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Portugal

Museu Internacional da Mulher abre as portas em Lisboa com exposição sobre a violência doméstica

Imagem da performance "Desatar Tiempo", de Beth Moysés, com mulheres colombianas vitimas de violência doméstica. A performance foi realizada durante a primeira Bienal de Cartagena das Indias, em 2014.
Imagem da performance "Desatar Tiempo", de Beth Moysés, com mulheres colombianas vitimas de violência doméstica. A performance foi realizada durante a primeira Bienal de Cartagena das Indias, em 2014. DR

O MIMA – Museu Internacional da Mulher de Lisboa abre as portas ao público nesta segunda-feira (25) com a exposição “Meu Corpo, Minha Língua”, focada na violência de gênero, em paralelo ao Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher. A coletiva reúne trabalhos de seis artistas lusófonos que refletem sobre a condição feminina em suas obras.

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Enviada especial da RFI à Lisboa

Com direção artística da brasileira Katia Canton, escritora, artista, educadora e ex-vice-diretora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, o MIMA está instalado no Fórum Grandela, um espaço cultural em São Domingos de Benfica, bairro operário construído no início do século passado em Lisboa. A exposição de abertura reúne telas, desenhos, objetos, instalações, bordados, séries fotográficas e videoperformances que falam de sensibilidade feminina, identidade, corpo, paixão, intimidade, sexualidade, violência, dor, escravidão, transmissão familiar.

A jornalista portuguesa Paula Castelar, criadora do projeto, afirma que o museu vai discutir a condição feminina de várias formas, mas promover o debate sobre a violência doméstica é um aspecto absolutamente essencial. “Dados do último relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas, elaborado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta, revelam que de 1° de janeiro até 12 de novembro deste ano tivemos 28 mortes, 27 tentativas de feminicídio e 45 crianças ficaram órfãs, em Portugal, por causa da violência doméstica; são números vergonhosos”, lamenta. No Brasil, os dados também são alarmantes: uma mulher é agredida a cada quatro minutos, na maior parte das vezes em casa, e o país tem a quinta maior taxa de feminicídios no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Logo no início da mostra, o trabalho “Corações estabilizados em formol”, produzido com órgãos de porcas conservados em frascos transparentes, e um desenho sobre o fluxo das paixões em tons de vermelho, ambos da artista plástica portuguesa Cristina Ataíde, evocam a paixão e os sentimentos, motores da problemática do amor que pode se tornar violento.

A paulista Beth Moysés, artista de referência por seu trabalho sobre o mito do amor romântico e a violência doméstica, veio à Lisboa para a mostra inaugural. Ela exibe uma série de fotos e três videoperformances, entre elas “Desatar Tiempos”, realizada em 2014 com mulheres ameaçadas de morte por seus companheiros em Cartagena das Índias, na Colômbia. Com a experiência de quem já trabalhou com vítimas de agressões machistas em vários países, a artista considera que “as mulheres só conseguem desatar os nós da dor e da violência juntas, num exercício gestual e corporal, quando descobrem a solidariedade, que elas podem se ajudar para superar o trauma”. “A arte cura”, diz ela com entusiasmo. Em "Entre Telas", ela aparece ao lado da mãe e das filhas numa reflexão sobre o tempo e a transmissão entre as gerações.

Apesar de os dados oficiais apontarem para um aumento de agressões e feminicídios no Brasil e no mundo, Beth Moysés nota alguns avanços. “Quando comecei a trabalhar com esse tema, há mais de 25 anos, era tudo vedado e velado. Hoje, os jovens estão aprendendo que a violência contra a mulher não é normal”, destaca.

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A condição das mulheres negras diante de questões sociais, de gênero e etnia aparece nos trabalhos de Rosana Paulino, expoente do feminismo negro no Brasil, presente com a série “Suíte do Coração”, e da lusoangolana Mónica de Miranda. Em “Known Album”, Miranda evoca sua investigação sobre famílias de ex-escravos que são colocados juntos, em um mesmo pé de igualdade, com uma pesquisa sobre a biologia das plantas.

O olhar feminino sobre a violência de gênero se completa com contos de fadas eróticos, de Katia Canton. Mestre em Performance Studies e PhD em Artes Interdisciplinares, títulos obtidos na New York University, sua tese de doutorado articula a relação das artes com os contos de fadas. “Quando morei em Nova York e voltava ao Brasil, sempre ficava impressionada com a erotização das meninas brasileiras. Essa erotização precoce pode deflagar a violência”, alerta.

Série "cor-de-rosa" ganha nova atualidade

O único homem da mostra é o mineiro Domingos Mazzilli, que tem como temas recorrentes o feminino, o doméstico e o íntimo. Médico psiquiatra de formação, Mazzilli também estudou história da arte e abandonou a medicina para se dedicar à produção artística quando estava com 43 anos. Ele se apresenta no MIMA com uma série de obras expostas pela primeira vez em 2007, em Belo Horizonte. São bordados e lingeries antigas, dos anos 1950-1960.

O espartilho “A Esfinge”, com a frase “decifra-me que eu te devoro” bordada na altura do púbis, questiona toda a carga de erotismo, sedução e aprisionamento vividos pela mulher. Em “Regras”, anáguas e a menstruação representam esta prisão. Na toalhinha bordada “Jogo da Velha”, Mazzilli evoca a mulher madura. “Como num teste de revista, brinco com questões do universo feminino e o prontuário ginecológico”, explica.

O mineiro Domingos Mazzilli ao lado da obra "A Esfinge".
O mineiro Domingos Mazzilli ao lado da obra "A Esfinge". RFI

Diante das declarações polêmicas sobre questões de gênero feitas pela ministra brasileira da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que vão totalmente contra as conquistas e a emancipação alcançadas pelas mulheres, Mazzilli diz que esta série “cor-de-rosa” ganha uma nova atualidade. Em fotoperformances, o artista mineiro também se revela em outras personagens, femininas, abordando o transgênero.

A mostra “Meu Corpo, Minha Língua” fica em cartaz no MIMA até 18 de janeiro. Outras exposições sobre temas como a pobreza, a alimentação e as mudanças climáticas já estão planejadas. “Vamos discutir o papel da mulher reverberando e conversando sobre todos esses assuntos. Este espaço vai representar as mulheres lusófonas em todas as suas esferas e não vai se restringir às belas artes ou à arte contemporânea. Vamos ter manifestações de artesanato, design. Expor desde artistas contemporâneas consagradas até movimentos de povos originários, mulheres indígenas e bordadeiras do Movimento de Atingidos por Barragens, em Minas Gerais, que fazem um trabalho lindíssimo com bordado, que é uma técnica de bordar as próprias histórias, as próprias narrativas”, destaca Katia Canton.

A vereadora Cristina Valério, responsável pela área da Cultura da Freguesia de São Domingos de Benfica, vê a abertura do Museu Internacional da Mulher de Lisboa como uma oportunidade única para Portugal. “Este museu é uma porta aberta. Temos a chance de promover essa ligação entre geografias diferentes pela arte”, comenta. Sobre a mostra dedicada à reflexão sobre a violência de gênero, ela é enfática: “Temos de entender por que nos violentamos uns aos outros, isso não pode continuar.”

Cristina Valério, vereadora encarregada da Cultura na Junta da Freguesia de São Domingos de Benfica, onde fica o MIMA.
Cristina Valério, vereadora encarregada da Cultura na Junta da Freguesia de São Domingos de Benfica, onde fica o MIMA. RFI
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