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“Sucesso do cinema brasileiro não é acidente, foi plantado há vários anos”, diz Karim Ainouz

Áudio 07:11
O cineasta Karim Aïnouz, em entrevista à RFI Brasil
O cineasta Karim Aïnouz, em entrevista à RFI Brasil RFI

“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Ainouz, ganhou o Prêmio do Júri e o Prêmio do Sindicato Francês da Crítica de Cinema no Festival Biarritz América Latina, que terminou no último domingo (6). O filme, que venceu também a mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, foi escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar em 2020 na categoria “Melhor Filme Internacional”.

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O longa é uma adaptação de um romance de Martha Batalha, que se passa nos anos 1950 no Rio de Janeiro e aborda a trajetória de duas irmãs, separadas por pressões patriarcais e machistas.

Para Karim Ainouz, o sucesso do cinema brasileiro no cenário internacional em 2019, ganhando prêmios em vários festivais, é uma “coincidência irônica”, já que o governo de Jair Bolsonaro deixou clara sua intenção de diminuir o financiamento para a Cultura e “sangrar” a Ancine. O resultado positivo de agora, diz, é fruto do investimento de governos anteriores, que prepararam o terreno para a retomada do cinema nacional, como explicou o cineasta à RFI.

RFI - Apesar da dificuldade da Cultura brasileira em enfrentar um contexto de adversidade, para você as coisas estão caminhando no bom sentido, não é?

Karim Ainouz - É uma coincidência irônica. É um ano, pelo menos no cenário internacional, em que o cinema brasileiro tem florescido de maneira mais exuberante, com filmes nos festivais de Berlim ou Cannes. Agora ganhamos um prêmio em San Sebastian. É um ano excepcional e curiosamente desastroso. É excepcional porque coroou uma política de investimento no audiovisual, de investimento público no cinema, que começa em 2003, 2002, após anos de aridez, desde 1994. Sou de uma geração que começou a fazer cinema – eu só pude fazer cinema – por conta de políticas públicas com relação ao audiovisual, que começaram em 2003.

O que vemos nesse ano não é um acidente. É uma explosão que foi plantada. Tem uma flor que está florescendo e foi plantada com muito carinho, durante muitos anos. Ao mesmo tempo, é um ano em que a gente vê um certo desmonte dessas políticas públicas, coisas acontecendo que são bastante preocupantes, que tem a ver com o suporte público e não só com o cinema, mas tem relação com a censura. É uma pauta superconservadora. Então é curioso que tudo tenha se passado no mesmo ano. Essa sementinha está sendo plantada há muitos anos. É uma sensação agridoce que eu sinto. É muito bacana ver filmes como “Bacurau” ou “Divino Amor”, ver filmes do Nordeste. Essa safra, seria impensável há 20 anos, onde o cinema se limitava ao Rio e São Paulo. É muito fascinante, estou muito alegre por conta de todas essas conquistas, mas, ao mesmo tempo, é assustador.

RFI - Como você disse, não é uma coincidência. Na verdade, a semente foi plantada. E você e outros estão colhendo os frutos.

KA - Sim, é fruto de muito trabalho. É quase como se fosse o instantâneo de uma geração que a gente está vivendo. Existe muita alegria e acho que a gente tem que celebrar a alegria. As adversidades estão aí, mas a gente é mais forte do que elas e tenho a sensação, ou pelo menos a esperança, que elas não sejam permanentes. São filmes engraçados, que pensam o Brasil de um jeito diferente, que tentam um diálogo com o Brasil inteiro. Cada dia para mim é um dia novo, como uma série de TV em que eu não sei como vai ser o capítulo seguinte.

A sensação que você tem é que são boas notícias e de repente você abre o jornal… A própria Ancine, uma instituição dificílima de se construir, que se levou anos planejando, estudando. O que é triste, o que está acontecendo, é que ela não acabou – é como se ela estivesse sendo “sangrada”, lentamente. Então é muito complicado. O que eu penso hoje é que sim, a gente teve um momento onde a Cultura foi meio vilanizada pelo governo eleito. Mas, ao mesmo tempo, vivemos um momento histórico e que a gente pode resistir de uma outra maneira. Eu estava falando com a Fernanda Montenegro sobre o filme outro dia. Estávamos um pouco preocupados com o que estava acontecendo e ela desabafou: “menino, você se lembra que o momento mais exuberante da cultura brasileira se dá durante os anos da ditadura, com a Tropicália, o Cinema Novo, a própria Música Popular Brasileira, ou a televisão brasileira?”. Prefiro sempre pensar nisso. Eu acho que a gente está florescendo agora, mas a gente está forte.

RFI - O que vemos por outro lado é uma profusão de resistências no Brasil. Como se em tempos de adversidade as questões identitárias estivessem florescendo de maneira muito rápida.

KA - Acho isso muito bonito. Se você pensa, não é só o cinema, você tem um fortalecimento de algumas gerações, onde a gente está vendo não só o florescimento, mas a própria resistência. Sempre que falam que o Brasil está em um momento delicado, sim, está em um momento delicado. É supercomplicado o que está acontecendo. Existe algo que é uma vontade de se apagar a diversidade, que é uma pauta religiosa conservadora, mas acho que eu estou mais interessado em celebrar quem está resistindo e de maneira exuberante.

RFI - Foi inevitável uma certa comparação entre seu filme e “Bacurau”, que é um filme ancorado na realidade brasileira. Você sente que seu filme “A Vida Invisivel” é tão representativo quanto o longa de Kleber Mendonça, para representar o Brasil no Oscar?

KA – É de novo o que eu te falei, são essas ironias do tempo. Acho “Bacurau” incrível, sou super fã do trabalho do Kleber, acho o Juliano Dornelles um cineasta jovem, que tem uma coisa explosiva incrível, e que coisa que estamos no mesmo ano! Tem dias que eu acordo e digo: “puxa vida, eu devia ter atrasado um pouco, feito a mixagem depois, porque seria tão bonito se fosse cada um em um ano! Evito muito comparar os dois filmes porque são muito diferentes, mas que têm um desejo e um sonho muito parecidos. Foi uma conjuntura, mas os dois filmes, não só eles, vários filmes que saíram neste ano estavam concorrendo à vaga de candidato ao Oscar. São filmes muito impressionantes e me sinto muito orgulhoso de fazer parte dessa safra, completamente nordestina.

Quando começou todo esse debate do Oscar, minha vontade era essa: se a gente fosse se candidatar, junto com o “Bacurau”, seria tão legal! Imagine se pela primeira vez na história da academia, o país pudesse ter dois filmes. Era essa minha vontade ali. Independentemente de ser meu filme, do fulano ou ciclano, temos uma missão muito importante. Mas esse ano me deu um negócio de sangue no olho. Pense bem na última vez que o Brasil foi indicado para a categoria que se chama filme de ficção internacional – na época era Filme Estrangeiro. Foi “Central do Brasil”, há 20 anos! Independentemente de ser “Bacurau”, ou “Divino Amor”, ou nosso filme, é uma missão para a gente estar junto não só para um filme, mas para uma cinematografia. É isso que está me animando muito.

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