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Berlinale/Cinema

Todas as vozes do cinema mundial ganham espaço na Berlinale

O filme "Jogos Dirigidos", de Jonathas de Andrade, abre se interessa por uma comunidade de surdos no interior do Piauí, que que criou uma língua própria.
O filme "Jogos Dirigidos", de Jonathas de Andrade, abre se interessa por uma comunidade de surdos no interior do Piauí, que que criou uma língua própria. © Jonathas de Andrade

A Festival de Cinema de Berlim celebra a sua 70ª edição sob nova direção e com algumas alterações internas, inclusive com outras mostras paralelas. No entanto, essas mudanças não atingiram a essência do evento. Com mais de 300 produções apresentadas entre 20 de fevereiro e 1° de março, a Berlinale continua sendo um dos locais mais abertos às linguagens cinematográficas, estéticas e narrativas alternativas, exibindo filmes para todos os gostos.

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Enviado especial a Berlim

Como todo festival de cinema que se preze, a Berlinale tem as suas estrelas, seu tapete vermelho e o toque de glamour que atira os paparazzi a cada ano para a capital alemã. Não estamos em Cannes, com sua célebre Croisette na Côte d'Azur, nem em Veneza, com seus vaporetti ao fundo no final do verão europeu, mas a presença de nomes como Johnny Depp, protagonista do filme “Minamata”, de Andrew Levitas, ou Sigourney Weaver, destaque em “My Salinger Year” de Philippe Falardeau, entre outros, conseguem dar um verniz hollywoodiano ao evento.

Porém, em Berlim a principal estrela é a diversidade nas telas. Além de sua pegada mais engajada, com muitos filmes tratando questões políticas e sociais (como a temática sobre imigração este ano na mostra Panorama), o evento alemão é conhecido por sua abertura para todos os tipos de cinema. Em pouco mais de uma semana, é possível ver, apenas na competição principal, obras tão distintas quanto o belo “Volevo nascondermi”, filme do italiano Giorgio Diritti, que conta de maneira bastante clássica a história do pintor Antonio Ligabue, ou ainda o melancólico francês “Le Sel des Larmes”, de Philippe Garrel, romance contemporâneo filmado em preto e branco, que mais parece ter saído da Nouvelle Vague dos anos 1960.

A Berlinale é um festival onde todas as vozes são ouvidas, até mesmo as menos presentes no cinema mainstream. É o caso, entre os brasileiros presentes este ano, de “Jogos Dirigidos”, de Jonathas de Andrade, filme rodado no interior do Piauí e que retrata uma comunidade de surdos que criou uma língua própria. Ou ainda o surpreendente “Vaga Carne”, filme de Grace Passô e Ricardo Alves Jr. adaptado do teatro, que começa com uma longa narração sob uma tela preta, na qual a atriz e diretora incarna uma voz que entra em todos os espaços. Em ambos os casos, o que parece absurdo ganha sentido durante a projeção e quase sempre emociona a plateia.

Ainda sobre “vozes” diversas, vários projetos falam de culturas autóctones da Amazônia, como o franco-colombiano “Jíibie”, de Laura Huertas Millán, que aborda a dimensão sagrada do cultivo da coca pela comunidade Muina-Muruí, falado em espanhol e ocaina. Já “Apiyemiyekî?”, da brasileira Ana Vaz, se baseia em imagens de arquivo e desenhos feitos pelos indígenas para abordar a ameaça enfrentada pelo povo Waimiri-Atroari durante o processo de construção da estrada BR-174.

Na mesma linha, os organizadores da Berlinale também se interessaram por “Letter from a Guarani Woman in Search of the Land Without Evil”, da cineasta Patrícia Ferreira Pará Yxapy. Representante dos Mbya, ela se tornou, por meio da 7ª arte, uma das porta-vozes dessa divisão dos índios guaranis que vivem em aldeias entre Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil e que preservam até hoje sua própria língua.

Dando voz aos esquecidos

Nesse emaranhado de culturas, o Brasil aparece no programa quase sempre abordando questões de identidade, com inúmeros projetos. Seja no filme “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo de Marco Dutra, na disputa pelo Urso de Ouro e que trata da identidade brasileiro após abolição da escravidão, ou em “(Outros) Fundamentos”’, da carioca Aline Motta, exibido na mostra Forum Expanded, uma das mais experimentais da Berlinale. Última parte de uma trilogia, essa produção falada em português e yoruba foi rodada entre Lagos, na Nigéria, e Cachoeira, na Bahia. A diretora, que diz ser negra no Brasil, mas branca na Nigéria (Oynbo), faz idas e vindas entre os dois lados do oceano para falar da questão afro com muita poesia.

A lista de aventuras cinematográficas é quase interminável durante a Berlinale, levando às vezes a lugares inusitados. Como a maratona de “Luz nos Trópicos”, epopeia de mais de quatro horas de duração dirigida por Paula Gaitán, que também homenageia a Amazônia, com uma narrativa apresentada como “fluida como um rio sinuoso”.

Ou ainda com o documentário “Vil, Má”, do brasileiro Gustavo Vinagre, que se encontrou com a autodenominada "rainha da literatura sadomasoquista" no Brasil dos anos 70 e 80. Hoje aposentada, a jornalista e escritora Edivina Ribeiro, mais conhecida como Vilma, conta em detalhes como passou da literatura erótica para sessões de tortura sexual, ao mesmo tempo em que o Brasil vivia em plena ditadura militar. O tipo de mistura de gêneros que só a Berlinale é capaz de produzir.

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