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Economia

França sonha em atrair investimentos pós-Brexit

La Défense é o bairro financeiro de Paris, que espera concorrer com a City, de Londres.
La Défense é o bairro financeiro de Paris, que espera concorrer com a City, de Londres. Flikcr/ Creative Commons

Os franceses lamentaram a decisão dos britânicos de deixar o Reino Unido – mas espicham os olhos para as oportunidades de negócios que a saída dos britânicos poderá resultar em solo francês. O principal centro financeiro da Europa fica em Londres, porém o afastamento do bloco europeu pode gerar uma debandada de bancos e empresas do país. Com eles, outros setores adjacentes, como o imobiliário, se moveriam para outra cidade que faça parte da UE.

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Paris, Frankfurt ou Milão? Praças importantes do mercado financeiro europeu disputam as atenções das instituições. Na semana seguinte à votação do referendo, o governo regional de Ile de France, que abriga a capital francesa, divulgou uma campanha para chamar a atenção dos britânicos, enviou os atrativos da região para 4 mil empresas baseadas na capital inglesa e inaugurou um site e uma linha telefônica para atender às dúvidas dos ingleses. O Brexit também é visto como uma boa oportunidade para chamar de volta os franceses que haviam deixado a França para abrir um negócio do outro lado do Canal da Mancha, atraídos pelo regime fiscal britânico.

A economista Agnès Benassy-Queré, presidente do Conselho de Análise Econômica, que assessora o governo francês, vê o Brexit como um evento negativo para a França e a UE, mas visualiza boas vantagens para a capital francesa na era pós-ruptura do Reino Unido.

“Na Europa, a cidade que mais se parece com Londres é Paris – por ter uma grande região metropolitana, uma vasta mão de obra altamente qualificada, um hub aeroportuário”, nota a especialista em zona do euro. “Tudo isso pode, eventualmente, criar oportunidades, em especial para as empresas multinacionais instaladas em Londres como ponto de partida para atender à União Europeia. Seriam chances para qualquer setor, porque se tratam da base das empresas.”

Para ser mais atrativa, reformas

O premiê Manuel Valls anunciou um plano de atração de investimentos, com redução fiscal para os trabalhadores estrangeiros ou franceses expatriados e diminuição de 33% para 28% dos impostos para as empresas. A alta taxa de impostos pagos pelos ricos na França é vista como o ponto fraco do país para atrair os britânicos. Benassy-Quéré avalia que o sucesso das empreitadas de Paris vai depender de o país se mostrar mais dinâmico.

Primeiro-ministro francês, Manuel Valls, estendeu o tapete vermelho para os empresários britânicos.
Primeiro-ministro francês, Manuel Valls, estendeu o tapete vermelho para os empresários britânicos. DOMINIQUE FAGET / AFP

“Não se pode pensar que o Brexit, sozinho, vai mudar as coisas. Porém, o que os estudos mostram é que, desde a criação do euro, a abertura de novos centros de decisão saiu um pouco de Londres e se espalhou mais pela Europa, principalmente em Bruxelas, mas também em Paris”, observa Benassy-Quéré. “Acho que haverá algum efeito positivo, porém o tamanho deste efeito vai depender muito da capacidade da França se reformar, afinal é um país conhecido por não se poder demitir os funcionários e ter greves o tempo inteiro.”

Setor imobiliário de luxo se anima – mas consequências podem ser no comercial

A possibilidade de chegada de empregados do setor financeiro, de algumas grandes fortunas londrinas ou de retorno de franceses expatriados e afortunados fascina o setor imobiliário de luxo francês. Mas para o especialista neste mercado Thomas Grjerbine, pesquisador do Centro de Estudos Prospectivos e de Informações Internacionais, este tende a ser um fenômeno marginal para a economia. Ele afirma que, se ocorrerem, as maiores movimentações seriam nos empreendimentos comerciais.

“A metade da entrada de capitais no Reino Unido envolvia investimentos em prédios comerciais. É isso que causa apreensão agora porque há um certo pânico em relação ao Brexit: os investidores não sabem mais o que vai acontecer com os prédios comerciais e tentam vender as suas participações nesses lugares”, indica o economista. “Não acho que o fato de que um setor está mal na Inglaterra vá levar as pessoas para a França. Em relação a essa área específica, acho que os investidores terão mais tendência a considerar que não é um bom momento para investir em imóveis comerciais em geral.”

Promessa ou blefe dos bancos?

A grande questão, hoje, é saber o que era verdade e o que era blefe das empresas quando ameaçavam sair de Londres se o Brexit vencesse. O HSBC havia prometido fechar mil postos na Inglaterra e reabri-los em Paris, e o JP Morgan indicou a intenção de redirecionar até 4 mil vagas em outras praças europeias. Em reação, Londres não parece disposta a abrir mão das suas fortunas. O governo promete uma redução dos impostos para as empresas para até 15%.

“Não é certo que os bancos vão mesmo deixar o Reino Unido – eles farão de tudo para não sair de Londres. E mesmo se eles decidirem sair, a escolha tende a ser Frankfurt, onde está o Banco Central Europeu e já tem toda uma infraestrutura financeira mais desenvolvida”, ressalta Grjerbine. “Seria necessária uma estratégia da França para atrair os investidores estrangeiros. Sem contar que, pelo menos pelos próximos seis meses, não estamos em uma dinâmica positiva para a criação de novas empresas, seja em Londres, seja repatriando o negócio em Paris.”

Se alguns setores podem ganhar, as consequências negativas tendem a ser maiores. A França é um dos principais parceiros comerciais do Reino Unido, comprador de 8% do total de exportações francesas, e pode sofrer, indiretamente, as consequências negativas do Brexit à economia britânica. A queda esperada do crescimento do PIB e do valor da moeda britânica deve resultar em menos importações.

O comércio também será prejudicado se tarifas alfandegárias forem instauradas entre o bloco europeu e o Reino Unido. Os setores automotivos e aeronáutico francês, por exemplo, teriam perdas bilionárias em taxas que hoje são inexistentes.
 

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