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Cultura

Festival de Avignon 2016: questionamentos políticos e forte presença feminina

Foto montagem (esq.-d): Palácio dos Papas / Os deuses mauditos / Tristesses / FC Bergman / Yitzhaj Rabin
Foto montagem (esq.-d): Palácio dos Papas / Os deuses mauditos / Tristesses / FC Bergman / Yitzhaj Rabin © Christophe Raynaud de Lage/ Anne-Cécile Vandalem/ Amos Gitaï

O Festival de Avignon comemora seu aniversário de 70 anos em grande estilo. Um dos maiores eventos teatrais do mundo começa nesta quarta-feira (6) com uma programação audaciosa, que espelha as preocupações políticas do Velho Continente, como a ascensão da extrema-direita ou o terrorismo. Nesta edição, entra em evidência também uma nova geração de mulheres diretoras de teatro.

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Maria Emília Alencar, enviada especial da RFI a Avignon

Olivier Py, diretor do festival, não esconde a vocação essencialmente política desse encontro teatral internacional. E segundo ele, "a política é bela demais para ficar só nas mãos dos políticos que defendem seus interesses de classe”. Py defende um festival que encarne a utopia e a diversidade e insiste em suas entrevistas na importância da cultura para qualquer democracia.

“Os Deuses Malditos” de Visconti no Palácio dos Papas

Como carro-chefe da programação deste ano, uma peça que evoca a inquietude europeia diante da atual ascensão dos extremismos: a adaptação do célebre filme “Os Deuses Malditos” (1969) do italiano Luchino Visconti, que tem como pano de fundo o histórico conchavo entre a burguesia industrial alemã e os nazistas na Alemanha da década de 30.

A obra cinematográfica, que provocou escândalo nos anos 60, ganha uma montagem bem contemporânea na suntuosa construção medieval de Avignon, o Palácio dos Papas. A direção é do belga Ivo Van Hove, um dos grandes dramaturgos do momento. Van Hove, diretor do ilustre grupo de teatro Toneelgroep, de Amsterdam, tem também no lado rock de seu currículo a autoria da direção do último espetáculo de David Bowie na Broadway, “Lazarus”.

Amos Gitaï volta ao teatro

Mais uma adaptação cinematográfica para o teatro será destaque esse ano em Avignon: “Yitzhak Rabin, crônica de um assassinato", do cineasta israelense Amos Gitaï. Ele retorna ao festival seis anos após sua primeira aparição em Avignon, com a “A guerra dos judeus”.

Dessa vez, Gitaï é privilegiado com o palco de honra: o pátio do Palácio dos Papas, onde ele apresenta a versão teatral de seu filme que relata o assassinato do premiê israelense em 4 de novembro de 1995. Quatro mulheres em cena retraçam, nessa “peça-documentário”, o fracasso do processo de paz entre israelenses e palestinos.

Novos talentos femininos na criação teatral

Teatro e política se misturam também no espetáculo da jovem dramaturga francesa Maëlle Poésy , de 32 anos, que apresenta uma adaptação livre do romance “Ensaio sobre a lucidez” do escritor português José Saramago, prêmio Nobel da literatura em 1998.

Com o título “Ceux qui errent ne se trompent pas” (“Aqueles que erram, não se enganam” em tradução livre), Maëlle se inspira na ficção emblemática de Saramago – um país onde todos os eleitores votam em branco em uma eleição presidencial – para analisar o distanciamento entre o povo e o poder.

Outra jovem dramaturga, a belga Anne-Cécile Vandalem, de 37 anos, está em foco na programação desse ano: ela é autora, diretora e atriz de uma peça escrita em tom de romance policial, uma ficção em torno da ascensão da extrema direita em uma ilha da Dinamarca.

Para escrever o texto de “Tristesse”, Vandalem viveu alguns meses na pequena ilha de Samso. Inspirada pelo aumento dos nacionalismos na Europa, ela descreve com humor o que considera uma das principais armas da política contemporânea: “o sentimento de tristeza das populações”.

A sueca Sofia Jupither, 42 anos, promete ser outra revelação desta edição do festival. Ela dirige duas peças também de cunho político: “Tigern” (“Tigresa”), da romena Gianina Carbuariu, uma fábula sobre “o estrangeiro” através da história de uma tigresa que foge do zoológico e semeia o pânico num vilarejo europeu.

Sua outra montagem tem uma vocação mais polêmica: a peça “20 de novembro” do autor sueco Lars Noren, inspirada no massacre cometido pelo jovem terrorista Sebastian Bosse em 2006 em uma escola da pequena cidade de Emsdetten na Alemanha. O argumento central da diretora sueca é mostrar de maneira crua os excluídos, os fracassados, os “border-lines” das sociedades social-democratas europeias, esquecidos pelos discursos oficiais.

Avignon Off

Além dos cerca de 50 espetáculos da programação oficial, o festival conta com um vasto circuito paralelo chamado Avignon Off. Esse ano estão em cartaz 1416 espetáculos espalhados não só nas centenas de teatros da cidade, mas em lugares bem insólitos, como igrejas, conventos, claustros, jardins públicos ou simplesmente quintais improvisados em teatros nessa época do ano.

A largada do Avignon Off , vai ocorrer na tarde dessa quarta-feira (6) com o célebre desfile das mais de mil companhias de teatro que disputam a atenção do público durante essa imensa festa do teatro no sul da França.

O Festival de Teatro de Avignon acontece de 6 a 24 de julho

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