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Economia

Tendência de consumo consciente não se traduz em redução de compras

Áudio 05:40
Galeria Lafayette, a meca de consumo de Paris.
Galeria Lafayette, a meca de consumo de Paris. Lionel BONAVENTURE / AFP

Talvez nunca um Natal tenha sido tão influenciado pelo debate anticonsumista: segmento de comércio justo, mercado de objetos usados, alugar como alternativa a comprar, compartilhamento de produtos e serviços, campanhas como “FridaysForFuture” e “Green Fridays”.

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Muitas são as iniciativas para motivar a redução do consumo na França. Mas os franceses, por enquanto, parecem apenas mudar seu estilo na hora de comprar, e o comércio no país não dá sinais de arrefecimento.

“Globalmente o consumo continua a aumentar na França, com crescimento de 20% no último ano. O consumo e o poder aquisitivo estão em crescimento. A única evidência que denuncia uma redução é estar ‘sobrando dinheiro’. Mas talvez o francês só esteja querendo fazer uma reserva, não é um indicativo de que ele esteja com menos vontade de consumir”, teoriza Philippe Moati, professor de Economia da Universidade Paris-Diderot.

Mudam-se os setores do mercado e as formas de comprar, mas o consumo na França segue em crescimento. Para ele, a realidade de shoppings e mercados vazios, por exemplo, não significa necessariamente diminuição de consumo, mas, talvez, o desenvolvimento do e-commerce.

Philippe Moati, professor de Economia da Universidade Paris-Diderot.
Philippe Moati, professor de Economia da Universidade Paris-Diderot. arquivo pessoal

Assim como a retração do segmento de vestuário - em queda há dez anos, de acordo com o Instituto da Moda de Paris – pode ser interpretada como aumento na venda de outros nichos. “O mercado de roupas está saturado. Mas isso significa que as pessoas estão gastando com outras coisas, como viagens e planos de TV por assinatura”, acredita Moati, que também é cofundador do Observatoire Societé et Consomation (Observatório da Sociedade e do Consumo), em Paris.

"Comprar melhor"

Para ele, essas são evidências que a população parece estar determinada a “comprar melhor”, mas não necessariamente a comprar menos. Pesquisa realizada este ano pelo Observatório revela que a sociedade está cada vez mais crítica em relação ao consumo, em que 36% dos franceses se dizem prontos a consumir menos para consumir melhor, contra 26% registrados em 2015.

Mas o especialista explica que existe uma defasagem entre mudança de atitude e mudança de comportamento, o que justifica a dificuldade de uma transformação cultural, que pode demandar muito tempo para acontecer.

Em outras palavras, uma questão é estar de acordo que devemos mudar nossos hábitos de consumo (mudança de atitude), outra, bem diferente – e mais desafiadora – é mudar efetivamente nossa rotina (mudança de comportamento).

“Eu diria que as atitudes vêm antes do comportamento. O que as pessoas pensam não corresponde exatamente ao que elas fazem. Porque o comportamento é um efeito dos hábitos. É verdade que sobre o plano das atitudes, das opiniões, as coisas mudam rapidamente neste momento. Mas, por enquanto, isso não se traduz de maneira massiva no comportamento. Quando o comportamento muda, é porque as atitudes já mudaram”, define Moati.

“É como ter consciência de que não sabemos como é feita a comida industrializada, que ingredientes são utilizados. Mas, se não temos tempo de cozinhar, compramos um prato pronto. Também tentamos evitar de usar o próprio carro porque sabemos que é mais poluente, mas se o transporte coletivo não é eficiente, não resistimos e usamos o carro”, exemplifica o especialista.

60% dos franceses compram produtos de segunda mão

Alguns hábitos, por outro lado, já são tradicionais à sociedade francesa, como o “marché d’occasion”, o segmento de produtos usados, que ganha ainda mais vulto e novos formatos em tempos de movimentos anticonsumo. “Cerca de 60% dos franceses compram produtos de segunda mão, é um mercado já muito desenvolvido, que existe há mais de uma década, e que cresceu ainda mais com as compras pela internet. Isso quer dizer que estejam consumindo menos? Não. Estão apenas comprando mais barato e o dinheiro economizado é gasto com outras coisas”, acredita Moati.

