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Obra literária inovadora de Geovani Martins ganha a França

Escritor carioca Geovani Martins nos estúdios da RFI nesta quarta-feira, 16 de outubro de 2019.
Escritor carioca Geovani Martins nos estúdios da RFI nesta quarta-feira, 16 de outubro de 2019. RFI

Geovani Martins é atualmente um dos autores nacionais mais vendidos no Brasil. Seu livro de estreia “O sol na cabeça” foi lançado em 2018 pela Companhia das Letras e antes mesmo de chegar às livrarias brasileiras já tinha tido os direitos autorais comprados por vários países. O livro de contos acaba de ser traduzido para o francês por Mathieu Dosse e lançado na França pela prestigiosa editora Gallimard. Geovani Martins veio a Paris participar do lançamento de “Le soleil sur ma tête” e falou com exclusividade à RFI.

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Geovani Martins é saudado como o novo fenômeno literário brasileiro. “O sol na cabeça” reúne 13 contos e é um sucesso editorial. O livro já vendeu mais de 40 mil exemplares, está sendo lançado em 10 países, teve os direitos para o cinema adquiridos e vai virar um filme dirigido pelo premiado cineasta Karim Aïnouz. Por causa desse sucesso, “que não podia imaginar”, o jovem escritor concorda com o emprego da palavra “fenômeno” para definir seu trabalho. Senão, ele diz se sentir “um escritor normal, aprendendo e lançando meu primeiro livro”.

O escritor carioca nasceu em Bangu, periferia do Rio de Janeiro em 1991 e morou toda a sua vida em favelas da cidade maravilhosa. Atualmente, mora no Vidigal. Sua literatura narra essa experiência de vida no lado menos favorecido da Cidade Partida, como definiu Zuenir Ventura. Geovani escreve como fala, como falam os jovens das periferias cariocas, mas passa com facilidade para o português canônico. A escrita do primeiro conto do livro “Rolézim” é a mais radical de todas, mas o autor não acha que criou um estilo:

“Acho que entrei em um estilo e acabei me destacando nele. Eu publiquei a primeira vez em 2013, pela FLUP, a Festa Literária das Periferias, que reúne vários escritores que flertam com este estilo. Eu escrevo desde muito novo, não lembro de uma vida sem escrever, mas eu lembro de ter encontrado uma força muito grande dentro desse lugar. (...) Ter este livro circulando pelo mundo não é uma conquista só minha, abraça muita gente e isso me traz uma felicidade muito grande”.

Geovani diz que suas referências literárias são Machado de Assis, Jorge Amado e muita música popular. O tradutor Mathieu Dosse, que conseguiu traduzir para o francês a linguagem ágil, moderna e super atual do carioca, inclui um outro escritor brasileiro na lista. “Quando a Gallimard me enviou o conto ‘Rolézim’ fiquei pasmado. Achei que tinha uma coisa do Guimarães Rosa, mesmo se o Geovani diz que não é uma influência maior, eu achei que tinha uma coisa ali da linguagem incrível”, diz Dosse que venceu em 2016 um importante prêmio da cidade de Arles por sua tradução de contos do escritor mineiro.

Violência, drogas e UPPs

As drogas, ou melhor, a maconha está presente praticamente em cada conto do livro de Geovani Martins. Para ele, a erva “supre uma falta, também social” na vida dos jovens periféricos. A violência da realidade carioca também constitui sua literatura realista. No conto “A história do Periquito e do Macaco”, ele critica a UPP, que segundo ele “é um projeto que já começou fadado a não dar certo”. Este aliás é o tema do próximo livro do escritor carioca, que deve ser lançado no início de 2021.

“Eu sou crítico ao projeto UPP até hoje, mas sinto uma diferença muito grande para o momento atual. Estou escrevendo um livro que se passa nesse período, entre 2011 e 2013, que é uma espécie de ascensão e queda do projeto. Fazendo a pesquisa, notei que, em 2011, aproximadamente 150 pessoas foram assassinadas pela polícia, o que para a gente na época era um número absurdo! Mas em 2019 já foram mais de 1200 pessoas assassinadas, e isso tem a ver com uma espécie de aprovação por parte do poder público a determinadas políticas. Eu lembro que a violência policial até 2011, 2012, era ainda um constrangimento e hoje em dia é quase uma bandeira a ser levantada”, compara.

FLUP

Na opinião do escritor, a Festa Literária das Periferias, cuja edição 2019 começa nesta quarta-feira no Rio, “fez uma verdadeira revolução no mercado editorial brasileiro”. Desde seu lançamento em 2012, revelou não só autores, como também roteiristas e jornalistas. A FLUP democratizou a produção cultural, mas “ela também formou muitos leitores”. Apesar de dificuldades atuais, com perda de patrocínio e apoios, o evento continua, mas Geovani Martins acha que no Brasil de hoje seria impossível a emergência de um projeto como este.

FLUP só consegue se manter por ter construído um nome muito sólido no cenário nacional. Mas começar nesse momento atual, em que o poder público considera de alguma forma a cultura e a arte como uma espécie de inimigo político, ideológico, acho realmente muito difícil”, afirma.

Geovani Martins sente um interesse muito grande da juventude pela literatura e acha que isto tem a ver com a democratização do setor cultural propiciada por projetos como a FLUP, que permitem uma maior identificação dos leitores com os personagens.

“Eu sou um autor muito lido nas favelas do Rio, muito lido nos interiores do Brasil. Eu percebo que o meu livro inicia a carreira de muitos leitores. Muita gente diz que meu livro foi o primeiro livro que leu na vida e depois se interessou por outros livros.”

“O sol na cabeça” de Geovani Martins está na lista dos finalistas do Jabuti de 2019, a maior referência entre os prêmios literários brasileiros. Ele também concorre ao Prêmio Rio de Literatura.

Confira a íntegra da entrevista no vídeo

 

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