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Cinema

Tom político marca festival de cinema latino-americano de Biarritz

Cena do filme venezuelano "La Soledad", do diretor Jorge Thielen Armand.
Cena do filme venezuelano "La Soledad", do diretor Jorge Thielen Armand. Divulgação

As reviravoltas no cenário político dos países latino-americanos não passam despercebidas na 26ª edição do Festival Biarritz América Latina. O processo de paz na Colômbia, o caos na Venezuela, o fantasma da ditadura militar no Chile, a crise no Brasil e o impeachment da presidente Dilma Rousseff são temas abordados nas atuais produções latino-americanas e nos debates promovidos pelo evento.

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Daniella Franco, enviada especial da RFI a Biarritz

A exibição de “La Soledad” (A Solidão, tradução livre) recebeu fortes aplausos do público nesta quinta-feira (28). A trama, que conta a história de uma família que é obrigada a abandonar uma casa onde vive de favor, tem a grave crise política da Venezuela como pano de fundo.

Para salvar a avó doente, José, um jovem pai de família, percorre as farmácias de Caracas, onde pena para achar medicamentos. A filha reclama da falta de leite. “As vacas estão de férias”, responde o protagonista da trama. Para comprar alimentos, ele aguarda pacientemente em longas filas de supermercados cujas prateleiras estão vazias. Sem emprego, os amigos sugerem que José participe de um sequestro, mas ele prefere procurar por tesouros enterrados no subsolo da casa.

No debate com o público após a projeção, o diretor venezuelano Jorge Thielen Armand confessou que, devido à crise no país, até mesmo a produção do filme foi um desafio. “Existe a escassez de comida e existe também a escassez de talentos, porque muita gente deixou a Venezuela”, declarou.

Abordar a situação política é praticamente a regra de boa parte dos filmes exibidos em Biarritz, sejam eles longas, curtas ou documentários. É o caso de “Brésil – Le Grand Bond en Arrière” (Brasil – O Grande Salto para Trás, tradução livre), das jornalistas francesas Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux. A produção, que não compete no festival, mas será projetada no sábado (30), expõe o caos político no Brasil após o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Outro longa, o uruguaio “El Candidato” (O Candidato, tradução livre) denota a falta de credibilidade dos políticos latino-americanos. Dirigido por Daniel Hendler, o filme ironiza a construção forçada da imagem de candidatos através do protagonista Martín, um atrapalhado empresário que decide se lançar na política, com a ajuda de assessores que se esforçam para criar uma figura respeitável.

Em entrevista à RFI, Hendler explicou que, para dar vida a Martín, não se inspirou em um personagem em particular. “O curioso é que em todos os lugares onde o filme foi exibido, as pessoas identificaram a figura. Acredito que todos nós temos caras de pau na política”, declarou.

Como em todo bom thriller, por trás da fábula brasileira de “As Boas Maneiras” há uma forte crítica social. Embora o objetivo do longa não seja abordar de forma direta a crise política, segundo os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, o filme ressalta algumas das consequências dela.

“’As Boas Maneiras’ tem um caráter bem particular brasileiro pela própria geografia de São Paulo, onde a trama se passa. É um filme que trata de opostos: uma personagem de classe média alta e outra que é pobre, da periferia. Aborda a questão racial e outras questões nesse momento de retrocesso no Brasil em que alguns extremismos estão voltando”, ressalta Juliana Rojas.

"Todo filme é político"

Segundo o crítico de cinema Nicolas Azalbert, especialista em América Latina da publicação Cahiers du Cinéma, e conselheiro de seleção do festival de Biarritz, o evento não tem o objetivo de ser uma vitrine dos acontecimentos políticos latino-americanos. “O que nos interessa é a qualidade dos filmes no quesito cinematográfico”, diz.

Para Azalbert, o festival de Biarritz não é um evento militante, mas os filmes exibidos “mostram uma realidade social dos países e muitos deles ressaltam esse momento particular na América Latina”, como o venezuelano ‘La Soledad’ e o chileno ‘Los Perros’ nos quais a política é o tema central. Além disso, o crítico lembra: “todo filme é político”.

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