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Economia

Economia solidária atrai profissionais qualificados em busca de “mudar de vida”

Áudio 07:01
Pierre Lamblin, diretor de pesquisa APEC.
Pierre Lamblin, diretor de pesquisa APEC. Captura de vídeo

Quem disse que trabalhar em uma associação sem fins lucrativos significa ganhar um salário “simbólico”? Na França, as vagas para profissionais altamente qualificados na chamada Economia Social e Solidária (ESS) estão em alta – um sinal de que o setor se profissionaliza e se tornou mais atraente, em especial para aqueles que sonham em mudar de vida, mas nunca tiveram coragem.

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No ano passado, 3,3% das ofertas publicadas no site da Association pour l’Emploi des Cadres (Apec) eram para vagas na economia solidária, o que representa quase 17 mil postos. “Cadre” é o nome dado na França para o topo da pirâmide profissional, que pode significar profissionais com grau superior ou diretores setoriais em uma empresa.

O diretor de pesquisas da Apec, Pierre Lamblin, afirma que o ramo vive uma dinâmica “positiva” na Europa. A ESS atrai especialmente jovens recém-formados em busca de “um sentido social à carreira”, ou profissionais experientes com mais de 40 anos, que decidiram dar esse passo depois de se frustrarem nas empresas tradicionais.

“Podemos perfeitamente chegar à satisfação pessoal e profissional neste setor. É um mercado com uma variedade imensa de oportunidades, especialmente nas associações de economia social e solidária. Dois terços das ofertas de emprego disponíveis em associações são para profissionais de alto nível”, afirma Lamblin. “Mas também há boas vagas em cooperativas, que englobam grandes estruturas com centrais de vendas, por exemplo, além de oportunidades em convênios de saúde, seguros e em fundações.”

Salário mais baixo, mas nem tanto assim

Uma diferença salarial brusca nem sempre acompanha essa mudança. As variações podem ser altas, de acordo com o setor – um trader de banco jamais vai ganhar um salário semelhante em uma associação ecologista do seu bairro. No entanto, a pesquisa da Apec indicou que a renda de um profissional qualificado na economia solidária não é tão inferior quanto se pensa: ganha em média € 46 mil brutos ao ano, contra o salário médio de € 50 mil euros brutos para os “cadres” em geral.

“Pode-se ter um cargo de gestão administrativa ou financeira em uma seguradora social e solidária e manter uma remuneração equivalente a que se teria em um banco privado”, nota o diretor de pesquisas. “A principal diferença nem é salarial, mas sim na estabilidade do posto de trabalho. Os contratos por temporada são mais comuns neste setor. Há três vezes mais contratos temporários no que nas empresas tradicionais.”

Isso acontece porque as associações, organizações ou cooperativas não costumam ter um orçamento fixo – muitas dependem de doações ou subvenções para existir. Neste contexto, fica mais difícil de se comprometerem a longo prazo com profissionais que custam caro na folha de pagamento.

De programador a fisioterapeuta de crianças

Essa incerteza não intimidou o programador de informática Emmanuel Dessendier, 47 anos. Ele iniciou a carreira em uma empresa independente, que mudou de perfil ao ser comprada após uma grande corporação internacional. As insatisfações crescentes levaram Emmanuel a buscar uma maneira de integrar o seu estilo de vida pessoal à carreira profissional. Foi quando ofereceu seus serviços a uma revista de ecologia política.  

“É preciso tentar se projetar no futuro, analisar a situação atual e chegar ao entendimento de que você não consegue mais trabalhar nessas condições. Então você precisa fazer alguma coisa, construir algo diferente”, revela o francês. “Você vai conhecendo pessoas novas e não sabe muito bem o que vai acontecer: só tem a certeza de que as coisas vão mudar.”

Paralelamente, decidiu mudar também de rumo: fez um curso de fisioterapeuta e integrou a equipe de uma associação especializada nos cuidados de crianças com necessidades especiais, na região parisiense. “É um trabalho bem mais horizontal, com uma gestão administrativa que dá muita autonomia. Não sei se é sempre assim, mas é possível encontrar vagas com este perfil”, diz Emmanuel. “Busquei uma instituição que tinha uma visão diferente de como se deve trabalhar, e foi isso que me fez decidir mudar.”

Preocupação social em primeiro lugar  

Despertar o interesse de profissionais versáteis como Emmanuel é um dos maiores desafios da Economia Social e Solidária para avançar. O que atrai esses profissionais é, principalmente, os valores da economia social: a utilidade social, a noção de solidariedade, a preocupação com problemas da sociedade nos dias atuais. São os valores humanos, porque a dimensão financeira, que visa o lucro, é menos importante do que nas empresas comuns”, atesta Pierre Lamblin, da Apec. “Os profissionais qualificados acabam encontrando mais sentido para o trabalho, através desse cuidado que eles terão com as outras pessoas.”

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