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Bienal de Lyon 2019

Bactérias e produtos químicos "contaminam" obras de arte na 15ª Bienal de Lyon

A 15° Bienal de Arte Contemporânea de Lyon pode ser vista até 5 de janeiro de 2020. Foto: Obra de PamelaRosenkranz
A 15° Bienal de Arte Contemporânea de Lyon pode ser vista até 5 de janeiro de 2020. Foto: Obra de PamelaRosenkranz PamelaRosenkranz

Uma sensação de apocalipse domina a 15ª Bienal de Arte Contemporânea de Lyon, na França. A partir de experimentos químicos e biotecnológicos, os artistas abordam nessa edição a decomposição e transformação da matéria. O evento utiliza pela primeira vez o imenso galpão de uma velha fábrica de máquinas de lavar como principal local de exposição.

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Quando o visitante da Bienal de Lyon inicia seu trajeto pelos 29 mil metros quadrados da velha fábrica Fagor, nos arredores de Lyon, ele se pergunta se uma bomba atômica explodiu no local, apagando todos os vestígios humanos existentes.

Uma máquina de lavar “vestida” de seda rosa - uma homenagem à criadora da célebre marca de lingeries francesa Chantal Thomass - é o único toque de humor dessa viagem pelas obras de cerca de 50 artistas contemporâneos, que partem dos rastros do apogeu industrial do local para abordar em suas instalações um futuro incerto, dominado pela urgência ecológica e pela estranha relação entre o mundo dos seres vivos e o universo das bactérias e da biotecnologia.

Máquina de lavar “vestida” de seda rosa é homenagem à Chantal Thomass
Máquina de lavar “vestida” de seda rosa é homenagem à Chantal Thomass M.E. Alencar/ RFI

Os curadores da 15ª Bienal de Lyon fizeram questão de deixar a velha fábrica Fagor, desativada em 2015, em seu estado natural, com as marcas dos estragos feitos pelo tempo: o chão manchado por substâncias químicas, as paredes cobertas de grafites e colunas metálicas enferrujadas. Outra novidade dessa edição é que quase todos os artistas construíram suas instalações no próprio local.

A fábrica Fagor
A fábrica Fagor Blaise Adilon/Heymann Renoult

“Matérias zumbis”

Foi nesse ambiente que muitos artistas se inspiraram para conceber obras que causam estranheza e desconforto. É o caso da holandesa Isabelle Andersen, que a partir de teorias apocalípticas investiga a evolução da nossa civilização e as novas formas de vida que podem aparecer.

Ela realiza um conjunto de esculturas que vão se decompor e se transformar durante os quatro meses da bienal. São “matérias zumbis”, como ela as denomina, que se comportam como organismos infectados por um estranho vírus. Rodeadas de tubos que injetam água e outras substâncias, suas esculturas transpiram, se decompõem e se metabolizam. “Formas de vida sintéticas que constituem um ecossistema inquietante, sobre os quais nós não temos nenhum controle”, explica a artista.

Na mesma linha, o marroquino Khalil El Ghrib, fascinado pelo processo de transformação das matérias, injeta larvas de insetos em seus objetos efêmeros que se decompõem, e são batizados por ele de “carinhos do mundo”.

A sul-africana Bianca Bondi - também considerada uma das "artistas alquimistas" dessa mostra - utilizou um espaço fechado da velha fábrica Fagor e construiu uma cozinha familiar tradicional com fogão, pia, armários e utensílios totalmente cobertos por uma fina camada de sal. Dentro das panelas, xícaras e jarras espalhadas por essa cozinha, ela colocou um líquido colorido cujo aspecto vai se modificando durante a exposição. Com essa instalação, a artista pretende abordar a transformação dos ecossistemas estimulados por interferências químicas.

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A suíça Pamela Rosenkranz também explora as associações entre componentes químicos e naturais através da instalação de um grande círculo recoberto de pó de arroz colorido, iluminado por lâmpadas LED. Durante a bienal, uma garrafa d’água é derramada nesse círculo todos os dias, criando uma paisagem de crateras e riachos no mesmo, registros indeléveis do tempo que passa. "Ironia sobre o sonho da juventude eterna vendido pelas marcas de cosméticos", observa a artista.

