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Cultura

Chega ao Brasil romance premiado de escritora francesa que viveu 2 anos como prostituta em Berlim

Áudio 06:32
A escritora francesa Emma Becker, autora do romance premiado "La Maison", que será publicado no Brasil pela editora Record.
A escritora francesa Emma Becker, autora do romance premiado "La Maison", que será publicado no Brasil pela editora Record. RFI/Márcia Bechara

Aos 31 anos, a escritora Emma Becker acaba de entrar para o primeiro escalão do mercado editorial francês com o romance La Maison, que recebeu o prestigioso Prix du Roman des Étudiants da rádio France Culture e da revista Télérama. O novo livro, publicado pela editora Flammarion, na França, segue o sucesso dos dois anteriores, Mr e Alice, que receberam elogios da quase sempre severa crítica especializada, além de traduções em mais de 14 países. Sem afetação e abrindo mão dos tradicionais clichês sobre o assunto, Becker aborda em La Maison os dois anos e meio que trabalhou como prostituta em dois prostíbulos de Berlim.

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- “Ela vai demorar uns minutinhos, é por causa da greve”. A assessora da editora Flammarion, cuja sede no elegante 6° distrito de Paris não esconde sua posição entre os cinco maiores grupos editorais franceses, tenta explicar o atraso da escritora Emma Becker. Nesta manhã fria do fim de janeiro, ela “vem direto da casa da avó, que mora no subúrbio, os trens circulam com dificuldade”. A escritora, que acaba de receber o prestigioso Prix du Roman des Étudiants France CultureTélérama, foi também indicada a outros prêmios literários de peso, como o Renaudot, por seu teceiro livro, La Maison. Becker não tarda a chegar para a entrevista, rápida, os olhos claros brilhantes, fone de ouvido, casaco escuro sobre calça jeans e agasalho de malha, além do verbo afiado. Ela é o retrato de uma geração de escritoras que se vê dentro e além do espelho #MeToo. Sua fala é ligeira, precisa e direta como um "strike", assim como sua escrita.

O elogio da crítica especializada não é novidade para a francesa, saudada já em seus dois primeiros romances – Mr e Alice, ambos pela editora Denöel – como uma jovem promessa. Mr, seu livro de estreia de 2011, lançado quando tinha apenas 22 anos, já mostrava a que veio, inspirado pela relação com um homem 25 anos mais velho. Um “romance-confissão” de uma “Lolita contemporânea”, traçando contornos de seus temas de predileção: desejo, sexo, jogos de poder, ou o que chama, pertinentemente, de “teatro da sexualidade”. No entanto, o sucesso de La Maison é inédito para a autora, e catapultou Becker a estrela de sua primeira “rentrée littéraire”, a aguardada temporada literária do mercado editorial francês. Para escrever o livro, a autora viveu durante dois anos e meio como prostituta em dois diferentes prostíbulos de Berlim.

“Tive a sorte de ter uma enorme cobertura da mídia, falou-se muito do livro, com muitas discussões sobre ele. Tive a sorte também de receber um tratamento literário para esse livro, ele não foi tratado como um simples testemunho, o que é muito importante”, pondera a escritora. “Penso que isso abriu uma conversa honesta com meus leitores sobre a prostituição, um tema sobre o qual todos têm uma opinião, mas raros são aqueles que conhecem a profissão ou pessoas que praticam essa profissão. Houve uma possibilidade de discutir esse assunto individualmente, sem histeria ou agressividade, mas é verdade que, no fundo, há sempre esse mal-entendido, não sobre o tema da prostituição, mas sobre o sexo”, diz Becker.

"A questão é como as pessoas pensam o sexo e porque, bruscamente, a emergência da questão financeira dentro da relação sexual faz com que a mesma se torne suja, violenta, nojenta, sendo que, quando é gratuito, não temos nenhum problema em relação a isso", afirma a autora, que diz ter descoberto, durante suas andanças por dois prostíbulos da capital alemã, que "quem realmente detinha o poder nesta relação tarifada era a mulher paga para fazer sexo".

Origens

Vinda da classe média branca da região parisiense (Hauts de Seine), com um pai pequeno empresário e mãe psicóloga, e nascida numa família onde predominam as mulheres - cúmplices e "melhores amigas", as duas irmãs se mudaram com ela para Berlim - Emma Becker passou pelo rigor de um colégio particular católico e chegou a estudar Letras na prestigiosa universidade Sorbonne.