A paisagista Celine Dussaule faz coro aos franceses adeptos ao mercado de usados. Suas compras para este Natal foram realizadas na loja do Movimento Emmaüs, um tradicional comércio solidário da França, que recebe doações, revende por preços acessíveis e converte sua renda para a população desfavorecida. Além da conotação social, ela alega que esse tipo de loja oferece maior diversidade de produtos, enquanto as marcas tradicionais são restritas aos artigos da moda.

Mas seu comprometimento com o consumo responsável vai muito além da compra de produtos usados. Celine é vegetariana, só consome produtos a granel, e produz, por exemplo, seu próprio sabão, creme dental e produto para lavar roupas.

"Eu produzo meu próprio sabão, em casa, o que é também uma grande experiência, é muito divertido de fazer. Há muito tempo que faço meu próprio produto para lavar roupas. Eu também confecciono meu creme dental. E é isso", conta Celine.

“Eu não consumo só por mim, eu consumo pelo planeta”

Ela alega que, além de reduzir o impacto ambiental, suas escolhas influenciam também na sua saúde e de sua família, por terem maior controle da qualidade do que consomem. A economia gerada pelos seus hábitos, ela enfatiza, é uma consequência, sendo as posturas ecológica e saudável os principais incentivos.

"Sinceramente, a primeira motivação é a ecológica, a segunda é saber o que eu consumo exatamente, e a terceira é o custo. É verdade que o produto para lavar roupas é bastante caro, e quando fazemos nós mesmos não custa quase nada, isso quer dizer um quinto ou um sexto do preço. Eu sei que não é uma grande economia, mas isso muda tudo."

Na verdade, as mudanças na vida de Celine Dussaule começaram pela profissão, quando a então florista, com uma loja no 11° distrito de Paris, diz ter visto pouco a pouco as flores típicas da região desaparecerem. “Vendíamos flores que eu não sabia exatamente de onde vinham ou como eram produzidas, e não privilegiávamos a produção local. Insatisfeita com os produtos e comprometida com a sustentabilidade, passei a pesquisar o mercado e a priorizar as flores da região”, conta. “Eu não consumo só por mim, eu consumo pelo planeta.”

A bibliotecária Marion Loire
A bibliotecária Marion Loire Arquivo pessoal

“Eu não preciso de coisas para existir”

Já a bibliotecária Marion Loire pode ser considerada uma ótima definição de “pessoa desapegada”, para quem os objetos que possuímos definitivamente não nos definem ou qualificam: “Eu não preciso de coisas para existir, eu não preciso de objetos para ter um status social”.

Mas nada de radicalismos! Marion respeita – e curte –, por exemplo, o costume de trocar presentes no Natal, cultivado pela sua família, afinal “é uma tradição e é para os outros”. Mas ela também é adepta da compra de produtos usados, evita grandes lojas, e prioriza produtos do chamado comércio justo.

“Eu quase não tenho móveis meus, tudo são coisas que as pessoas me deram ou que eu peguei na rua. Eu não tenho muita coisa para mim. Eu vou mais a restaurantes, bares, viajo bastante, eu leio muito, vou ao cinema. Esse tipo de consumo eu faço, mas comprar coisas, muito pouco", ela conta.

Na verdade, é correto afirmar que Marion consome pouquíssimo, admitindo comprar roupas no máximo uma vez por ano. E isso está longe de ser um modismo ou tendência, vem de berço. Ela conta ter sido educada desta forma, que sua família cultiva os mesmos valores, mas ela espera que a tendência possa sim se tornar uma verdadeira mudança de cultura, trazendo realmente novos hábitos a muitos consumidores.

“Sei que muitas grandes empresas tentam se beneficiar da tendência, vendendo produtos sob o discurso do ‘sustentável’, mas existe também um movimento sério, comprometido com o impacto ambiental. Ainda estamos longe de um modelo ideal de consumo, que inclusive não é acessível para todos, já que os produtos não-industrializados costumam ser mais caros. Mas temos sim muitas pessoas comprometidas em reduzir ou melhorar a qualidade do consumo”, acredita Marion.

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