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Em Paris, escritora Joice Berth fala de feminismo negro e empoderamento 

A escritora Joice Berth
A escritora Joice Berth RFI

Joice Berth é arquiteta, urbanista, assessora parlamentar e escritora feminista. Está na França para lançar a tradução para o francês do seu livro “Empoderamento”, pela editora Anacaona, e participou de uma série de palestras e debates na França e na Bélgica. 

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Veja o vídeo com a entrevista completa no final desta página

Ela percorreu várias cidades para apresentar o seu livro e falar sobre feminismo negro. Apesar de o termo empoderamento vir do inglês, sobre o poder de ação, Joice critica a sua apropriação pelo neoliberalismo que o vê como uma ferramenta apenas individual.

“Eu falo do empoderamento a partir de uma perspectiva freireana, de conscientização crítica, que é uma coisa um pouco mais aprofundada, que tem um vínculo entre o individual e o coletivo e que serve como instrumento de resgate dos poderes sociais de grupos minoritários que foram ao longo da história das decisões da sociedade”, explica

Estética como arma

Apesar de se opor ao individualismo, a escritora defende que a estética é um instrumento de empoderamento para as mulheres negras. 

“A estética tem servido ao longo da história como um instrumento de opressão. Sobretudo no caso de mulheres negras, a gente está sempre sendo ridicularizada, a estética sempre sendo desvalorizada. E se enxergar no outro faz parte da formação de nossa subjetividade. Então essa maneira de manipulação da estética que privilegia a figura da pessoa branca em detrimento à da pessoa negra, ela acaba causando algumas fissuras psicológicas”, diz.

Uma das conferências das quais a escritora participou em Paris, em companhia de Djamila Ribeiro, Françoise Vergès et Gerty Dambury, se chamava “Descolonizemos o feminismo”. Ela explica como ‘descolonizar’. 

“A gente tem uma estrutura social que acaba colocando como produção de saberes e conhecimentos apenas a figura do homem branco europeu. Descolonizar é quebrar esta lógica e mostrar que o sul global também constrói saberes e pensamentos. E com isso você dá à sociedade a oportunidade de ter uma visão diversificada do que pode ser feito para a transformação social, para o equilíbrio da sociedade, para dizimar as desigualdades. Trazer outras visões, outras epistemologias.

Feminismo negro e relação com empregadas domésticas

Joice explica o que é o feminismo negro: “É uma espécie de porta que a gente abre dentro do feminismo e traz uma proposta de reestruturação social onde ninguém fica de fora. Não é uma frente de exclusão de mulheres brancas, pelo contrário. É brigar por um espaço onde as especificidades das mulheres negras, das mulheres não-brancas também sejam pautas a serem tratadas”.

Sobre a relação de mulheres com empregadas domésticas, Joice pontua: 

“É importante esclarecer que empoderamento é um processo onde você vai trabalhando diversas frentes, a econômica, a política, a psicológica, a estética, a cognitiva. E todo este trabalho junto devolve aos grupos minoritários a possibilidade de emancipação. Então, quando você vai trabalhar, por exemplo, a dimensão psicológica do empoderamento, é importante pensar na sororidade, na empatia, como instrumentos políticos de equilíbrio da posição de grupos minoritários na sociedade”, analisa 

“Então dizer que não vai dar emprego para estas mulheres porque não quer explorá-las também seria errado porque estas mulheres precisam do emprego para se sustentarem. Mas eu acho que fazer o exercício de se colocar no lugar desta mulher, de quebrar a lógica colonial que em geral está atrelada à prestação de serviços domésticos. Se voltar para a outra pensando na estrutura de vida que ela tem, nas dores que ela carrega, pensando em como você pode atuar estando num nível econômico um pouco melhor”, recomenda.

Ser negra no Brasil atual

Para explicar como é ser negra no Brasil atual, Joice recorre a dois intelectuais, o geógrafo Milton Santos e a antropóloga Lélia Gonzalez.

“Milton Santos pela vivência de ser negro em diversos lugares do mundo, assim como Lélia González, pelo conceito de ‘amefricanidade’, me amparam na seguinte reflexão: o racismo tem as mesmas intenções em qualquer lugar do mundo, a de estabelecer uma hierarquia onde um grupo é explorado para que o outro consiga acumular privilégios. Diferem de lugar as práticas racistas”, afirma. 

“No Brasil, a gente tem uma grande dificuldade que é o cinismo na maneira como as pessoas destilam racismo. Homens brancos são muito valorizados em qualquer coisa que façam; mulheres negras são sempre invisibilizadas. Tenho falado muito de Virgínia Bicudo, por exemplo, que é a mulher que sistematizou a psicanálise no Brasil e ninguém nunca fala dela, não é por acaso que ela é negra”, acrescenta. 

Ela cita a própria história: “A Djamila [Ribeiro] com a Feminismos Plurais trouxe a oportunidade de eu colocar os meus pensamentos num livro. Nunca antes uma editora me procurou nem ofereceu parceria, então é desta maneira que o racismo atua no Brasil, de uma maneira silenciosa, mas muito perversa, que faz com que a gente duvide até da percepção de que aquilo é racismo”. 

“Então ser uma mulher negra no Brasil é viver numa condição de fragilidade extrema, de desamparo, de solidão e de invisibilidade permanente”, resume. 

Internet para visibilidade social

Joice comenta que a internet também ajudou a dar visibilidade a essas vozes em geral silenciadas.

A internet é uma revolução que serviu muito aos movimentos sociais, não por acaso ela vem sendo discretamente perseguida. Tem muita coisa ruim, mas foi um meio que a gente encontrou de trazer os nossos conhecimentos; as nossas discussões sem o impedimento da mídia hegemônica, que sempre finge que não existimos”. 

Para encerrar, a arquiteta e urbanista fala do direito à cidade e cita o conceito de Milton Santos de cidadania mutilada. 

“A maneira como a cidade é desenhada mutila de formas diferenciadas os grupos minoritários. Não é institucional; mas tem uma série de questões que fazem com que quem more no Capão Redondo [distrito em São Paulo onde vive principalmente uma população de baixa renda] pense cinco vezes antes de ir para Pinheiros [bairro nobre da capital paulista], a menos que seja para trabalhar. A área nobre das cidades é a área branca”, explica. 

“No caso das mulheres, a nossa cidadania é mutilada na nossa circulação pela cidade, a gente tem um problema muito sério de assédio nos transportes públicos, nas ruas, não é todo lugar que você pode caminhar. A cidade tem diversos elementos que mais separam do unificam o seu território”, finaliza. 
 

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