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França/Teatro

Peça de diretora brasileira revela última dança do “deus” Nijinski em Paris

O ator Arman Saribekyan e a diretora Flávia Lorenzi durante ensaio da peça "Nijinski ou la dernière danse du dieu bleu".
O ator Arman Saribekyan e a diretora Flávia Lorenzi durante ensaio da peça "Nijinski ou la dernière danse du dieu bleu". Natalia Bogdanovska

A brasileira Flávia Lorenzi, radicada na França, assina a direção da peça «Nijinski ou la dernière danse du dieu bleu» (Nijinski ou a última dança do deus azul), atualmente em cartaz no prestigioso Théâtre du Soleil de Paris. Em cena, apenas o ator Arman Saribekyan e uma cadeira revelam o momento de ruptura, entre lucidez e loucura, na vida do genial bailarino russo que revolucionou os códigos da dança clássica no início do século 20.

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A peça “Nijinki” é inspirada no diário do bailarino, escrito em apenas seis semanas, entre 19 de janeiro e início de março de 1919, entre seu último espetáculo de dança e sua internação em um hospital psiquiátrico na Suíça. No texto, visionário, o bailarino fala de um mundo atormentado, que acabou de sair da Primeira Guerra Mundial, e antevê o próximo conflito. O astro do Balé Russo de Serge Diaghilev, que era seu amante, também fala de seus demônios. O coreógrafo dos audaciosos “Sagração de Primavera” e “L’après-midi d’um faune” tinha 29 anos. Vaslav Nijinski vai passar 30 anos internado até sua morte em 1950, sem nunca mais dançar. Uma história pouco conhecida do grande público que a peça quer revelar.

“Partitura corporal”

A montagem em cartaz no Théâtre do Soleil foi escrita como uma “partitura corporal”, explica Flávia Lorenzi: “A ideia era escrever todos os gestos, os deslocamentos como uma coreografia, pensado como se fosse uma dança, mas do ponto de vista do teatro. O Arman não é dançarino, mas é um ator muito físico.” A criação é minimalista, não só pela falta de recursos financeiros, mas também para dar espaço para a criatividade, para a imaginação: “o minimalismo virou uma força do nosso trabalho. Pouco a pouco, a gente percebeu que o interessante seria que tudo acontecesse a partir do corpo do ator, da sua força de interpretação. Por isso, a gente decidiu fazer um trabalho só com um ator e uma cadeira, e que essa cadeira seria o nosso único objeto para evocar tantos lugares e objetos citados no texto”, detalha a diretora.

A “partitura corporal” contou com a ajuda do bailarino brasileiro Alex Sander dos Santos. A atuação de Arman Saribekyan é intensa e emocionante, entre voz e gestos.

A diretora de teatro Flávia Lorenzi e o bailarino Alex Sander dos Santos que participou da criação da peça "Nijinski ou la dernière dans du deiu bleu".
A diretora de teatro Flávia Lorenzi e o bailarino Alex Sander dos Santos que participou da criação da peça "Nijinski ou la dernière dans du deiu bleu". RFI/Adriana Brandão

Convite

A ideia da peça, aliás, foi do ator, que integra a trupe do Théâtre du Soleil de Ariane Mnouchkine. Durante uma turnê na Suíça, Arman Saribekyan descobriu por acaso o diário de Nijinski e se apaixonou. Ele começou a trabalhar na adaptação para o teatro e convidou Flávia Lorenzi, que ele já conhecia de outros trabalhos, para fazer a direção: “Eu liguei para ela e falei: eu tenho uma proposta. Não tenho nenhum dinheiro, mas você quer me ajudar? (...) Nossas energias estavam conectadas”, lembra o ator.

Eles começaram a trabalhar há um ano. A peça foi mostrada em dois festivais, na Arménia e no Kosovo, onde Arman Seribekyan levou o prêmio do público de melhor ator. A estreia aconteceu na sexta-feira (31) em um espaço cedido por Ariane Mnouchkine para apoiar jovens diretores e companhias. Esta é a segunda vez que Flávia Lorenzi tem a oportunidade de apresentar um trabalho no Théâtre du Soleil. No ano passado, ela mostrou no local a peça “Les Étoiles de Notre Ciel (As Estrelas do nosso Céu) », com sua Companhia Bruta Flor. “Estou muito feliz de estar aqui de novo. O trabalho que fazem aqui no Soleil é super importante. A gente tem toda a estrutura do Soleil, com toda a exigência de Ariane que assistiu a um de nossos ensaios e fez suas observações, sempre brilhantes. Nos ajuda avançar”, diz a diretora brasileira.

Para Flávia Lorenzi, trabalhar com Ariane Mnouchkine, que aos 80 anos continua atuante e defendendo com entusiasmo o teatro e a liberdade de expressão, seja na França ou no Brasil, é um estímulo: “Para ela não tem diferença que seja no Brasil, onde ela tem uma ligação muito grande, no Japão, na Argentina, ela vai estar sempre pronta para defender a cultura. Sem dúvida, ela é uma inspiração muito grande para a gente. Uma mulher com a idade que ela tem, com a força que ela tem, que não abaixa os braços, nós temos só que segui-la”.

A peça “Nijinski ou la dernière danse du dieu bleu” fica em cartaz até 9 de fevereiro, no Théatre du Soleil, na Cartoucherie de Vincennes, no leste de Paris.

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