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Economia

Brasileiro abre site de aluguel de carros direto do proprietário na França

Áudio 04:05
Brasileiro Guilherme Bulaty fez estudos no Estados Unidos, onde já tinha tentado a experiência de compartilhamento de veículos.
Brasileiro Guilherme Bulaty fez estudos no Estados Unidos, onde já tinha tentado a experiência de compartilhamento de veículos. RFI

Em meio a uma crise econômica que já dura seis anos e custa a ficar para trás na Europa, os franceses têm cada vez menos tabus para entrar de cabeça no chamado consumo colaborativo. A nova alternativa agora é deixar o próprio carro disponível para o aluguel, enquanto o dono viaja de férias. Um site, aberto por um brasileiro com dois sócios franceses, coloca proprietários e locatários em contato e arca com as garantias necessárias para que o negócio não se transforme em pesadelo.

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O Carnomise surgiu no ano passado e acaba de brindar as primeiras férias de verão com uma procura acima da esperada. O serviço não é uma novidade no país, mas este é o primeiro oferecido perto dos aeroportos de Paris, com foco nos milhares de turistas ou executivos que deixam ou chegam à capital francesa.

O primeiro passo é se cadastrar no site na internet, por onde são feitos os pagamentos. Os proprietários então marcam um horário para deixar o veículo na agência, que se encarrega de levar o cliente ao aeroporto, distante poucos quilômetros. Os locatários também são buscados e levados ao terminal, depois de alugar o carro da sua preferência, entre as quatro categorias propostas pela Carnomise. O catarinense Guilherme Bulaty, um dos fundadores, assegura que a economia é de 50% em relação a uma locadora tradicional.

“Qualquer viajante pode ser nosso cliente. Primeiro, os executivos que viajam por motivos profissionais, e depois as famílias que partem a turismo para outros países e deixam o carro conosco durante uma ou duas semanas”, observa. “A ideia é não deixar os recursos parados e tentar sempre otimizar a utilização deles, para que gerem atividade econômica.”

O carro pode ou não ser alugado – neste caso, o mínimo que o usuário tem a ganhar é a economia com o estacionamento no aeroporto, que custa de 80 a 150 euros por semana. A empresa oferece seguro com cobertura total para acidentes, uma garantia fundamental para conquistar a confiança dos clientes.

“Qualquer coisa que acontecer com o carro, seja um acidente, um incêndio ou um roubo, estará coberta por uma das maiores seguradoras da França. E fazemos uma vistoria bem mais minuciosa que as das locadoras comuns – chegamos a filmar todos os carros”, ressalta.

Seguro é a maior preocupação

Bulaty sabe que a preocupação com os eventuais estragos é comum, mas verifica que 95% dos clientes retornam para oferecer ou alugar um carro. “É a primeira vez que fazemos e gostamos do conceito. Não somente não nos custa nada como se alguém aluga, a gente ganha um dinheirinho, o que sempre cai bem quando já gastamos durante três semanas de férias em outro país”, comenta a francesa Jane, ao desembarcar no aeroporto Charles de Gaulle com a família e recuperar o carro, que foi alugado por 10 dias.

A família já é uma habitué da troca de casas durante as férias - escolhe um destino e, no outro país, procura a residência de uma família que queira ficar em Paris no mesmo período. Desta vez, o compartilhamento dos bens foi completo, ao incluir o veículo.

A empresária Norah afirma que examinou em detalhes as garantias para o aluguel e não pensou duas vezes antes de deixar o carro à disposição. “Tudo me caiu bem e eu me inscrevi, trouxe o meu carro e foi tudo tranquilo. É um dinheiro a mais que a gente pode gastar durante as férias ou depois. Não me custou nem um centavo e ainda ganhei dinheiro”, comemora.

Já a aposentada Laurence teve de vencer a desconfiança do marido, mas tem certeza de que quando o casal retornar das férias e receber uma “recompensa”, ele também vai gostar da ideia. “Para aceitar fazer isso, não pode ser nenhum apaixonado pelo seu carro. Para mim, um automóvel serve para andar e me levar de um ponto a outro”, diz. “Mas vários amigos me disseram ‘Meu Deus, que horror! E se houver um acidente?’, e eu respondi que não dou a menor bola, porque se acontecer, tem seguro completo incluído.”

Mudança de hábitos

A consultora Nathalie Damery, presidente do Observatório da Sociedade e o Consumo, destaca que nem sempre o uso de plataformas como o Carnomise é motivado somente pelo dinheiro. Ela constata que 50% dos franceses desejam consumir de uma outra maneira e ampliar o leque de opções além do comércio tradicional.

“Tem muitas pessoas, como essas que trocam carros, que têm um bom nível de vida, fizeram excelentes estudos, que lhes permitem ultrapassar a barreira do medo do outro. E essas práticas diferentes renovam a experiência do consumo”, comenta.

Para Damery, a legislação ainda é um empecilho para o desenvolvimento do setor em muitos países. Mas para a especialista, o número de start ups que incentivam o compartilhamento dos bens só tende a crescer. “Por trás destes negócios, há apenas profissionais. Atrás do AirBnB, do Blablacar e outros, só tem jovens empreendedores que acabaram de sair das grandes escolas de comércio e administração”, ressalta. “É um meio muito bem estruturado, com pessoas que sabem perfeitamente o que estão fazendo e têm uma excelente rede em torno delas.”

Bulaty, que morou nos Estados Unidos antes de se radicar na França, garante que ainda vai levar o serviço para o Brasil. “Primeiro vamos nos fortalecer na França, crescer para outros países da Europa, e espero que o passo seguinte seja dado no Brasil. Esse é o meu sonho”, afirma.
 

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