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Esportes

"Realizei um sonho de criança”, diz tenista brasileiro de cadeira de rodas em Roland Garros

Áudio 05:46
O tenista Ymanitu Silva foi o primeiro brasileiro a jogar na categoria quad em Roland Garros.
O tenista Ymanitu Silva foi o primeiro brasileiro a jogar na categoria quad em Roland Garros. Foto: Elcio Ramalho/RFI

Além da modernização do complexo de Roland Garros, uma das novidades este ano do torneio mais badalado do circuito de tênis, foi a estreia da categoria “quad” na competição para os tenistas de cadeira de rodas.

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A novidade contou com a presença do brasileiro Ymanitu Silva, convidado pela Federação Francesa de Tênis para participar da primeira competição da história no saibro parisiense.

Ele disputou e perdeu os dois jogos do torneio individual. Primeiro foi derrotado pelo australiano Dylan Alcott, número 1 do ranking mundial, por 2 sets a 0 (parciais 6/1 e 6/2). Na disputa pelo terceiro lugar, no sábado (8), perdeu de virada para o japonês Koji Sugeno, por 2 sets a 1. (6/3, 4/6 e 2/6).

No torneio de duplas, ao lado do japonês Sugeno, amargou outra derrota para a dupla Dylan Alcoot e o americano David Wagner. Apesar dos resultados negativos, Many, como é mais conhecido, vibrou com sua vinda ao torneio.

“A categoria está conquistando espaço em Roland Garros, e mostra que está se tornando cada vez mais profissional. Ela não fica excluída como ficava em Roland Garros e Wimbledon. Participamos agora de todos o circuito de Grand Slams. Isso é fundamental porque faz com que trabalhemos mais duro ainda. Foi um grande prazer e uma grande alegria estar na estreia desta categoria em Roland Garros”, disse.

Nas arquibancas, Ymanitu contou com uma torcida especial. Além de seu estafe e da noiva, o tricampeão de Roland Garros, Gustavo Kuerten, veio dar uma força para o atleta, que tanto o inspirou. Ele lembra que começou a praticar o tênis em cadeiras de rodas no mesmo ano em que seu ídolo Guga encerrou a carreira, em 2008.

“Ele disse que gostaria de seguir jogando mas o corpo não o deixava jogar como queria. Eu tive a experiência de sentar na cadeira de rodas e reviver esse sonho. Estar jogando no templo sagrado que é Roland Garros, que para nós brasileiros tem um gostinho especial, é muito importante para minha carreira. Consolida o trabalho duro diário que venho fazendo. Contar com a torcida do nosso ídolo, que também é meu amigo, é fundamental. Ele passa uma boa energia, uma tranquilidade que consegue até me deixar mais calmo em quadra. Parece que ele vai abrindo os caminhos da vitória”, declarou.

O catarinense Many praticou tênis dos 10 aos 17 anos. A sua vida tomou um outro rumo aos 22 anos quando um acidente automobilístico o deixou paraplégico.

Ele redescobriu o esporte durante o tratamento e decidiu investir na carreira de atleta. São 11 anos de tênis em cadeira de rodas, sendo cinco na categoria “quad”.

Nessa categoria, o atleta precisa ter uma limitação também dos membros superiores, diferentemente da outra categoria, "Open", na qual participam os atletas com limitações apenas dos membros inferiores.

O tenista Ymanitu Silva durante jogo na disputa do terceiro lugar da categoria "quad".
O tenista Ymanitu Silva durante jogo na disputa do terceiro lugar da categoria "quad". Foto: RFI / Elcio Ramalho

Atualmente, Many é o oitavo melhor tenista do ranking da mundial e recebeu o wild card da Federação Francesa de Tênis para participar do torneio parisiense.

O convite é resultado da boa relação e parceria entre a FFT e a Confederação Brasileira de Tênis, além da visibilidade de Gustavo Kuerten.

Para vir a Paris, Many contou com o apoio financeiro da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). Jesus Tajra, vice-presidente da CBT e coordenador do departamento de tênis em cadeiras de rodas, explica como a instituição tem apoiado o atleta.

“Nós temos muitas ações do tênis em cadeiras de rodas no geral, tanto na base como no intermediário e no avançado. O Many já é da estrutura de avançados, que são competitivos. O circuito é longo e a verba muito curta e tem que dividir por vários jogadores no Brasil. A gente busca apoiar o máximo possível o atleta que está na ponta, mas sem prejudicar a base porque é preciso ter renovações constantes. Precisamos pensar em um todo e não apenas em um nível”, disse em entrevista à RFI.

Jesus disse ter visto o melhor jogo de Many em quadra, apesar da derrota para o japonês na disputa pelo terceiro lugar. “Ele está em uma crescente. Tem agora três torneios pela pela frente e tem condições de estar entre os três primeiros do ranking”, avalia.

Seu treinador, Bruno Batista, que veio a Paris acompanhar a estreia de Ymanitu em Roland Garros, diz que irá voltar para Santa Catarina com um tenista mais amadurecido. 

“A avaliação é de que ele está no nível dos Top 5 e almejamos melhorar cada vez mais a posição dele no circuito. Vamos voltar para casa de cabeça erguida. Vamos trabalhar no que for necessário para evoluir cada vez mais o atleta”, afirmou. 

Objetivo Tóquio 2020

Apesar do apoio institucional da CBT e de patrocínios de empresas privadas e públicos, os investimentos ainda não são suficientes para Ymanitu se dedicar ao tênis com exclusividade, como gostaria. “Meu sonho é um dia viver totalmente do esporte, do tênis que é minha paixão”, afirma.

Seus treinos são no período da tarde, mas de manhã é funcionário no departamento de marketing de uma empresa de cerâmica em Santa Catarina, que o apoia também liberando-o para participação em torneios fora e dentro do país.

Depois do Grand Slam francês, ele participa de torneios no interior da França, depois República Tcheca e Polônia, antes de voltar para o Brasil.

Seu maior objetivo é garantir vaga nas Paralimpíadas de Tóquio, em 2020. Apenas os 12 melhores do ranking da ATP entram na disputa. Atualmente número 8, ele pretende disputar até junho do ano que vem pelo menos 20 torneios importantes do circuito.

“Meu trabalho duro é classificar para Tóquio. Quero tentar trazer a medalha que o Brasil ainda não tem no tênis. Vou tentar ser o primeiro brasileiro a conquistar esse feito. E quero voltar aqui (em Roland Garros) no ano que vem”, completou.

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