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França/pintura

"As cores para mim são pessoas", diz Gérard Fromanger

Série "O Desejo está em toda parte", de Gérard Fromanger
Série "O Desejo está em toda parte", de Gérard Fromanger © Gérard Fromanger

O Centro Pompidou em Paris apresenta até o próximo dia 16 de maio uma retrospectiva do pintor francês Gérard Fromanger, 76 anos, um dos símbolos do movimento conhecido como Figuração Narrativa - a Pop Art francesa. A produção de Fromanger é vasta e inclui porta-retratos de personalidades como os filósofos Michel Foucault e o poeta Jacques Prévert, ou então cenas de rua na capital francesa. A exposição traz um apanhado dessa produção em 65 obras e dois filmes, resultado de 50 anos de criação.

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RFI - As cores têm uma importância crucial em seu trabalho, principalmente o vermelho. Qual é o valor que você dá às cores?

Gérard Fromanger - As cores para mim são pessoas e não tento dar nenhum "caráter" a elas. O amarelo não é mais quente do que o azul, que não é mais frio que o vermelho, que não é mais importante que o verde. A ideia é dar uma oportunidade para cada uma delas. Quentes e frias, as frias que podem ser quentes, tudo isso é uma batalha, que é a nossa, a batalha pela vida. Percebi isso depois de pintar um quadro chamado “Le Printemps ou la vie à l’endroit”, que representa as vitrines da loja de departamentos Printemps. A rua onde fica a loja, nessa época, tinha as bandeiras de todos os países do mundo  – uma espécie de publicidade colorida para a loja. As pessoas nesse quadro, claro, são cinzas. Ou seja, nós somos cinzas diante das vitrines, luxuosas, e as bandeiras coloridas. É uma inversão de valores. As cores somos nós, a energia somos nós, não são as bandeiras, ou a vitrine dos magazines.

RFI - O vermelho “rendeu” para você um encontro com Godard, em 1968. Você poderia falar um pouco sobre esse episódio?

GF - Eu me senti muito honrado e orgulhoso. Tínhamos uma amiga comum, que era sua assistente. Ela me disse que Jean Luc Godard queria me encontrar, porque tinha ouvido falar de “um cara” que havia desenhado a bandeira francesa com sangue vermelho escorrendo sobre o branco e o azul. Fiquei extremamente orgulhoso, afinal era um artista importante para todos nós, não somente para os cineastas, mas também para o público e os pintores. É uma espécie de Picasso da imagem para nós. Ser convidado por ele por conta de uma obra foi genial.

RFI - Depois disso, vocês trabalharam juntos?

GF - Nós nos encontramos durante um ou dois anos. Ele me pediu para ensiná-lo a desenhar. Depois de seis meses, Godard me disse: ok, já sei o suficiente para fazer um story board. Mantivemos uma amizade de dois anos talvez, viajamos juntos pela Europa e ele tinha a simpatia de me incluir em encontros com atores, por exemplo. Foi formidável. Era um homem muito emocionante, que tinha algo tocante na sua maneira de falar de sua vida particular. No seu jeito de ser, tocar, pegar na mão, contar histórias, de ser sensível a tudo. Foi uma amizade que só durou dois anos, mas, para mim, foi realmente tocante. 

RFI - Poderíamos também falar de outras amizades como Prévert, Sartre e Foucault. Os americanos têm uma maneira de explicar isso, “a arte de saber encontrar as boas pessoas”, e isso sempre resultou em retratos. O que os retratos representam para você?
GF - Esses encontros foram pessoais, antes de tudo, mas aconteceram em uma época revolucionária, em que todo mundo se encontrava com todo mundo. Áreas diferentes se cruzavam. Médicos se encontravam com engenheiros, que se com encontravam músicos, dramaturgos, pintores, filósofos e assim por diante. A gente passava de uma assembleia geral para outra, de uma assinatura para outra, de uma petição para outra, e isso levava as pessoas a se encontrarem. Isso pode impressionar nos dias de hoje, mas na época não tinha nada de “chique” ou “mundano”. Em relação ao retrato? Nós pintores, em certos momentos, nos sentimos meio perdidos. No fim de um período, ou nós nos transformamos em pintores comerciais, ou continuamos nossa busca. É preciso então “reencontrar” o instante em que estamos perdidos e nos agarrarmos aos galhos da árvore da arte. Um desses galhos é o porta-retrato, a natureza morta, a paisagem. A ideia é retomar os temas acadêmicos e tentar renová-los o máximo possível. Isso é apaixonante.

(Entrevista concedida à jornalista Elisabeth Lequeret).

 

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