplo, para em seguida envia-los ao córtex, onde imagens e sensações são reconstituídas.

Essa região cerebral participa do controle de funções vitais para o organismo, como a respiração ou os batimentos cardíacos, e também está envolvida na ativação do chamado sistema de recompensa, que reforça ou motiva ações –sejam elas positivas ou negativas. Quando um indivíduo sabe que será recompensado, biologicamente haverá liberação da endorfina, o hormônio do prazer.

Em alguns jovens, o álcool ativa esse mecanismo, os tornando mais propensos a uma futura dependência. A descoberta alerta para o risco de um consumo precoce para adolescentes que teriam uma ativação excessiva desse sistema do bem-estar. A questão agora é como passar a mensagem aos jovens, que tendem justamente a testar aquilo que é proibido, lembrou o pesquisador francês em entrevista à RFI.

Pesquisas preliminares

Entre os anos 2000 e 2010 a equipe de Jean-Luc Martinot analisou um grupo de adultos, todos ex-alcoolatras que passaram por um processo de desintoxicação no hospital. Os especialistas realizaram uma série de exames cerebrais para avaliar suas estruturas cerebrais e dados como a quantidade de massa cinzenta, que contém o corpo celular do neurônio, e a qualidade da substância branca – fibras nervosas que conectam diferentes partes do cérebro. Os pesquisadores concluíram que esses adultos, todos inseridos socialmente e curados, ainda apresentavam modificações estruturais que persistiam depois do tratamento.

“Esperávamos encontrar uma relação entre a quantidade de álcool consumida e modificações da estrutura cerebral. Mas, na verdade, não foi o que encontramos. O que detectamos foi uma correlação entre as sequelas da dependência ao álcool na idade adulta, a quantidade de massa cinzenta ou substância branca e a idade em que começaram a consumir bebida alcoólica – o primeiro porre ou apagão”, diz o neurocientista francês. A equipe notou que as modificações cerebrais eram mais consequentes se o consumo de álcool tivesse começado a uma idade precoce, na adolescência. Essa primeira pesquisa, diz, mostrou os efeitos nefastos da bebida alcoólica para os cérebros dos adolescentes.

Com essa informação nas mãos, os cientistas então começaram a examinar os adolescentes de cerca de 14 anos que consumiam regularmente, mas há pouco tempo. “Tentamos verificar se, no cérebro desses adolescentes poderíamos identificar modificações como aquelas observadas nos adultos. Utilizamos uma técnica especifica de ressonância magnética, que chamamos de ressonância magnética de difusão. Ela mede integralmente a substância branca, os feixes de fibra branca”, descreve.

A equipe selecionou jovens que bebiam grandes quantidades de álcool diariamente e descobriu, com surpresa, que o cérebro deles apresentava as mesmas anomalias dos pacientes alcoólatras que tinham passado por um processo de desintoxicação. Os especialistas também tentaram avaliar se essas modificações cerebrais tinham alguma relação com o chamado sistema de recompensa, envolvido no processo que desencadeia as dependências químicas. E foi o caso. “Eles são hipersensíveis a tudo que pode dar prazer, e isso pode ser o caso para outros tipos de dependência”, observa. O valor do estudo é que ele mostra que esses jovens tem uma propensão maior à busca pelo prazer imediato, um perfil que favorece o vício.

Propensão à dependência

A pesquisa também buscou detectar se havia uma propensão à dependência antes mesmo de os adolescentes experimentarem o álcool. Para isso, a equipe examinou jovens que ainda não eram alcoólatras crônicos aos 14 anos, mas se tornaram dependentes aos 16 anos. Os pesquisadores descobriram que eles apresentavam as mesmas modificações cerebrais aos 14 anos do que aqueles que eram dependentes, antes mesmo de desenvolver a doença. “E um argumento importante a favor da pré-existência de uma propensão”, conclui.

De acordo com o neurocientista, a maioria dos pais não sabe que os adolescentes estão consumindo álcool em grande quantidade. Um dos grandes desafios, desta maneira, é discutir novos métodos de prevenção, direcionados aos adolescentes que estão em situação de risco. “Não serve para nada tentar atingir todos os adolescentes. Isso pode ter um efeito contrário e incitar o consumo entre aqueles que tem o gosto pelo proibido. Uma mensagem “universal”, é inútil”, diz. Este, aliás, é o objeto de um outro estudo realizado no laboratório do pesquisador francês, que busca detectar alvos neuro-cognitivos que tornariam os adolescentes que correm o risco de se tornarem dependentes mais sensíveis às mensagens de prevenção.

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