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Música

Criolo: homem do passado, vivendo no presente e andando no futuro

O rapper brasileiro Criolo
O rapper brasileiro Criolo Daryan Dornelles/Divulgação

"Os saraus tiveram que invadir os botecos", reflete o rapper Criolo, parafraseando sua própria versão para o clássico Cálice, de Chico Buarque. Com os olhos entreabertos, sentado em um sofá dentro da Maison de la Radio, às margens do rio Sena, em Paris, a atual sensação da música brasileira tem a cabeça nas periferias do nosso país. Ele continua a citação: "Biblioteca tem que ter silêncio, não é lugar de poesia". Ele comenta a iniciativa da prefeitura de Gilberto Kassab de cercear os saraus que proliferaram pela periferia de São Paulo, mais notadamente o do Binho. Graças a movimentos sociais, amplamente apoiados pelo rap que tem em Criolo um de seus representantes, o sarau voltou a acontecer. Mas ficou marcado o ataque.

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Mais suave que o racional Mano Brown que, em entrevista à Folha de S. Paulo chamou o prefeito de "inimigo", chefe de um governo "racista", Criolo diz ter "vergonha" de ações que tentam desvalorizar coisas tão "legítimas". Afinal, o "Brasil é pluricultural, miscigenado" e todas as expressões culturais merecem espaço. Principalmente quando o espaço público fecha as portas. O discurso de Criolo em Paris é uma tentativa de abrir portas para a cultura no Brasil.

Do mesmo jeito que o rap começou a fazer lá atrás, no final dos anos 80, quando a rapaziada da periferia se reunia na praça da estação São Bento do metrô para rimar e curtir black music. Lá estavam Mano Brown e Nelson Triunfo, juntamente com a Funk Cia, que maravilha. Na mesma época, Criolo começava a escrever suas letras - "já com melodia", como faz questão de frisar - lá no extremo sul do lado sul do mapa da cidade. Era uma época de sofrimento. Um sofrimento que desaparecia, anos mais tarde, com o senso de humor com que Criolo levava a Rinha dos MCs, batalha de microfones que revelou gente do calibre de Projota e Emicida. O sarcasmo e a ironia do Criolo (então Doido) faziam os manos gargalharem a plenos pulmões na rinha da Santa Cruz.

Entrevista exclusiva à RFI

"Talvez hoje, o sarcasmo e a ironia não estejam mais tão na cara", reflete. "Depois de tudo que passei (...), o maior sarcasmo, a maior ironia e a maior violência de todas é poder estar dando esta entrevista para você aqui em Paris. Isso é violento". Sim, porque como ele próprio diz, em "Sucrilhos", faixa antiga rearranjada para o disco "Nó na Orelha", "uns preferem morrer ao ver um preto vencer". Bom, com "Nó na Orelha", a vitória do Criolo é inegável.

Desde que o álbum saiu, em 2010, foi Criolo na Folha de S. Paulo, Criolo no Estadão, Criolo na TV Cultura, Criolo na Trip, Criolo nas vozes elogiosas de Chico Buarque e Caetano Veloso, Criolo nas rádios francesas, Criolo na capa do jornal do metrô de Paris. Talvez tenha sido o maior boom midiático da história do rap nacional. Mas, como se sabe, a aceitação - e, principalmente, empolgação da mídia - deve ser olhada com desconfiança. Não que o trabalho de Criolo não mereça a aceitação que tem. Mas, na carência de ídolos a imprensa tende a tratar bons artistas novos como a salvação da lavoura. Quem se lembra do jornalista que escreveu que a primeira turnê do Arctic Monkeys pelos Estados Unidos só era comparável em importância para a música pop com a ida dos Beatles para a América, em 1964.

Quando se incensa demais um disco de estreia - ok, Criolo já havia gravado, mas a mídia não viu, não ouviu e não deu a mínima -, cria-se uma expectativa monumental para o segundo disco. É nesta hora que separam-se os definitivos dos efêmeros. Mas negro velho corre de muvuca. Quando entrou no estúdio para as sessões do que viraria "Nó na Orelha", ele não tinha lá grandes pretensões: "Queria gravar meus sambas para ficar para mim e para minha família". Aí, ele apresentou um rap, um funk, um samba-jazz... Sobrou um samba só no disco, "Linha de frente".

Quer dizer, o que veio foi lucro. E o que vier do próximo será assim também. Até porque, Criolo não tem a menor ideia do que será. "Componho o tempo todo". Mas ainda não pensou em repertório, em estratégia, nada. Como artista autêntico, ele "canta o que o coração pede". Para terminar o texto em metáfora - do próprio Criolo, não deste humilde jornalista -, ele faz música como quem "precisa de água no deserto". E está tudo dito.

Tudo? Não, falta um detalhe: logo depois da entrevista, Criolo pediu a íntegra da conversa para passar adiante. "Falamos coisas que são importantes, que dão auto-estima para os manos". Mano ou não, você pode ouvir os quase trinta minutos de entrevista, sem cortes, nesta página.

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