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Cinema

Filme brasileiro “As Boas Maneiras” surpreende público no festival de Biarritz

Cena do filme "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra.
Cena do filme "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra. Divulgação

Sustos, gritos de espanto, mas também muitas risadas: o filme brasileiro “As Boas Maneiras” gerou reações intensas do público do Festival Biarritz América Latina 2017 nesta sexta-feira (29). O thriller dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra é o único representante brasileiro no evento na categoria longa-metragem.

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Daniella Franco, enviada especial da RFI a Biarritz

“Estou de acordo que seja um filme fantástico. Mas por que tanto sangue? Por que tanta violência?”, pergunta uma senhora francesa sentada na primeira fila, no debate logo após a projeção do longa.

Paciente, a diretora Juliana Rojas explica que os códigos utilizados no longa são típicos de um filme de terror. “O cinema de horror tem muitos fãs exatamente por isso: às vezes há cenas que são fortes e que, de alguma forma, transgridem o limite entre vida e morte – uma espécie de catarse. Isso tem relação com uma atração que as pessoas têm pelo medo. Quando você vai assistir a um filme de horror, você quer sentir medo, embora essa sensação seja desagradável.”

A trama conta a história de Clara – interpretada por Isabél Zuaa – uma enfermeira da periferia de São Paulo, contratada para ser a cuidadora de Ana – vivida por Marjorie Estiano – jovem rica, mas deserdada pela família devido a uma gravidez inesperada. Por trás da relação entre as duas personagens, contrastes sociais e raciais, regados a uma história de amor e a fenômenos sobrenaturais.

A narrativa inspira suspense desde o início, com o comportamento inabitual de Ana e a mistura entre medo e fascínio de Clara por sua empregadora e amante. Em Biarritz, as reações do público seguiram uma trajetória similar: a sonora repulsa que gerou a cena do nascimento do bebê lobisomem e a ternura que a criatura inspirou na cena em que a enfermeira o amamenta pela primeira vez.

Em entrevista à RFI, Juliana Rojas e Marco Dutra se disseram grandes fãs do cinema de horror. “Foi essa paixão que nos uniu, desde a faculdade”, lembrou a diretora hoje durante o debate sobre o filme. De fato, a gestação de Ana remete ao clássico “Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski. E, para os amantes do terror, é impossível não pensar em “Despertar dos Mortos”, de George A. Romero, nas cenas de “As Boas Maneiras” em que humano e criatura se afrontam dentro de um shopping center.

Marco Dutra e Juliana Rojas, diretores do filme "As Boas Maneiras", no Festival Biarritz América Latina 2017.
Marco Dutra e Juliana Rojas, diretores do filme "As Boas Maneiras", no Festival Biarritz América Latina 2017. Daniella Franco/RFI

Para o diretor do festival de Biarritz, Jacques Arlandis, o thriller brasileiro foi um “coup de coeur”. “É um filme muito particular na nossa seleção de longas-metragens. Quando descobri ‘As Boas Maneiras’ e o assisti, fiz questão de selecioná-lo. Essa é a primeira vez no festival de Biarritz que temos um filme de lobisomem”, comemorou.

Um público reativo e exigente

O festival de cinema de Biarritz é célebre pela abertura das sessões ao público: além de profissionais do setor cinematográfico, jornalistas e estudantes da Sétima Arte, as projeções lotam as salas com espectadores de todas as idades, de grupos escolares a idosos, a maioria amadores e moradores da região.

“Eu fiquei muito surpresa e achei muito legal como as pessoas da cidade participam do festival. A principal sala de projeções é gigantesca, cabem mais de mil pessoas, lota facilmente. As pessoas prestam muita atenção nos filmes, participam dos debates. É muito interessante perceber como a cidade interage com o festival e a possibilidade de se relacionar com o público”, disse Juliana Rojas à RFI.

Já Marco se impressionou ao ver uma sala lotar ao meio-dia de quinta-feira (28) para o filme “El Candidato” (O Candidato, tradução livre), do uruguaio Daniel Hendler. “Isso mostra o quanto o festival tem uma frequência ativa. Para nós, essa interação com o público é muito importante para ver que tipo de debate surge desses encontros”, afirma.

Para Arlandis, uma das principais características dos espectadores do festival de Biarritz é a fidelidade e a exigência. “São pessoas que apreciam os filmes da América Latina, que viajaram e que têm uma relação especial com o cinema desta região. Tentamos, a cada ano, renovar as propostas e as temáticas para incitar os debates e as discussões. Afinal, a função do cinema também é essa: incomodar um pouco.”

Segundo o crítico de cinema Nicolas Azalbert, especialista em América Latina da publicação Cahiers du Cinéma e conselheiro de seleção do festival de Biarritz, o critério de escolha dos filmes do festival se baseia prioritariamente na qualidade cinematográfica. “Em seguida, há o critério da pertinência e saber que representatividade, que imagem um país da América Latina vai ter na França e na Europa. Evitamos, especialmente, filmes que evoquem clichês ou caricaturas”, salienta.

Nem clichês, nem caricaturas e a qualidade cinematográfica de sobra de “As Boas Maneiras” conquistaram os organizadores do Festival Biarritz América Latina 2017. O longa, aliás, acumula boas críticas e já obteve dois prêmios internacionais: prêmio do júri no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Itália, e prêmio do público no L’Etrange Festival, em Paris. Na quinta-feira, o thriller recebeu também menção especial do júri no Fantastic Fest, realizado em Austin, nos Estados Unidos.

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