Ela também frequentou o célebre curso preparatório Hypokhâgne, que abre portas para as principais universidades e escolas da elite francesa, na área de Literatura. Mas abandonou tudo com a mesma desenvoltura que entrou: "Achei essa abordagem da literatura muito árida, quase científica. Nunca imaginei fazendo outra coisa que não fosse escrever, preferi fazer pequenos trabalhos enquanto escrevia", diz a autora.

"Acho que essa é uma questão importante para as mulheres. Num mundo onde somos constantemente forçados a consumir, e precisamos constantemente de mais dinheiro, me parece evidente que mães solteiras, por exemplo, ou mulheres artistas que não ganham muito, escolham fazer pequenos trabalhos paralelos para economizar tempo para o que realmente lhes interessa. Nem todo mundo está disposto a fazer um trabalho que não aprecia de verdade", afirma.

"O que é interessante é que essa maneira de pensar, tão comum aos homens, se torna uma espécie de pecado blasfematório quando utilizada pelas mulheres", diz. "Essa é a diferença de tratamento entre homens e mulheres no mundo do trabalho. Como as mulheres possuem ou não o direito de trabalhar. E por que esse serviço sexual só é considerado válido quando ele é gratuito?", questiona a francesa.

Subversões e inspirações

"Acredito que a subversão de La Maison não está no livro, mas no olhar do leitor. Não tenho a impressão de ter escrito um livro subversivo. Escrevemos normalmente numa perfeita tranquilidade, com a sensação de estarmos inteiros naquilo. Depois, efetivamente, a coisa se torna problemática quando o livro se torna também de outras pessoas, que tentam colar os afetos delas aos seus", analisa.

A autora de La Maison se diz diretamente influenciada por autores que sempre fizeram parte de sua biblioteca como Guy de Maupassant, Sade, Louis Calaferte (cujas citações abrem La Maison) e Émile Zola. Todos homens? "Voilà !", exclama com consternação a jovem escritora francesa. "Acredito que, para as mulheres, escrever ainda é um ato político. Percebemos rapidamente a diferença de tratamento entre um livro escrito por uma mulher e outro escrito por um homem", diz.

"Quando somos mulheres, e temos menos de 60 anos, somos quase sempre redirecionadas a nosso físico, à nossa educação, a nossos pais, à sua família. Quantas vezes não me perguntaram em entrevistas o que meus pais acharam do livro?", questiona Becker. "Tenho certeza que não perguntariam isso a um homem. Como se o olhar masculino fosse universal e que uma mulher que escreva sobre o desejo ou sobre o amor o faz sob uma 'perspectiva feminina'. Fica muito mais fácil nos etiquetar, afinal, uma mulher que escreve sobre si, sobre seu corpo, sobre seu desejo, é uma mulher que não corresponde a nenhum rótulo e que coloca em xeque todo o sistema onde cresceu", diz.

Emma Becker se diz também claramente influenciada por outra escritora, uma das primeiras mulheres a falar sobre prostituição em primeira pessoa na França, a premiada Virginie Despentes, autora, entre outros, do manifesto feminista Teoria King Kong (N-1 Edições, 2016) e do romance A Vida de Vernon Subutex (Cia das Letras, 2018), best-seller e verdadeira coqueluche dos leitores franceses. "Li Teoria King Kong quando estava escrevendo meu livro. Isso me deu um poder, me senti bruscamente investida do mesmo poder que Virginie quando ela escreve o manifesto. Achei o livro tão poderoso, que, quando o li, pensei - publique seu livro, não tenha vergonha, se ela não teve medo, porque você teria? Tirei de Teoria King Kong a confiança e a força para ir até o final do meu processo de redação de La Maison", conta.

A autora se declara também fascinada pelo universo queer e militante do filósofo trans Paul Preciado, com quem participou de discussões em evento recente na cidade de Toronto, no Canadá. "Acho Preciado comparável a Derrida, a Foucault. É impressionante. Tenho certeza que, daqui a 50 anos, contarei para meus netos que assisti pessoalmente conferências desse filósofo gigantesco", elogia Becker, que acaba de ler o último livro de Preciado, Um apartamento em Urano (Grasset, 2019), uma compilação de ensaios literários.

Brasil?

