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Moda

Entre objeto fetichista e símbolo de status, história dos sapatos ganha exposição em Paris

Exposição parisiense conta a evolução da história do sapato, mas também da nossa maneira de andar.
Exposição parisiense conta a evolução da história do sapato, mas também da nossa maneira de andar. RFI

O Museu das Artes Decorativas de Paris (MAD) inaugura nesta quinta-feira (7) uma exposição sobre a história dos sapatos desde a Idade Média. Mais do que um evento sobre a evolução dos calçados no mundo, a mostra Marche et démarche – Une histoire de la chaussure se interessa pela forma como esse acessório transformou nossa maneira de andar.

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“Como alguém conseguiu enfiar o pé em um calçado tão pequeno! ” Foi assim que Denis Bruna, conservador-chefe do Museu das Artes Decorativas de Paris, reagiu ao se deparar com um sapato de Maria Antonieta, datando de 1792. Na época, a rainha tinha 37 anos e seu sapato apenas 5 centímetros de largura e 21 centímetros de comprimento – o equivalente a um tamanho° 33.

O “pezinho” da rainha, que seria decapitada um ano depois, não era uma exceção. Segundo Denis Bruna, a maior parte dos calçados que pertenciam à aristocracia ou à alta burguesia dos séculos 18 e 19 eram minúsculos. “Baseado em documentos da época, entendemos que os aristocratas e burgueses não andavam”, explica o conservador-chefe. “Elas ficavam em casa e os sapatos eram principalmente um sinal visível de elegância e de distinção social, e não um instrumento que permitia andar".

"Já os que eram obrigados a atravessar as ruas ou as plantações usavam acessórios adaptados ao terreno e às circunstâncias climáticas. Isso nos levou a lançar pesquisas para sabermos como os seres humanos andaram durante a história”, continua o conservador. 

Volta ao mundo

O resultado desse estudo pode ser visto em quase 500 peças, a maioria calçados, mas também fotografias e quadros, expostos pelo MAD, um dos dois museus da moda da capital francesa, situado em um anexo do museu do Louvre. Bruna, verdadeira enciclopédia ambulante quando o assunto é a moda dos séculos 18 e 19, é o comissário da exposição, cujo percurso dá a volta ao mundo em termos de calçados.

Da China, vêm os minúsculos sapatos de seda bordada, usados no início do século 20. Essa tradição criou o que os locais chamam de “lótus de ouro”, ou seja, pés deformados e atrofiados que impediam as mulheres de andar. Da Índia, as sandálias Paduka, usadas nos rituais de faquir do século 19.

Mas se engana quem pensa que essas práticas extremas estão presentes apenas em culturas ditas exóticas. “Não há diferença entre o Ocidente e o resto do mundo. A questão é saber se o sapato foi feito para andar ou não”, ressalta do comissário. “Um calçado africano usado pelo chefe de uma tribo não é feito para andar e sim para marcar uma distinção social. A mesma coisa acontecia na nossa cultura ocidental, com peças criadas para marcar a diferença”.  

Basta observar os sapatos italianos do século 16, com salto de 57 centímetros, expostos em Paris. “Dá para imaginar como uma mulher da aristocracia andava em Veneza com um sapato tão alto. Ela era obrigada a se mover com a ajuda de servos. Um verdadeiro símbolo de superioridade, pois ela era mais alta que todos”, relata Bruna.

Objetos de fetichismo

Trechos de filmes, como A Bela da Tarde, de Luis Buñuel (1967), Memória de uma Gueixa, de Rob Marshall (2005), ou ainda Cisne Negro, de Darren Aronofsky (2010), mostrados no percurso, lembram que essa peça do vestuário também carrega uma dimensão erótica e até fetichista. Algo que, como aponta o comissário, é conhecido desde o século 18, quando vários autores descreviam os delicados pés das mulheres da época.

Mas é na segunda metade do século 19, com a criação das maisons closes, os bordeis parisienses, que essa moda ganha força. “Sabemos que muitos clientes faziam as prostitutas usarem calçados com saltos gigantescos, extremamente arqueados, quase impossíveis de andar. Ou ainda botas bem altas, cheias de laços, que eram desamarradas aos poucos”, conta. Algumas dessas peças inspiram artistas até hoje, como provam os modelos apresentados nas passarelas por estilistas como Alexander McQueen ou imaginados por designers como Iris Schieferstein, que finalmente de modernos não têm nada.

A exposição vai até 23 de fevereiro. 

Veja alguns modelos expostos em Paris

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