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Artes plásticas

Alex Flemming expõe todas as cores do "Apocalipse" contemporâneo em Berlim

O artista brasileiro Alex Flemming, radicado em Berlim.
O artista brasileiro Alex Flemming, radicado em Berlim. RFI/Márcia Bechara

Entre o aparecimento de um novo mundo e o desaparecimento das velhas estruturas, existe o Apocalipse, termo que significa "revelação". O artista brasileiro Alex Flemming, radicado há 35 anos em Berlim, encena em sua nova série de pinturas todo um rol de possíveis catástrofes contemporâneas, "explodindo" em cores grandes ícones do pavilhão arquitetônico mundial, como a Sagrada Família de Barcelona, a Catedral de Brasília e a Mesquita Azul de Istambul. Flemming recebeu a RFI em seu atelier na capital alemã, que fica situado na antiga sede administrativa da Stasi, a temida polícia secreta do regime comunista da ex-Alemanha Oriental.

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"Anjos sobre Berlim, o mundo desde o fim", cantava Caetano Veloso na faixa Outros Românticos, do disco Estrangeiro, em pleno 1989, ano em que caía o Muro de Berlim e, junto com ele, uma série de estereótipos e paradigmas antes considerados inabaláveis. É nessa Berlim de Caetano, mas também dos anjos de Wim Wenders, que fica, desde meados dos anos 1980,o atelier do artista brasileiro Alex Flemming. Mais precisamente no bairro de Hohenschönhausen, no extremo leste da capital alemã, que leva o nome da mais famosa prisão da Stasi.

Flemming recebe a reportagem na profusão de imagens de seu atelier, onde ele coleciona seu balaio de signos contemporâneos: pinturas, gravuras, colagens e instalações. "Acho que fui um dos únicos ou talvez o único artista brasileiro a ter morado na Alemanha Oriental", conta. "Vim convidado pelo adido cultural do Brasil na época, um grande colecionador, o Chagas Freitas. Como eu tinha esse convite, eu tinha um passe diplomático. O regime comunista aqui era uma ditadura feroz, pior até que a ditadura militar no Brasil, da qual eu havia saído, era extremamente funcional", lembra.

"Quando a linha caía, tínhamos certeza, aqui em Berlim Oriental, que o telefone estava sob escuta. O adido cultural brasileiro da época era amigo de vários artistas dissidentes do regime, principalmente aqueles do grupo de Dresden, e os visitava regularmente. Quando ele chegava em casa, ele conta que recebia, na caixa de correio, várias fotos mostrando onde ele tinha ido e com quem ele havia conversado, para deixar claro que ele estava sendo completamente vigiado", relata.

"Encenação da decadência"

No atelier de Flemming, 30 anos após a queda do Muro, quisemos saber se os 140 km de concreto e aço haviam caído mesmo ou se era "intriga da oposição". O artista ri e responde que "Caiu sim, caiu mesmo, e para sempre". "Sou um otimista e acredito que o mundo vá sempre melhorar, aprendendo com o passado. É isso que eu quero para o Brasil", pontua. "Precisamos entender nosso presente, é preciso ser tolerante com os pensamentos contrários, isso é democracia. Precisamos de menos diferenças brutais e desigualdades, e mais respeito um pelo outro", diz.

Segundo o artista, a série de pinturas Apocalipse [Apokalypse, na versão alemã] brinca, por um lado, com a "encenação da decadência", com implosões e explosões de monumentos principalmente do mundo ocidental e oriental, mas é também, ao mesmo tempo, a revelação, recuperando o sentido bíblico da palavra, sinalizando a libertação de "figuras simbólicas fossilizadas", um despojamento de máscaras e acelebração de um "novo começo".

O Portão de Brandemburgo é um dos ícones da arquitetura ocidental "explodidos" por Alex Flemming na exposição "Apocalipse".
O Portão de Brandemburgo é um dos ícones da arquitetura ocidental "explodidos" por Alex Flemming na exposição "Apocalipse". Divulgação

"Meu trabalho é basicamente pintura, com muitas variações", analisa o artista, que assina, entre outros grandes trabalhos urbanos, a arte da estação de metrô Sumaré, que conta com grandes portraits, na zona oeste em São Paulo."A fotografia é parte integrante da minha obra, mas eu a transformo. Não me considero um fotógrafo, mas um pintor", diz.

