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Historiador francês Laurent Vidal contrapõe o 'Homem Lento' à ilusão de eficácia da contemporaneidade

Áudio 06:48
O historiador Laurent Vidal.
O historiador Laurent Vidal. RFI

Neste mundo cada vez mais conectado, onde o ritmo acelerado e a produtividade são considerados virtudes, qual é o espaço para a lentidão, para a pausa, para o atraso? A pergunta norteou a conversa com o historiador Laurent Vidal nesta quarta-feira (5). Ele acaba de publicar o livro Les hommes lents, ou Homens lentos, editado pela francesa Flammarion.

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* Para ver a entrevista na íntegra, clique no vídeo ao fim da matéria

Laurent Vidal é professor de história da universidade de La Rochelle, e especialista no Brasil, com vários livros sobre história brasileira e as relações franco-brasileiras, publicados tanto na França quanto no Brasil. Segundo ele, a ideia de mostrar de um outro prisma a história da modernidade surgiu a partir da leitura de um texto do ilustre geógrafo brasileiro Milton Santos, chamado "A Força dos Lentos".

"Achei fascinante a expressão 'os lentos'. Descobri esse texto há 10 anos. Desde esse momento, veio essa ideia de lentidão, para qualificar a fragilidade social", diz o historiador. Vidal convida os leitores a fazer uma pausa, a pensar sobre a velocidade que caracteriza a modernidade e que discrimina os "homens lentos".

"O adjetivo que vem para qualificar uma situação, um contexto, quando ele surge nas línguas romanas, a partir do século XI, XII, ele vem de uma raiz latina. Em latim, 'lentos' estava voltada para o mundo vegetal, para qualificar uma coisa um pouco mole, encurvada etc", conta o historiador. "Com o tempo, aos poucos, o adjetivo perde esse significado, para ser utilizado apenas para qualificar uma atitude humana, e para desqualificá-la, sobretudo", afirma.

Discriminação?

"Nos séculos XV e XVI, é o momento em que o Ocidente cristão debate a questão dos pecados capitais, entre eles, a preguiça. Os teólogos escreverão tratados para mostrar que, junto à preguiça, existem outras atitudes, como a lentidão, a indolência etc", contextualiza Vidal. "Ao mesmo tempo, outros teólogos vão dizer que o tempo é um bem dado por Deus e que não pode ser desperdiçado. Então não se pode gastar o tempo. A modernidade começa impondo um ritmo. O ritmo da prontidão. Isso constrói a figura social do homem moderno", explica.

"Em contrapartida, o homem que ainda não entrou na modernidade é o homem lento", exemplifica Vidal. "A primeira figura social do homem lento, para mim, poderia ser o índio do Novo Mundo", diz.

A Era Industrial acelera ainda mais a demanda da prontidão. "Em cada momento, a modernidade, que se redefine no momento da industrialização, promove uma aceleração que começa a se impor em todos os elementos da vida social. A partir disso, não é apenas o índio que é preguiçoso, ou o escravo, mas também o operário, o homem que vem do campo para trabalhar na cidade", analisa Vidal.

Um elogio da lentidão

"Existe um movimento de elogio à lentidão", diz o historiador, "assim como uma forma de teorização, a onda 'slow', que começou com o 'slow food', o 'turismo slow', até 'slow sex'. Mas não tenho certeza de que os 'homens lentos', hoje, façam parte dessa onda do 'slow'. Hoje os 'homens lentos', para mim, seriam, por exemplo, os migrantes. Acho que estamos entrando num mundo de migrações", analisa o historiador.

"Aqui na França, eles foram os 'coletes amarelos', que surgiram e se instalaram nas rotatórias para ter visibilidade e diminuir o ritmo do fluxo dos automóveis. E há as 'mulheres lentas', portadoras de outras temporalidades, que podem servir para uma reconstrução possível do mundo", diz.

No livro Eles sonharam um outro mundo, publicado na França em 2014 também pela Flammarion, e no Brasil em 2019, o autor descrevia uma comunidade de franceses que foram ao Brasil com o sonho de fundar uma sociedade ideal e harmoniosa. Um sonho possível no Brasil de hoje? Segundo o autor, "esses franceses foram recebidos e acolhidos pelo governo da época, que deu todo o apoio para a recepção destas pessoas".

"Esse governo [Bolsonaro] passa o tempo discriminando. Como construir e pensar uma harmonia quando o discurso é de discriminação constante?", questiona Vidal.

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