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RFI Convida

Filme brasileiro “No Coração do Mundo” é recebido com tapete vermelho na França

Áudio 13:37
As atrizes Grace Passô e Bárbara Colen, em cena de "No Coração do Mundo".
As atrizes Grace Passô e Bárbara Colen, em cena de "No Coração do Mundo". Divulgação

Uma produtora de filmes surgida numa cidade no interior de Minas Gerais que, em apenas dez anos, já participou de mais de 200 festivais nacionais e internacionais, levando mais de 50 prêmios. Parece roteiro de filme, mas é vida real. O RFI Convida nesta quarta-feira (25) o diretor Maurílio Martins, que, ao lado de Gabriel Martins, da produtora mineira Filmes de Plástico, assina o filme No Coração do Mundo. A película estreou na França com direito a críticas muito positivas em veículos como Le Monde, Libération e na icônica Cahiers du Cinéma.

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*Para ouvir a entrevista na íntegra, clique na foto acima

Diferentemente da periferia estrondosa do funk carioca, daquela do Recife ou mesmo do ABC paulista, com as quais os cinéfilos brasileiros já estão acostumados, os diretores de No Coração do Mundo fincaram raízes no cotidiano popular de personagens de Contagem, cidade que nasceu às margens da Cidade Industrial e que orbita em torno da capital Belo Horizonte. “Essas periferias até se parecem de certa maneira. Tem a ver com a nossa origem, tanto minha quanto à do Gabriel e do André Novais [de Oliveira, diretor de "Temporada"]. Somos nascidos e criados na periferia de Contagem. Talvez seja esse o grande diferencial. O fato de termos nascido ali e trazer esses espaços para a tela”, diz Maurílio.

Com trilha de MC Papo, o filme traz personagens que procuram uma saída no meio de um cotidiano que parece lhes aprisionar “no coração do mundo”. “Acho que quando trazemos essa periferia, trazemos também novos corpos, uma nova geografia. É a apresentação de um espaço que foi comumente relegado. Na história da cinematografia brasileira e das artes, esses espaços foram relegados a um esquecimento, a um quase apagamento, porque quando se olhava para eles, se fazia com um olhar exotizado”, avalia o diretor.

O jornal Le Monde classificou No Coração do Mundo como filme à “ne pas manquer”, ou seja, “que não se pode perder”, e os elogios não param por aí. A crítica chegou a comparar o filme com uma produção francesa que vem fazendo enorme sucesso no país, o Les Misérables, que aborda a complexa realidade da periferia francesa. Martins diz ter adorado “esse espaço no país mais cinéfilo do mundo”, um sonho que ele “nunca teria tido no início da carreira”. No entanto, ele lembra que se trata de um caminho trilhado há um tempo: “a gente vem de um longo processo com os filmes e falo também de Temporada”, lembra o diretor.

Nova geração de atores

Ambos os filmes trabalham com uma nova geração de atores que vêm alimentando o cinema brasileiro com presenças solares nos últimos dez anos, como Grace Passô, protagonista dos dois longas-metragens da produtora Filmes de Plástico que estrearam na França. Seria Grace a Anna Karina desta Nouvelle Vague mineira?

“Que linda a comparação. Acho que [a atriz, dramaturga, escritora e diretora] Grace talvez seja hoje uma das maiorias artistas do Brasil. Ela é fantástica enquanto dramaturga, diretora de teatro, pensadora, e, além de tudo, é uma atriz brilhante. Grace veio pra chegar”, diz.

Sobre Bárbara Colen, protagonista de Bacurau e integrante do time principal de Aquarius, ambos os filmes de Kléber Mendonça Filho [e Juliano Dornelles, no caso de Bacurau], que integra o elenco de No Coração do Mundo, Maurílio relata uma curiosidade. “O primeiro trabalho dela, a primeira vez que ela atuou na vida foi com a gente, no curta-metragem ‘Contagem’. Até então, ela era uma advogada no Ministério Público. Hoje ela é um dos grandes nomes dessa nova geração, tive a sorte de ver a estreia dela em Cannes”, diz.

Sotaque e identidade

Sobre o sotaque mineiro, colocado em destaque como ferramenta de pertencimento, Maurílio diz que se trata de “uma escolha”. “Funciona, enquanto afirmação, óbvio, porque, falando do Brasil, tem-se a noção de que o sotaque carioca e paulista sejam os sotaques brasileiros. Isso é um erro, a gente foi massacrado a vida inteira pelos meios televisivos e radiofônicos com essa lógica do sotaque”, afirma.

“Você filma a sua fala também, o seu modo de estar no mundo. Quando esse sotaque [mineiro] começou a chegar nas telas, acho que as coisas foram mudando. Desde as primeiras críticas, lá atrás, em 2010, 2011, nos curtas, isso já era apontado, uma certa nova linguagem”, lembra.

Maurílio Martins avalia o ano de 2019 como “talvez o ano mais importante para o cinema brasileiro independente nas últimas três décadas”. “Foi o ano em que os filmes brasileiros estiveram nos principais festivais, e nas competições principais desses festivais, como Rotterdam, Locarno, Cannes. Ao mesmo tempo, foi o ano de um desmonte completo das estruturas que propiciaram que esse cinema acontecesse”, diz. “Quando você começa a falar desse cinema, fala-se de lugares onde esse cinema não chegava. Talvez o principal ponto dessas políticas públicas do cinema brasileiro dos últimos anos tenha sido justo esse: espalhar, descentralizar”, resume.

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