Flemming lembra da sua experiência com o grafite há 40 anos, em plena década de 1980. "Na série sobre retratos de pessoas, passo da fotografia para a pintura através do estêncil, sempre com tintas metálicas", detalha. "Atualmente, trabalho sobre o terrorismo. Pinto a explosão de grandes monumentos como a cidade de Palmira no Afeganistão. Peguei várias edificações importantes na história da arquitetura ocidental, como, por exemplo, a catedral de Chartres, na França, e faço uma explosão conceitual", explica Flemming.

"Importante dizer também que, conceitualmente, mesmo 'explodidas' na pintura, as estruturas continuam, em branco. É muito importante que a arte reflita o seu tempo. Mesmo quando esse tempo, como no caso do [grupo] Estado Islâmico explodindo Palmira, é péssimo. A arte tem que ter o seu Zeitgeist [conceito da filosofia alemã do século XIX que significa 'espírito do tempo']", afirma.

Nem mesmo a igreja de Hohenzollernplatz, em Berlim, que abrigou a série "Apocalipse" de Alex Flemming, foi poupada pelas pinceladas do artista. "Não só
porque a igreja projetada entre 1930 e 1933 pelo arquiteto judaico Ossip Klarwein se constituiu um projeto expressionista, mas ela mesma se volta para uma história de destruição e reconstrução", diz. Flemming sauda a liberdade da Igreja Luterana Alemã que não apenas financiou a exposição, como ofereceu o local para que ela se realizasse. "Não tem nada a ver com essa igreja evangélica brasileira, essa coisa horrível. Vemos claramente a volta da censura no Brasil por trás desse viés supostamente religioso. Abaixo a censura, abaixo a ditadura!", entoa.

"Lápides da tecnologia"

Alex Flemming pinta sobre suportes não-tradicionais, como a série "Lápides da Tecnologia".
Alex Flemming pinta sobre suportes não-tradicionais, como a série "Lápides da Tecnologia". RFI/Márcia Bechara

"Mesmo quando pinto a explosão da Catedral de Chartres, a arte para mim tem que ser bela, exuberante, sedutora, esse é o nosso legado da Renascença", aponta. "Outra parte integrante do meu trabalho são as pinturas sobre superfícies não tradicionais. Trabalho neste momento na nova instalação que já esteve em cartaz na Pinacoteca e no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. São pinturas sobre computadores, que transformo em lápides da tecnologia", conceitua.

"Estou discutindo a questão da morte do objeto em si, da tecnologia, que nos obriga a trocar os computadores e a nossa própria morte, a morte do proprietário do computador", diz. "Quero fazer a exposição com 60 a 100 computadores, como se fosse um grande e lindo cemitério", conta o artista.

Atelier na sede administrativa da Stasi

"Este espaço é meu novo atelier na capital alemã. Há cerca de 30 anos, é meu quarto atelier berlinese. Tenho muita honra de ter sido um dos artistas convidados para trabalhar na antiga prisão da Stasi, a terrível polícia secreta da Alemanha Oriental", lembra o artista.

"Para este espaço foram convidados cem artistas, é um edifício gigantesco. Uma parte dos edifícios, a prisão em si, virou um museu, e esta parte, que mistura a parte administrativa a celas, foi cedida a artistas", conta. "Gostaria muito que o Brasil tivesse isso, que o Brasil também evoluísse para dar mais valor à sua história e à sua cultura.

"Imagina se tivéssemos podido fazer no Carandiru o que a Alemanha fez com esta antiga prisão da Stasi. É importante dar a volta por cima, pegarmos os antigos edifícios e ressignificá-los. É importante jamais destruir um local histórico, mas ressignificá-lo", diz Flemming. É importante vermos o que foi o nosso passado, entendermos o nosso presente e mudarmos para um Brasil do futuro".

A Catedral de Brasília, desconstruída na "explosão" de Alex Flemming em "Apocalipse".
A Catedral de Brasília, desconstruída na "explosão" de Alex Flemming em "Apocalipse". Divulgação

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