Mas se o livro La Maison acaba de ter seus direitos comprados pela editora brasileira Record, Emma Becker confessa não saber muita coisa sobre o país governado por Jair Bolsonaro. "Nunca estive no Brasil, o único eco que tenho do país são as lembranças da minha mãe que esteve lá há mais de 20 anos. Quando eu penso sobre o Brasil, é engraçado, penso na vegetação, na floresta. Sei que parece banal, mas o Brasil me evoca o sol e a vegetação. Me evoca também [o escritor, que se instalou e posteriormente se suicidou com sua mulher no Brasil] Stefan Sweig. Estou muito curiosa, nunca coloquei os pés no Brasil", diz a autora.

Sobre a recente proposta de uma possível política pública de "abstinência sexual", vinda da ministra brasileira Damares Alves, para combater os altos índices brasileiros de gravidez na adolescência, Becker diz estar "de queixo caído". "Embora isso já não me surpreenda tanto", admite. "Depois que meu livro foi publicado, tenho assistido a uma série de discussões agressivas com um tipo de feministas radicais [as chamadas Rad Fem] que exclui completamente as trabalhadoras do sexo e as pessoas trans, pro exemplo. Elas militam pela abolição da pornografia e da prostituição. Fico de queixo caído de pensar, que, entre elas, não existe uma que consiga ver que é impossível abolir o sexo. A única coisa que podemos fazer é fingir que isso não existe", diz a escritora.

"Nunca conseguiremos abolir um fenômeno, tão velho quanto o mundo, como a prostituição. Não poderemos abolir o desejo dos homens pelas mulheres, a necessidade que as mulheres têm de ganhar a vida, a necessidade que as pessoas têm de ver imagens ou representações sexuais, ou o teatro sexual, como o proposto pela pornografia. Como é que se coloca em prática a abstinência sexual? Esse tipo de proposta reflete uma cegueira que começa a se tornar um valor político. É engraçado como, no final, as propostas dos evangélicos e de algumas feministas radicais se encontram no mesmo caminho", ironiza.

"Os argumentos das Rad Fems num determinado momento ecoam os argumentos dos trumpistas, que possuem preconceitos absolutamente abomináveis sobre as mulheres. Essa necessidade de instrumentalizar as mulheres, e as infantilizar, são argumentos que aparecem tanto na corrente [histórica] das radicais feministas, quanto nos reacionários mais duros", critica a autora.

Heterossexualidade e desejo

Sobre seu lugar de fala enquanto escritora, Emma Becker diz que questiona sua "posição." "Porque é verdade que sou uma mulher cisgênera e hétero. Mesmo com todas as subtilidades que isso traz, é verdade que eu cresci num mundo onde não era preciso me questionar. Porque estou dentro da norma, e é uma norma confortável e, mesmo se me encontro numa situação minoritária, porque sou mulher, continua sendo uma posição mais confortável do que a de alguém que se pergunta qual é seu gênero e como se posicionar", afirma.

"Isso dito, é interessante também se perguntar qual é a parte de escolha dentro da heterossexualidade, e qual é a parte de condicionamento. E como é que uma mulher hétero interioriza uma sexualidade masculina que não lhe convém forçosamente", pontua Becker, que acredita que, mais do que um livro sobre o poder das mulheres, La Maison é também um retrato da solidão masculina.

"A fragilidade masculina é um fato, seja num bordel ou fora dele. Eu já tinha consciência disso, mas é verdade que o bordel funciona como uma lente de aumento dessa realidade. Neste contexto, são verdadeiras a fragilidade, a solidão e a falta de referências masculinas. A dificuldade deles de se posicionarem em relação ao poder sexual e erótico das mulheres é algo que salta imediatamente aos olhos", diz a autora, refletindo sua própria experiência em Berlim.

"Existe um espelho entre a fragilidade dos homens nesse contexto e o poder das mulheres que conheci no contexto de prostituição. Que não resume a prostituição como um todo, mas que é uma realidade. Descobri que as relações de poder se invertem com frequência, contrariamente ao que nos dizem e ao que imaginamos sobre a prostituição de maneira geral", afirma a francesa.

"O desejo é uma coisa que sempre me apaixonou. O que quer dizer ser uma mulher, se é que isso ainda quer dizer alguma coisa? Como nos posicionamos em relação aos homens? Quais são as diferenças entre os desejos masculino e feminino, e o que tentam nos ensinar sobre nosso próprio desejo? Isso é uma coisa que sempre me interessou mais do que o sexo em si. Não é o sexo meu terreno de experimentação, é o desejo, e como chegamos ao sexo. E também como nos livramos dele", conclui Becker.

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