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Esportes

Será difícil dar transparência à FIFA, diz candidato Jérôme Champagne

Áudio 05:55
Jérôme Champagne, candidato a presidencia já foi secretário-geral adjunto da Fifa.
Jérôme Champagne, candidato a presidencia já foi secretário-geral adjunto da Fifa. REUTERS/Francois Lenoir

Na próxima sexta-feira, 26 de fevereiro, o mundo vai estar com os olhos voltados para a sede da FIFA, em Zurique, onde será realizada a eleição para a presidência da entidade máxima de futebol. Cinco candidatos disputam a sucessão do suíço Joseph Blatter, afastando temporariamente de todas as atividades relacionadas ao futebol pelo envolvimento em casos de corrupção.

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O xeque Salman Ben Ibrahim Al-Khalifa aparece como o grande favorito, seguido do advogado suíço-italiano Gianni Infantino, secretário-geral da UEFA, que conquistou apoio da CONMEBOL, a confederação sul-americana de futebol. O príncipe jordaniano Ali Ben Al-Hussein perdeu a eleição de maio do ano passado para Blatter e briga de novo pelo posto. Além deles, estão na disputa o sul-africano Tokyo Sexwale, considerado mais fraco na corrida, e o francês Jérôme Champagne.

Ex-diplomata, que exerceu funções nas representações diplomáticas da França em Cuba, Brasil e Estados Unidos, Champagne quer usar sua experiência política e os 11 anos que passou dentro da FIFA, como ex-secretário-geral e ex-diretor de Relações Internacionais durante diversos mandatos de Blatter, para convencer os dirigentes das federações de que pode resgatar a credibilidade da FIFA.

Apoiado por personalidades como o brasileiro Pelé e o camaronês Roger Milla, Champagne, de 57 anos, se rotula como independente e o mais “latino-americano dos candidatos”. Ele tentou, sem sucesso debater com seus adversários as visões e os diferentes programas de governo para a FIFA. De Zurique, onde mora e se concentra nesta reta final de campanha, ele falou à RFI Brasil sobre suas chances e suas propostas para levar mais equilíbrio e justiça ao mundo do futebol.

Confira a entrevista:

O que vai definir essa eleição para a presidência da FIFA?

O momento na história da FIFA é muito grave. Os presidentes das federações que irão eleger o novo presidente da FIFA terão que responder a algumas perguntas: o que queremos do futebol? O futebol de hoje é globalizado, mas foi uma globalização que favoreceu uma elite. Hoje, temos 1% das federações e das ligas que têm tudo e 99% que estão sofrendo.

A classe média do futebol está comprimida, inclusive dentro da Europa. A desigualdade é crescente entre os continentes e mesmo dentro das ligas. Então, temos que decidir: queremos um futebol como o basquetebol, onde só uma liga é importante, no caso a NBA, onde as competições de clubes têm mais importância do que as competições internacionais, que é totalmente contrária à situação do nosso futebol?

As federações devem compreender que o que está na nossa frente é muito perigoso: o controle da UEFA sobre a FIFA, que é a visão histórica da UEFA. Temos que revisitar a história do senhor Havelange em 1974. Para quem não sabe, o presidente Havelange, quando ganhou a eleição, derrubou o eurocentrismo da FIFA. E a cada quatro anos, desde 1974, vemos as mesmas tentativas de controlar novamente o futebol mundial.

Nesses 40 anos, o futebol se globalizou, com uma FIFA forte. Podemos contrabalançar a importância do futebol europeu no futebol mundial. Então, dar hoje as chaves da FIFA para a burocracia da UEFA seria correr o risco de voltar a um futebol unipolar. Por isso me candidatei, para defender uma visão mundial do futebol, multipolar, ou seja, respeitando o futebol da elite, mas dando oportunidades para todos os países.

 Por que não aconteceram debates entre candidatos?

Eu tinha proposto esses debates públicos. Acho que teria sido importante para os presidentes das federações, para o mundo do futebol, para os torcedores. Seria um começo para a reconstrução da credibilidade da FIFA. Mas também para poder comparar os candidatos, os programas. Estou convencido de que eles não queriam debater comigo por muitas razões. Isso é uma vergonha porque os candidatos defendem uma democratização da FIFA, mas se recusaram a fazer esse trabalho democrático.

Quais são as chances concretas de o senhor sair vitorioso dessas eleições, na medida em que muitas confederações já anunciaram seu apoio a outros candidatos?

