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Economia

Brasil só perde ao se indispor com o Irã, maior parceiro comercial na região

Áudio 07:52
Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 24/09/2019
Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 24/09/2019 Alan Santos/PR

O desfecho da crise gerada pelo assassinato do general iraniano Qasem Soleimani pelos Estados Unidos ainda é uma incógnita, mas, em meio à escalada de tensões, o Brasil corre o risco de se indispor com o seu maior parceiro comercial no Oriente Médio.

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As trocas com a região são menos relevantes em comparação com grandes parceiros como a União Europeia, a China ou a Argentina. Mas em um contexto de retomada lenta da crise econômica, a possibilidade de perder mercados não é bem-vinda pelos exportadores, que planejam uma viagem ao país persa nos próximos meses para acentuar a aproximação comercial.

 

Desde a eclosão das hostilidades, o governo brasileiro hesitou em tomar partido, pressionado pelo meio empresarial que não via vantagens em Brasília se indispor com Teerã. Nos primeiros 11 meses de 2019, a balança comercial entre os dois países foi favorável ao Brasil em US$ 2,2 bilhões. Em todo o Oriente Médio, o valor chegou a US$ 5,3 bilhões.
 

“O Irã é um país superimportante na nossa história diplomática. Apesar de todas as reviravoltas políticas que tivemos aqui e lá, a nossa relação com os iranianos sempre foi pacífica”, destaca o professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi Jorge Mortean, especializado no Irã. “É um dos nossos grandes parceiros econômicos internacionais e um dos poucos do Oriente Médio que nos dá superávit comercial, graças às nossas exportações de frango, carne bovina, açúcar, milho, autopeças e outros produtos.”

 

Sanções levam Irã ao pragmatismo

 

Sufocada pelas sanções econômicas americanas, Teerã se esforça em ampliar suas parcerias econômicas – e países tradicionalmente neutros como o Brasil poderiam tirar proveito deste contexto, ressalta o especialista em comércio internacional e consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil.
 

“O Irã chegou a ser um dos principais importadores de carne e outros alimentos brasileiros, há 20 anos. Mas com o agravamento das sanções americanas, os negócios se tornaram mais difíceis e os bancos brasileiros sentem o temor de fazer operações com Irã”, relembra Barral. “Na prática, isso fez com que as exportações ocorram de maneira indireta, ou seja, o Brasil vende para outros países antes de chegarem ao Irã – que é um mercado importante, de 80 milhões de pessoas e um dos maiores da região.”
 

Na sexta-feira (3), horas depois do ataque americano que resultou na morte de Soleimani, o Itamaraty divulgou uma nota na qual associa o Irã ao terrorismo e se coloca ao lado de Washington. Em reação, Teerã convocou a diplomacia brasileira no país para dar explicações. Na visão de Barral, a melhor postura a adotar por Brasília teria sido a neutralidade.
 

“Primeiro porque o Brasil não tem nenhum interesse político imediato naquela região. E segundo porque todos os países de lá são clientes do Brasil, que é o maior exportador de carne halal do mundo, a carne preparada segundo os ritos muçulmanos. Não nos interessa ter lado num conflito que é secular”, analisa o consultor.
 

Jorge Mortean lembra que, nas suas relações comerciais, o Irã sempre foi muito pragmático, ainda mais depois das sanções internacionais. No entanto, medidas de hostilidade contra o país não costumam passar em branco. Além disso, Teerã conta com poderosos aliados, como Pequim e Moscou.  

 

Ameaças sobre o preço do petróleo

 

Para os especialistas, o efeito econômico mais evidente de um eventual conflito entre os Estados Unidos e o Irã tende a ser sobre os preços internacionais do petróleo, que estão em alta moderada desde o ataque. O aumento impacta amplamente na economia, dos transportes à produção industrial e agroalimentar. Países dependentes do petróleo iraniano, como a Índia, a Coreia do Sul e o Japão, sofreriam consequências ainda mais graves, adverte Mortean – que concluiu um mestrado em Teerã.
 

“O petróleo sempre foi a grande ferramenta de barganha do Irã, mesmo na época pré-revolucionária, na época da monarquia, assim como todos os demais países da região, que é literalmente afundada em grandes reservas de hidrocarbonetos. Com certeza o Irã vai continuar a pautar os seus próximos passos estratégicos com base no preço e na sua produção de petróleo e gás natural”, nota o professor.
 

Os preços dos combustíveis no Brasil são reajustados conforme a cotação do óleo no mercado internacional. Por enquanto, o governo brasileiro assegura que não pretende intervir nos valores.

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