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Mia Couto, o “imperador da língua portuguesa”

Áudio 16:05
O escritor moçambicano Mia Couto.
O escritor moçambicano Mia Couto. RFI

O moçambicano Mia Couto é um dos maiores escritores contemporâneos de língua portuguesa, autor de mais de 30 livros, traduzidos em mais de 30 países, muitas vezes pressentido para o Nobel de Literatura. O “imperador da língua portuguesa”, como definiu nesta quinta-feira (5) o jornal Le Figaro, veio a Paris participar do lançamento da tradução de seu mais novo livro para o francês e falou à RFI.

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Para assistir a entrevista na íntegra, clique no vídeo abaixo

Originalmente, o romance “As Areais do Imperador” é uma trilogia moçambicana ("Mulheres de Cinza", "A Espada e a Azagaia" e "O Bebedor de Horizontes") que na França foi reunida em um só volume. Mia Couto trabalhou junto com a tradutora Elisabeth Monteiro Rodrigues e a editora Métailié para adaptar e unir os três volumes.

O romance é baseado em fatos históricos. Ele conta o fim do poderoso Estado de Gaza e de seu imperador Ngungunyane, que no século 19 mandava em todo o sul do atual território de Moçambique e desafiou Portugal, na época uma monarquia. Mas o líder africano foi capturado pelos colonizadores em 1895 e passou o resto de sua vida no exílio, primeiro em Lisboa e depois nos Açores, onde morreu em 1906. Com a independência moçambicana, seus restos mortais foram repatriados, mas diz a lenda que ao invés dos ossos do imperador a urna trazia “areias recolhidas em solo português”.

“Para mim, do ponto de vista metafórico isso era importante resgatar porque é como se os grandes homens tivessem pés de barro, como se isso simbolizasse ao mesmo tempo a fragilidade deste império”, explica o escritor.

Com seu estilo poético característico, Mia Couto não escreveu um romance histórico, mas “um romance que conversa com a história” e é contado por duas vozes, por dois personagens de ficção, a negra Imani e o sargento português Germano de Melo. “O romance conversa com uma história que foi falsificada. Essa história oficial com H maiúsculo é construída em função dos interesses de quem está no poder, dos vencedores. Portanto, recuperei versões que foram esquecidas através de uma pequena história de amor entre duas pessoas que era muito pouco provável que se encontrassem”, revela.

Mia Couto, vencedor do Prêmio Camões em 2013, lançou a trilogia produzida entre 2015 e 2017, desta vez em francês, “As Areias do Imperador”– “Les Sables de l’Empereur”, num único volume de quase 700 páginas.
Mia Couto, vencedor do Prêmio Camões em 2013, lançou a trilogia produzida entre 2015 e 2017, desta vez em francês, “As Areias do Imperador”– “Les Sables de l’Empereur”, num único volume de quase 700 páginas. A.Brandão

Lugar da fala

A voz feminina é muito preponderante e narrada na primeira pessoa em “As Areias do Imperador”. Mia Couto, o escritor mais famoso de Moçambique, é branco e pertence, como ele mesmo indica, à menor “tribu” do país. Mas pela literatura, ele dá, há anos, voz a seus conterrâneos negros, homens e mulheres.

Ele acha que o debate atual sobre a legitimidade da fala, sobre a reivindicação das minorias de falarem por si mesmas, é uma questão séria, mas não da literatura: ”Eu aqui não represento uma raça, um gênero. Eu conto histórias de pessoas. O resgate que a literatura faz da individualidade, mostrando que cada pessoa tem direito de ser uma pessoa, é a melhor forma que ela tem de combater o sexismo, o racismo, a homofobia.” Do ponto de vista político, Mia Couto concorda que se deva questionar o “lugar da fala”, o direito de as mulheres falarem por si mesmas, por exemplo.

Sertão africano

Com frequência, o escritor moçambicano lembra a importância e influência da literatura brasileira, e em particular João Guimarães Rosa em sua obra. Na leitura de “As Areias do Imperador” salta aos olhos as referências ao “sertão” africano. “Sou muito marcado por autores brasileiros, em particular, pelos que elegeram o sertão como um lugar, como um mundo, ou um lugar sem mundo, ou um mundo sem lugar. Na verdade, a palavra sertão é muito pouco usada fora do Brasil. Mas quando fui buscar a documentação para fazer este livro, o que figurava na linguagem portuguesa da época era o sertão. Eu achei isso ótimo.”

Mia Couto, que é um escritor muito popular no Brasil, também comentou a situação política atual. O escritor concordou com a citação feita pelo ex-presidente Lula em um discurso nesta semana em Paris de uma frase de sua autoria que diz que “toda vez que a sociedade tem medo, ela tenta se proteger se aproximando do monstro”. “Essa é uma alegoria do que se passa hoje no mundo”, isto é, pensar que alguém que tem o poder absoluto possa nos proteger, pontua.

Polarização brasileira preocupa

O escritor está preocupado com a atual polarização da sociedade brasileira. Para ele, essa divisão não ajuda o Brasil, como não ajudou Moçambique onde gerou uma guerra civil. Mia Couto não acredita que isto vá acontecer no Brasil, mas lamenta que os brasileiros estejam divididos e sente saudades do país solidário de antes. “O Brasil está muito triste, está adoecido. Tenho saudades do Brasil que festejava a vida. Acho que isso é uma coisa que o Brasil herdou da África que é a capacidade, mesmo no momento mais duro, como está escrito na canção de ‘levanta sacode a poeira e dá a volta por cima’”.

O moçambicano, que é biólogo e trabalha com ecologia, falou ainda sobre meio ambiente e aquecimento global, “um problema grave que tem que ser enfrentado”, mas que não pode servir para justificar a adoção de políticas públicas erradas que colocam em risco a população.

 

 

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