Primeiramente, as confederações não são membros da FIFA. São órgãos independentes, que não deveriam dar instruções e fazer pressões. Na eleição de 1998, quando o sueco (Lennart) Johansson , presidente da UEFA, tinha o apoio unânime de quatro das seis confederações, somando tinha um potencial total de 155 votos, mas só recebeu 80 na eleição. Só para dizer que na hora do voto, as federações vão votar com independência. Digo isso pela minha experiência e independência, já que sou independente em relação a poderes políticos.

Há uma semana, o presidente da Rússia recebeu em Moscou o rei do Bahrein. E os dois disseram que os governos vão trabalhar pela eleição da FIFA. Por favor…O princípio fundamental do mundo desportivo é a independência em relação aos poderes políticos. Digo aqui com muita força: vivi em Cuba, em Brasília, em Los Angeles, a região mais hispanofônica da Califórnia. Estou convencido de que sou o mais latino-americano de todos os candidatos. A minha forte convicção é de que o futebol não deve estar a reboque do futebol europeu. Estamos diante de um sistema profundamente desigual no qual países como o Brasil, por exemplo, estão fornecendo a matéria-prima futebolística exportada diretamente. O Brasil perde todo ano cerca de mil jogadores, que invadem outras ligas, e está perdendo seus recursos. O valor agregado dessas matérias-primas é tomado pelos clubes dos países do norte. É um sistema totalmente desigual.

Eu sou o único candidato que tem a visão de corrigir essa desigualdade e as consequências históricas dessa globalização. O futebol sul-americano não deve só pensar em vender atletas para as Ligas Europeias, mas procurar desenvolver ligas e federações mais fortes. O continente tem que observar essa visão multipolar e não apenas seguir o que diz a UEFA.

Quais são suas propostas para corrigir essas distorções? O sr.  propõe uma câmara de compensação financeira. Como funcionaria?

Primeiramente, temos que reconhecer os problemas da desigualdade. Os 20 clubes mais ricos da Europa têm um faturamento anual de € 6,8 bilhões enquanto mais de 100 das 209 federações nacionais sobrevivem com menos de US$ 2 milhões por ano. Hoje, vemos que tem mais dinheiro no futebol sul-americano do que há 20 anos, mas a diferença em relação à Europa cresceu. Pretendo criar dentro da FIFA uma divisão de esporte profissional para divulgar a todas às ligas do mundo as melhores práticas e o conhecimento para melhorar o funcionamento dos clubes, das academias. Sou o único candidato a ter essa visão para reequilibrar isso.

Esse reequilíbrio passa pela questão financeira, desde a distribuição dos direitos de imagem e de transmissão de jogos e eventos esportivos. É possível controlar esse mecanismo de distribuição?

É claro que é possível. A Liga Inglesa, por exemplo, quantos milhões recebe pelos direitos da transmissão de jogos na Índia? E qual o investimento dela naquele país? Zero! Zero! O sistema econômico do futebol é totalmente injusto.

No Brasil, você exporta vários jogadores todo ano e depois, para vê-los jogar, você tem que pagar caríssimo pelos direitos de ver essas competições europeias. Mas essas competições europeias competem ao mesmo tempo com o campeonato brasileiro, a Copa do Brasil, a Série B. Ao mesmo tempo, as Ligas Europeias tomam muito dinheiro do mercado da televisão no Brasil, sem reinvestir em nada. O papel da FIFA é retomar a liderança e animar o debate sobre esse tema.

Temos que pensar e proteger os clubes que formam jogadores. Ontem, por exemplo, o sindicato mundial dos jogadores, afirmou que apenas 1% dos valores das transferências é redistribuído aos clubes formadores. O regulamento da FIFA impõe 5%. Minha proposta é criar uma câmara de compensação para as transferências internacionais.

Atualmente, quando um clube A vende um jogador para o clube B, o dinheiro vai diretamente do clube B para algumas pessoas ligadas ao clube A. Minha proposta é que esse dinheiro vá para uma câmara de compensação ligada ao sistema de transferência da FIFA, com a lista dos clubes formadores. Ao invés de esperar de um a dois anos para receber o dinheiro, eles recebem imediatamente, sem ter que contratar um advogado na Suíça. Tenho uma visão para reequilibrar e redistribuir o dinheiro.

 O Comitê Executivo da FIFA encaminhou uma série de reformas para a entidade. O que acha das propostas?

Em 2012, enviei a 209 federações da FIFA um documento intitulado “Que FIFA para o século 21?”. Fui o primeiro a denunciar o disfuncionamento do comitê executivo, os problemas de desigualdade no futebol, mas também propostas de reformas. A partir de 2012, tenho proposto a separação das funções governamentais da FIFA das atividades comerciais. A FIFA não é uma entidade privada: é um governo.

