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RFI Convida

Autora de documentário sobre Nelson Pereira dos Santos denuncia ‘censura velada’ no Brasil

Áudio 11:16
A cineasta e professora de cinema da Universidade Federal Fluminense, Aída Marques.
A cineasta e professora de cinema da Universidade Federal Fluminense, Aída Marques. RFI Brasil/ Elcio Ramalho

Aída Marques, cineasta e professora de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), passa pela capital francesa, onde conseguiu uma parceria para finalizar um documentário sobre a vida e obra de Nelson Pereira dos Santos, considerado o precursor do Cinema Novo e o fundador do cinema brasileiro moderno. Em entrevista à RFI, ela traz detalhes da parceria com o diretor brasileiro e de seu percurso cinematográfico.

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“Convivi com Nelson na universidade. Alguns meses antes de falecer, me convidou para dirigir um documentário sobre ele. Desde então trabalhamos juntos, fizemos um livro sobre o filme ‘Rio 40° graus’”, conta. “Este filme tirou o cinema brasileiros dos estúdios da Vera Cruz e o trouxe para as favelas, para a rua, para um outro Brasil que o cinema brasileiro e o mundo não conheciam. É considerado o marco do moderno cinema brasileiro e o precursor do Cinema Novo”, diz.

“É necessário dar o máximo de visibilidade a esse cineasta. Consegui uma parceria aqui na França, onde faremos a finalização do filme", afirma Marques. A cineasta lembra que Nelson Pereira dos Santos tinha uma relação privilegiada com a França. “[O filme] Vidas Secas foi premiado no Festival de Cannes, assim como passaram por aqui Memórias do Cárcere e dois outros filmes dele. Recentemente, ele foi homenageado pelo festival francês com A Música segundo Tom Jobim”, diz.

Aída Marques traz no currículo filmes como Trágicas, um documentário que mistura teatro e cinema, inspirado em heroínas da tragédia grega. “Trabalho com três tragédias neste filme, Antígona, Electra e Medeia. Tracei um monólogo dentro das tragédias, tirando os personagens masculinos, que só entram em cena para a compreensão dos textos”, explica.

“Tento trazer para a contemporaneidade as questões principais de cada tragédia, incluindo depoimentos de vítimas da ditadura militar brasileira, como a [colunista] Hidelgard Angel, o irmão, a cunhada, e posteriormente sua mãe [Zuzu Angel] e uma antropóloga que perdeu o irmão. Tento encontrar em cada texto trágico quais são as principais questões e como elas se colocam no nosso tempo”, detalha.

“Censura velada”

“Acho que o momento é muito duro para todos nós. Não só para o cinema. As universidades estão numa situação terrível, as verbas de pesquisa foram cortadas. O Ministério [da Cultura] acabou, foi criada uma secretaria que fica dentro do Ministério do Turismo. Uma precariedade terrível. Até o cinema que estava dentro de uma agência [a Ancine] está totalmente paralisado”, conta.

A cineasta acredita se tratar de uma “censura velada”. “Não se tem censura mais como na época da ditadura. É uma censura velada, mas às vezes até mais cruel. Todo dia a gente tem uma surpresa”, diz.

Marques não acredita que a visibilidade que o cinema brasileiro possui internacionalmente o proteja hoje de desmandos internos. “Não tenho muita certeza disso não. O filme do Wagner Moura, Marighella, não pode ser lançado até hoje. A pressão interna é muito dura”, afirma a cineasta.

“A questão das igrejas neopentecostais é muito complexa. A censura velada retira todos os meios de trabalho e vai redirecionar os recursos para outra produção. E hoje temos as mídias sociais poderosas. Tudo é muito eficaz, esse trabalho é muito eficiente”, diz a cineasta, que quer mobilizar a opinião internacional para a situação no Brasil.

“Sempre existiu, mesmo durante a ditadura, uma criatividade. Mas é muito difícil. No Rio de Janeiro, onde eu moro, temos encontros e reuniões o tempo todo, mas o meio é muito adverso. Basta lembrar do MAR [Museu de Arte do Rio, que ameaça fechar as portas]. Nos três níveis [do Rio], temos o presidente, o governador e o prefeito, estamos absolutamente desprotegidos”, afirma Marques. “E é tudo aos poucos. [O prefeito Marcelo Crivella] não chegou e falou ‘vou fechar o museu’. Ele foi deixando de pagar os funcionários, o trabalho é subterrâneo, vai acabando aos poucos”, lamenta.

Para ouvir a íntegra da entrevista, clique no vídeo abaixo

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