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Cultura

Celebrado no Brasil em centenário, João Cabral de Melo Neto não tem livros traduzidos na França

Áudio 05:12
João Cabral de Melo Neto.
João Cabral de Melo Neto. Divulgação

O Brasil comemora neste ano o centenário de João Cabral de Melo Neto. A reedição de sua obra completa, revista e ampliada com poemas inéditos, será publicada em junho pela Alfaguara, biografias e ensaios sobre ele serão lançados, e o autor será homenageado em feiras literárias e colóquios. As comemorações começaram em 9 de janeiro, dia do nascimento de João Cabral de Melo Neto, no Recife. A RFI entrevistou o especialista Antônio Carlos Secchin para entender por que o poeta pernambucano é tão pouco traduzido na França.

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Apesar de ser um dos maiores poetas da literatura brasileira, João Cabral de Melo Neto não tem nenhum de seus livros publicados em francês. O professor de literatura, ensaísta, crítico e membro da Academia Brasileira de Letras Antônio Carlos Secchin é um dos maiores especialistas do autor, morto em 1999.

O ensaísta estudou literatura na França e foi no país que aprofundou seu conhecimento sobre a obra de João Cabral, reorientou seu tema de pesquisa, e passou a dedicar sua vida a analisar a obra cabralina. Secchin acha impressionante nenhum livro do autor de Morte e Vida Severina ter sido traduzido para o francês até agora, mas ressalta as dificuldades da exportação da poesia:

“A poesia é a menos exportável das artes porque ela está de tal modo entranhada à sonoridade do original que, a menos que o poeta seja apenas aquele que lança ideias, mas não tenha a minúcia do trabalho da forma, a poesia quase sempre perde. E no caso de Cabral, há ainda um fator um pouco mais complicador, é que a referência paisagística dele. A referência até vocabular, que é muito nordestina, torna um obstáculo maior para o tradutor. Não é muito agradável você ler um livro de poemas em que tem 4, 5, 6 notas de pé de página para explicar que aquela palavra não existe no francês e corresponde a um tipo de vegetação encontrada no interior do sertão, por exemplo.”

Antologia da poesia brasileira

2020 é também o ano Clarice Lispector, que como o poeta pernambucano nasceu em 1920. Mas ao contrário de Lispector, que tem sua obra completa traduzida para o francês, João Cabral tem apenas alguns de seus poemas traduzidos e publicados em revistas e antologias, sendo a principal delas “A Poesia do Brasil”, lançada em 2012 pela editora Chandeigne. Secchin lembra que João Cabral não é o único a ter pouca visibilidade no país. Manuel Bandeira e Cecília Meirelles, por exemplo, também foram pouco traduzidos e publicados apenas em antologias.

A mesma editora lançou em 2014, a coletânea “A Poesia do Futebol Brasileiro”, também organizada por Max de Carvalho, com poemas de João Cabral inspirados no esporte. A editora Anne Lima, da Chandeigne, adianta que teria interesse em publicar uma coletânea de João Cabral, mas justifica a falta de títulos em seu catálogo pela dificuldade em negociar os direitos autorais com o Brasil.

Morte e Vida Severina

A obra mais famosa e lida do poeta, Morte e Vida Severina, foi traduzida pela primeira vez há dois anos, mas até agora não interessou nenhuma editora. A brasileira Mariana Camargo e a argentina Magdalena Bournot assinam a tradução, feita para a montagem da peça na França, encenada entre 2019 e 2019 pela companhia de teatro Amaú, que elas criaram. Apesar do sucesso de público, Magdalena Bournot aponta que nenhuma nova apresentação está prevista na França neste ano do centenário do poeta:

“A gente não tem planos de apresentar de novo a peça. Ela foi apresentada nos últimos dois anos em 4 teatros diferentes, em Lyon e Paris. Mas a produção acabou. Acho que para o teatro francês o centenário do João Cabral não é um evento. Ninguém pensou em programar a peça para o centenário. A gente pensou que seria uma boa oportunidade para publicar a tradução. Mas até o momento não tivemos propostas, não tem editoras que se interessam. Acho que teria muito interesse no âmbito universitário, pesquisadores, as pessoas que estudam a literatura brasileira”, diz em jovem diretora teatral argentina em entrevista à RFI

Magdalena e Mariana tiveram problemas em negociar os direitos autorais com os herdeiros do poeta que pediram inicialmente um “valor desmedido” para a representação da peça. Para elas, isso explicaria a dificuldade em publicar a tradução francesa. Mas não é a única, na opinião de Mariana Camargo.

“É difícil dizer. Existe a questão da dificuldade contextual, cultural, linguística, mas também a questão dos direitos. São várias etapas”, aponta a atriz brasileira radicada na França. Ela ressalta que a recepção da peça não é “fácil”: “Eu acho que a dificuldade não está nem no vocabulário, mas na posição de assujeitamento do Severino. Acho que tem um problema de não identificação do público francês com a maneira como o Severino se comunica com o expectador. (...) E além de tudo, tem a questão da terra. Raríssimos são os personagens teatrais que têm essa relação direta com a terra. (...) Aqui, os personagens de agricultores franceses são tratados como mais ingênuos, e o Severino é muito lírico. Tem uma beleza muito grande com a terra e isso é muito novo, muito particular na literatura do João Cabral”, pensa Mariana Camargo.

Poeta obsessivo

Antônio Carlos Secchin organiza, com a colaboração da pesquisadora Edneia Rodrigues Ribeiro, a edição especial com a poesia completa do autor, que será lançada pela Afaguara, com 40 poemas inéditos. “Como Joao Cabral era um obsessivo, só falava das mesmas coisas, como ele mesmo dizia: ‘falo com o que falo/ Com as mesmas 20 palavras/ Girando em redor do sol/ que as limpa do que não é faca’. Alguém que trabalha com um universo tão restrito como ele - as cidades, as paixões dele, os escritores, a Espanha, experiência dele como embaixador na América Latina - vai se aprofundando cada vez mais nesse universo. Não tem perda de qualidade e (os poemas inéditos) não desmerecem o conjunto da obra”, revela o professor.

Secchin também vai reeditar pela Cepe seu estudo sobre o “poeta engenheiro”, com análises do primeiro ao vigésimo livro, que chega às livrarias este ano com um novo título: “João Cabral de ponta a ponta”. O acadêmico carioca também assina a curadoria da homenagem que a Festa Literária de Araxá, Fliaraxá 2020, fará ao autor em julho.

Enquanto as traduções em francês não acontecem, a obra cabralina está disponível em português. E o crítico e ensaísta sugere que ao público leia Joao Cabral de Melo Neto, um autor que alia engajamento social e formalismo poético, que continua mais moderno do que nunca.

“Ele conseguiu conciliar uma temática engajada a uma consciência formal. Normalmente, o poeta engajado, em seu entusiasmo, pensa muito no engajamento e pouco na poesia. Portanto, quando passa o fervor daquela hora, ou quando o quadro político se modifica, esses poemas panfletários desaparecem porque neles não havia nenhuma consciência formal. Eu sempre gosto de dizer que Joao Cabral quando fazia poesia social, primeiro fazia poesia, que é o substantivo, e depois é que entrava o adjetivo social”, conclui Secchin.

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