O austríaco Thomas Feuerstein atinge o clímax dessa mostra no que se refere às experimentações mais delirantes. Inspirando-se no personagem Prometeu Acorrentado da mitologia grega (que foi punido pelos deuses por ter roubado o fogo) o artista propõe o seu “Prometeu libertado”: uma escultura em mármore representando o mito grego que será “devorada” durante a bienal por bactérias que consomem a pedra. E como na mitologia, em que os deuses condenaram Prometeu a ter o seu fígado comido aos poucos por uma águia, o artista construiu ao lado da escultura um verdadeiro laboratório com células hepáticas humanas alimentadas pelas mesmas bactérias que vão supostamente constituir um fígado artificial para Prometeu.

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Mutações provocadas pelo tempo

Longe das elucubrações químicas sobre a decomposição da matéria, a sul-coreana Manouk Lim se inspira nas transformações recentes de seu país. Ela criou para a bienal um canal artificial fosforescente de água quente que serpenteia um grande espaço do velho galpão da fábrica Fagor. Além de uma bola colorida que desliza nesse “córrego”, Lim colocou na beira desse canal uma roupa tradicional sul-coreana que simboliza a fratura entre o passado e o presente da Coreia do Sul.

A tailandesa Pannaphan Yodmanee, iniciada desde criança nas técnicas tradicionais da pintura budista, evoca nesta bienal as “ruínas da civilização” através de dois tubos onde penetram os visitantes. Nas paredes desses cilindros, várias pinturas, baixos relevos, objetos, ícones religiosos e plantas misturam vestígios de civilizações antigas e modernas. Mesclando espiritualidade e destruição, a artista explora a questão do tempo, da destruição e da perda.

MacLyon

Além da fábrica Fagor, o Museu de Arte Contemporânea de Lyon, o MacLyon, que sempre foi um dos locais de destaque da bienal, apresenta esse ano oito artistas de diferentes horizontes. Entre esses, a jovem cubana Jenny Feal, que apresenta em uma sala suas instalações que traduzem, de forma poética, a violência da história de seu país e falam da destruição, da censura e da ausência.

Desenhos com terra vermelha típica de Cuba em uma parede branca são semiescondidos por portas deslizantes de um armário moderno. Jenny explicou em entrevista à RFI que o que à primeira vista parece um espaço familiar protegido, esconde na verdade uma outra paisagem, que é a história de todas as pessoas que foram fuziladas em seu país, e sobre os quais pouco se fala. “É um espaço que está camuflado, mas todos conhecem. Podemos querer ou não ver essa realidade”, diz ela.

Obra da jovem cubana Jenny Feal
Obra da jovem cubana Jenny Feal M.E. Alencar/ RFI

Do outro lado da sala, uma instalação evoca a ausência de seu avô, preso político. Um longo banco apresenta uma falha no meio, "um vazio". “Quando fiz um trabalho com fotos da minha família, eu via que estávamos todos sempre sentados num banco, mas o meu avô nunca estava ali, porque nunca estava presente nessas reuniões familiares”. Esse vazio, diz ela, é o espaço que ninguém pode sentar e que estará sempre intacto. “Existe pela própria ausência”, completa.

Também no MacLyon, a artista francesa Gaelle Choisne apresenta uma estranha estufa onde equipamentos eletrônicos regulam a drenagem de fotos de orquídeas e plantas exóticas colocadas em canteiros de plástico. Gaelle se refere a uma “urgência ambiental”. Segundo a artista, colocar numa estufa, não mais a natureza e sim a representação dessa natureza, mostra o absurdo da época que estamos vivendo.

Com o título “Là où les eaux se mêlent” (o lugar onde as águas se misturam, em tradução livre), essa 15° Bienal de Lyon – concebida por 7 jovens curadores do Palais de Tokyo em Paris – aborda temas bem contemporâneos. Muitas obras são carregadas de inquietude e mistério e questionam o lugar do ser humano no universo. Ou mais exatamente: o lugar do ser humano não mais como o centro do mundo.

A 15° Bienal de Arte Contemporânea de Lyon pode ser vista até 5 de janeiro de 2020

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