Acessar o conteúdo principal
RFI Convida

Cultura no Brasil está “vivendo um vendaval, mas vai passar”, diz viúva de Celso Furtado

Áudio 06:55
A escritora e tradutora Rosa Freire d'Aguiar nos estúdios da RFI em Paris.
A escritora e tradutora Rosa Freire d'Aguiar nos estúdios da RFI em Paris. RFI

A escritora e tradutora Rosa Freire d’Aguiar está em Paris, onde dá palestra nesta terça-feira (11), na Universidade Sorbonne Nouvelle, sobre a questão da tradução de grandes obras literárias europeias no Brasil. Em entrevista à RFI, ela, que converteu para o português clássicos de Celine, Lévi-Strauss ou ainda Balzac, também fala sobre o lançamento de seu novo livro, “Diários Intermitentes De Celso Furtado”, no qual aborda o legado do marido, intelectual de renome e ex-ministro nos governos de João Goulart e José Sarney.

Publicidade

Rosa Freire d’Aguiar começou a carreira como jornalista, atuando como correspondente na Europa, antes de se tornar tradutora. Desde que voltou para o Brasil, nos anos 1980, assinou a tradução de mais 100 livros, muitos deles clássicos, principalmente franceses.

Mas nos últimos anos, seu principal desafio foi realizar um verdadeiro trabalho de arqueologia sobre o legado do próprio marido. Morto em 2004, Celso Furtado foi ministro do Planejamento de João Goulart, nos anos 1960, e pilotou a pasta da Cultura na administração de José Sarney, nos anos 1980. Além disso, foi um intelectual produtivo, autor de cerca de trinta livros, essencialmente sobre economia e política. E, durante sua vida, sempre que podia, anotava suas observações em diários.

“Ele não era de chegar em casa e registrar o que de mais importante tivesse acontecido durante o dia. Mas houve momentos marcantes na vida dele, períodos de angústia, de decepção, de descobertas, ou ainda de viagens ou de encontros com personalidades, em que ele escreveu muito”, conta Rosa.

Apesar das lacunas, os 50 cadernos de Furtado, nenhum deles terminado, mas todos repletos de detalhes, se transformaram agora em um livro sob o olhar da escritora, que acompanhou boa parte desse percurso. O resultado é um projeto de quase 500 páginas, que cobrem mais de seis décadas de um personagem que, como lembra a autora, foi observador, mas também protagonista de alguns momentos da história do Brasil e da América Latina.

“Cultura é mais do que espetáculo”

Furtado foi, entre outras coisas, responsável pela primeira legislação de incentivos fiscais à cultura do Brasil quando era ministro da Cultura. “Celso sempre pensou o Brasil e notou que havia uma dimensão cultural em nosso subdesenvolvimento, como também no desenvolvimento”, lembra Rosa. “Ele começou a estudar isso nos anos 1970 e, no final da vida, mudou e dizia que qualquer projeto de desenvolvimento tinha que nascer da cultura. É a cultura que forma o povo e que forma uma nação”, aponta.

Questionada sobre as mudanças recentes no governo brasileiro, que transformou o Ministério da Cultura em Secretaria, com várias mudanças de ministro, a autora é cética. “Eu vejo com tristeza e, ao mesmo tempo, uma certa saudade. Uma certa nostalgia do que a Cultura já foi e poderá ser, pois não tenho a menor dúvida que estamos vivendo um vendaval, mas isso passa”, comenta. “Não sei o que vai acontecer com a Secretaria da Cultura, mas cultura é muito mais do que espetáculo. É um molde e a alma de uma nação. Então espero que a gente consiga chegar lá de novo”, finaliza, otimista.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.