Temos que garantir que os leilões, os contratos de marketing e de direitos das transmissões de TV sejam feitos de maneira totalmente independente, sem permitir nenhum tipo de corrupção, ou de alegação da corrupção. Propus também contrabalançar o poder dos continentes. Para mim, sempre foi ilógico que a Europa, com 25% das federações, tenha 33% dos votos na FIFA. Tinha também proposto a inclusão dos jogadores e ligas nos processos de decisão e de mais mulheres no sistema. Eu apoio essas reformas, mas ainda não avançamos suficientemente. Se o próximo presidente não vier de um país democrático, ou vier de um sistema que não respeitar esses princípios, a FIFA não vai melhorar.

O sr. acredita que é possível acabar com a corrupção no futebol?

Muitas das acusações lançadas contra a FIFA foram lançadas contra o comportamento dos responsáveis pelas confederações continentais. E lembro que as confederações são independentes da FIFA e se recusam a ser controladas. Hoje, a FIFA é criticada por tudo o que há de ruim no futebol, inclusive quando a FIFA não tem responsabilidade. Reconheço a perda da credibilidade e vai ser uma luta complicada, vamos encontrar resistências. Resistência para proteger a FIFA da influência política, do peso e domínio dos grandes clubes europeus. Vamos encontrar resistências para dar mais transparência. Vai ser complicado, mas fui o primeiro a fazer proposta realistas para melhorar a situação.

Como o sr. acompanha os casos de corrupção envolvendo a CONMEBOL?

Não posso dar opinião do que não conheço em detalhes. Leio tudo pela imprensa. Não posso comentar. Estou a favor da justiça, confio no sistema democrático e defendo o princípio de presunção de inocência até o julgamento, um princípio fundamental em uma democracia.

O sr. trabalhou muitos anos com Joseph Blatter e mantém com ele uma relação pessoal. Nessa eleição para a FIFA, essa proximidade pode ser prejudicial à sua candidatura?

Não. Primeiramente, gostaria de explicar que quando trabalhei na FIFA durante 11 anos, nunca exerci funções nas áreas financeiras, comerciais ou negociando direitos de televisão. Trabalhei na parte do futebol ligada às federações nacionais. Fui demitido em janeiro de 2010 por uma conspiração liderada por pessoas como Jérôme Valcke, que muitas pessoas no Brasil conhecem bem, ou mal (risos), pelo qatari Bin Aman [xeque Mohammed Bin Aman Al-Thani], e pelo Michel Platini. Todos já brigavam pela sucessão do Blatter.

Há seis anos, tenho os pés fora da FIFA, portanto, sem nenhuma responsabilidade em tudo o que aconteceu nesse período. A minha vantagem é que não vou precisar de cinco meses para entender como é fazer o trabalho do presidente. Se for eleito, posso começar a trabalhar no dia seguinte, dia 27.

Como vai ser essa reta final de campanha?

Eu não tenho apoio financeiro de instituições como a UEFA, nem avião privado para fazer campanha. O que fiz foi falar com cada presidente das federações. Sei muito bem que por trás dessas declarações unânimes de apoio, assinadas ou não, cada federação vai votar como quiser. A força dessas federações está na liberdade do voto. Já enviei às federações africanas a declaração de apoio de Roger Milla, o ex-jogador de Camarões, o melhor do século 20, do jogador Lilian Thuram, francês campeão do mundo, que trabalha muito na luta contra o racismo e a favor da diversidade no futebol, e tenho apoio do Pelé. Falo do apoio das pessoas, mas não das federações, para não colocá-las em situação de receber pressões em função de declarações que poderiam fazer em meu favor.

Quais são as chances de o sr. assumir a presidência da FIFA?

É muito complicado. Muitas coisas podem acontecer nesses dias antes da eleição. Você sabe muito bem o que aconteceu no dia 27 de maio, dois dias antes da última eleição para a presidência da FIFA em 2015. Essa eleição é muito fluida, aberta. Temos dois candidatos, o Infantino [Gianni Infantino] e o xeque do Bahrein [Salman Ben Ibrahim Al-Khalifa], que já dizem ter pelo menos 105 votos, a maioria. Mas pode ser diferente.

Quando viajo por vários continentes, contabilizando os votos, sei que não é a verdade. Vai ser uma eleição complicada. Não posso dizer uma porcentagem de chances porque tudo pode mudar depois dos 15 minutos de cada candidato diante do Congresso. Eles podem ser muito decisivos.
 

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