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Saúde

França: cientista testa terapia gênica para impedir replicação do HIV em pacientes

Áudio 05:31
A pesquisadora franco-italiana Marina Cavazzana (no centro) e o pediatra brasileiro Luiz Guilherme Darrigo Junior
A pesquisadora franco-italiana Marina Cavazzana (no centro) e o pediatra brasileiro Luiz Guilherme Darrigo Junior (Foto: Taissa Stivanin/RFI)

A hematologista franco-italiana Marina Cavazzana, pesquisadora premiada e pioneira da técnica, espera conseguir eliminar o vírus HIV modificando geneticamente as células-tronco de pacientes soropositivos. Os testes clínicos serão realizados no hospital público Saint-Louis, no 10° distrito de Paris.

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Vencer as doenças hereditárias é o desafio da cientista Marina Cavazzana, hematologista do hospital Necker e especialista em terapia gênica no instituto francês Imagine - que financia, com fundos publicos e privados, pesquisas inovadoras.

A hematologista franco-italiana foi uma das pioneiras na utilização da técnica, testando-a pela primeira vez em 1999, em crianças portadoras de um déficit imunológico grave e irreversível. A experiência abriu as portas para novos tratamentos que permitiram a cura nos anos seguintes de diversos pacientes vítimas de patologias hereditárias graves. Desde então, a cientista estuda o uso de células-tronco geneticamente modificadas em laboratório para tratar essas doenças.

Agora, Marina Cavazzana se prepara para um novo desafio: combater o vírus HIV utilizando as terapias genéticas e talvez liberar os doentes dos tratamentos retrovirais, que representaram um grande avanço, mas ainda têm diversos efeitos colaterais.

O projeto foi lançado há dez anos e inspirado no caso de Timothy Brown, o chamado “paciente de Berlim”. Em 2007, vítima de uma leucemia, ele foi submetido a um transplante de medula óssea. Os especialistas escolheram um doador que possuía uma mutação genética que o tornava resistente ao HIV. O resultado é que Brown foi curado da síndrome, para a surpresa da comunidade científica mundial.

A ideia agora é utilizar os chamados “lentivírus”, microrganismos com longos períodos de incubação e pertencentes à mesma família do HIV, para transportar os genes terapêuticos que vão combater o vírus. Esse genes serão inoculados nas células-tronco da medula dos pacientes, retiradas previamente e corrigidas geneticamente em laboratório para inclusão dos antivírus. Em seguida, as células serão novamente injetadas nos doentes.

A expectativa é criar nos pacientes uma “resistência” ao vírus da Aids, que impediria sua replicação no organismo. O antivírus, explicou a cientista à RFI Brasil, contém um RNA (ácido ribonucleico, essencial no comando e coordenação dos processos biológicos) que vai diminuir ou anular completamente a transcrição do co-receptor da membrana do vírus HIV. “Ao mesmo tempo, ele vai fazer com que uma proteína atue impedindo a fusão do 'envelope' do vírus à membrana celular", explica a pesquisadora. "Por enquanto, prefiro esperar pelos resultados, porque ainda não tratamos nenhum paciente e não sabemos se vai funcionar”, ressalta.

O protocolo dos testes clínicos, que demorou anos para ser finalizado, diz, ainda não tem data exata para começar, porque depende de pacientes que preencham os critérios de inclusão na pesquisa – serão tratados soropositivos que também têm um tipo específico de linfoma em um estágio ainda pouco agressivo. O linfoma é um câncer que surge como uma complicação do HIV.

Por essa razão, a experiência será realizada no hospital Saint-Louis, que possui um centro de referência na área, em parceria com o especialista do setor, o hematologista francês Eric Oksenhendler. Se o tratamento genético der certo, diz a pesquisadora, vai tornar a carga do vírus indetectável sem a necessidade de medicamentos. Ainda não é possível falar em cura, mas a doença poderia se tornar definitivamente inócua para o organismo, ja que a célula ficaria protegida do ataque do HIV. “Com o tempo, o vírus não conseguira mais se replicar”, diz.

A pesquisa marca um grande passo na carreira da cientista, que, pela primeira vez, vai utilizar a terapia gênica em uma doença infecciosa. Independentemente do resultado, os testes vão permitir o desenvolvimento de novas “armas terapêuticas” para livrar os pacientes dos vírus. “Mesmo se o protocolo não dê o resultado esperado, que é o de interromper definitivamente a triterapia, teremos sem dúvida informações muito importantes para melhorar os protocolos futuros”, avalia.

Colaboração com o Brasil

A pesquisadora franco-italiana realiza diversos projetos paralelos e um deles envolve o Brasil. Em 2018, ela esteve no país e avaliou a possibilidade de construir uma unidade de terapia gênica no hospital universitário da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto (SP).

A troca de experiências com o professor Vanderson Rocha, diretor do Serviço de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular do Hospital das Clínicas, incluiu o intercâmbio com o pediatra Luiz Guilherme Darrigo Junior, especialista no transplante de medula óssea pediátrico. Ele esta passando uma temporada em Paris para trabalhar ao lado da pesquisadora francesa.

“Ribeirão Preto tem um destaque no cenário brasileiro no transplante de medula óssea para pacientes com anemia falciforme. Temos sido pioneiros nesse tipo de tratamento para crianças e adultos com a doença. Pensamos que a terapia gênica pode trazer alento em alguns pacientes que estejam sentindo dores”, explicou Darrigo.

A anemia falciforme é uma doença genética com maior incidência em afrodescendentes e provoca a deformação dos glóbulos vermelhos. O objetivo, diz, é levar o know-how da experiência da cientista na anemia falciforme para o Brasil. “A ideia é, num futuro próximo, sermos capazes de também trabalhar com terapia gênica para anemia falciforme na cidade de Ribeirão Preto”. Uma parceria que deve trazer vários benefícios para a população do país.

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